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Carla Iane Telécio: conectada para se tornar visível

Estudante de psicologia, Iane Telécio, 23 anos, aprendeu as diferenças das pessoas com nanismo na própria família (Foto: Helene Santos)
00:00 · 09.12.2017

Nascer com nanismo numa família na qual a mãe e mais três tios são portadores da mesma condição não causou estranhamento para Carla Iane Telécio, 23 anos. "Pra mim, a baixa estatura sempre foi normal, eu nasci num ambiente familiar que me protegeu e me ensinou muito", reforça. Isso, contudo, não fez diminuir as barreiras físicas do mundo real que Iane teria que enfrentar sozinha.

Quando criança, o tamanho de fato não interferia em nada. Frequentava bons colégios, brincava com os amigos e estava sempre amparada por todos. Até na hora de confeccionar a farda, a escola tinha a preocupação de fazê-la conforme suas medidas. "O meu processo educacional foi muito bom e eu fui bem preparada, mas, na verdade, eu vivia numa bolha", lembra.

Com o passar do tempo, precisou enfrentar outros desafios, como a nova escola do Ensino Médio e a faculdade. Desde quando deixou o Ensino Fundamental, sentiu a necessidade de caminhar com as próprias pernas, mesmo sendo curtas. Acordava às 5 horas, ia à escola e depois ao estágio, ora em Crato, ora Barbalha. Esses percursos, relativamente próximos para quem mora em Juazeiro do Norte, tornavam-se mais longos. As dificuldades já começavam no embarque do ônibus. Com pernas e braços encurtados, Iane não conseguia subir no veículo que, erroneamente, parava distante da calçada. "Eu não tenho problema com o nanismo, mas as pessoas, na maioria das vezes, não conseguem nos ver. De tanto eu persistir, me tornei visível aos olhos daquele motorista".

Mundo real

Desde muito cedo, Iane compreendeu que precisaria se adequar, pois sabia que o seu mundo, até então, era imaginário. "Na verdade, o mundo é melancólico. Eu sofria porque o nanismo é um sofrimento que nos faz crescer, nos faz voar. E todos sofrem de alguma forma, a vida não é bela o tempo inteiro", dispara. Contudo, essas percepções só foram se fortalecendo quando ela trocou o curso de Fisioterapia pelo de Psicologia.

A estudante já estava ciente dos entraves físicos que enfrentaria no curso anterior, porém, não imaginava que se apaixonaria tanto pelo atual. Cursando o 6° semestre, conheceu pessoas de todo jeito, com sofrimentos visíveis e não visíveis, e isso a também ajudou neste processo de compreensão das diferenças.

Iane passou um tempo se questionando: "o que eu penso da minha estruturação social? O que essa deficiência implica em mim? E então descobri que não sabia nada sobre mim". Nessa busca do autoconhecimento, amadureceu e aprendeu a sublimar a própria vida. A paixão pelas artes, herdada dos tios Ciço e Zizi, contribuiu neste encontro consigo mesma.

Cheia de energia, comunicativa e "conectada" com o mundo real, Iane está organizando um canal na internet para falar e informar sobre o nanismo e demais diferenças. Acredita que, dessa forma, poderá contribuir, em especial, com aquelas pessoas que continuam invisíveis. Para ela, ir além, transcender, é compreender esse processo: "Quando isso acontece, as pessoas começam a enxergar de verdade, e você se torna visível".

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