Reportagem Canal do Trabalhador completa 25 anos

Capital: uma geração que desconhece seca

00:00 · 18.11.2017 por Lêda Gonçalves - Repórter

Bem diferente de seu bisavô, um dos retirantes da seca de 1915, quando, a exemplo dos personagens tão bem retratados na obra de Rachel de Queiroz, foi obrigado a fugir com a família para a Capital cearense em busca de vida melhor, o agricultor Diego de Castro sobrevive em seu pedaço de terra, no município de Russas, há seis anos de estiagem, graças a um poço escavado com sacrifício e ao Canal do Trabalhador. Ele mora praticamente na beira do equipamento, construído em 1993, de forma emergencial, para salvar Fortaleza de um colapso de água. "Apesar de todas as dificuldades, não me sinto obrigado, pela estiagem, de ir para a Capital. Eu, minha esposa e filhos, assim como muitos aqui, estamos nos salvando com essa água que vem do Rio Jaguaribe", emociona-se.

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A história dele é a mesma de milhares de sertanejos, resilientes ao drama da seca mais severa dos últimos 100 anos, e se mantêm em suas localidades, apesar de todo sofrimento em superar a falta de água ou a pouquíssima oferta dela, o sol implacável, a quentura mesmo durante a noite, e toda sorte de desafios. Diego é o retrato desse cearense, "cabra da peste", que reaprendeu a viver no semiárido em qualquer circunstância, clima ou tempo. Essa readaptação se apoia na infraestrutura hídrica, reforçada ao longo das últimas três décadas pelo Estado, com a construção de açudes, adutoras de engate rápido, perfuração de poços e pelos canais de integração, possibilitando o gerenciamento de todos os recursos hídricos e levando água para onde é mais necessário pela escassez de tudo.

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O primeiro deles, o Canal do Trabalhador, irá completar, em 2018, 25 anos de existência. "Com a severa estiagem em 1993, que já vinha se anunciando desde 1991, Fortaleza enfrentou sérios problemas no abastecimento de água, com impacto também na economia, pois o turismo ficou comprometido e empregos em risco. "Tínhamos um desafio a resolver: um rio, o Jaguaribe, a pouco mais de 100km, nos pareceu como a única reserva possível. O problema era como transportar essa água e abrir um canal, utilizando manta asfáltica, foi a melhor solução em curto prazo", conta o professor e ex-titular da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado (SRH), Hypérides Macedo.

Com isso, lembra, a última vez que Fortaleza enfrentou o perigo de um colapso de água e a um racionamento necessário foi nesse período. "Então, temos uma geração na Capital que não sabe ou só ouviu falar em seca. O Canal do Trabalhador iniciou ou potencializou todo o atual sistema de gerenciamento dos recursos hídricos, hoje, referência no mundo", comenta ele, acrescentando que, mesmo com mais da metade de uma década com poucas chuvas, não existe o cenário de carcaças de gado margeando estradas ou gente fugindo de seus lugares por causa da seca. "É tanto que durante esse tempo de seca, o Estado manteve uma economia e uma agropecuária equilibradas".

Com a missão de garantir o abastecimento da Capital, o Canal foi feito em pouco mais de 90 dias e conseguiu salvar a Capital. O equipamento capta águas do Rio Jaguaribe, despejando-as no Açude Pacajus, garantindo o abastecimento de água da Região Metropolitana de Fortaleza. As águas são transportadas em seguida para o Sistema Pacoti/Riachão. O Canal do Trabalhador atravessa os municípios de Itaiçaba, Palhano, Cascavel e Pacajus, beneficiando Russas e Morada Nova, "Com as fortes chuvas ocorridas em 2004, os açudes cearenses voltaram a encher e o Canal passou a não ter mais a importância demonstrada na época de sua construção. Agora, com os seis anos de estiagem, ele voltou a ter importância para as comunidades por onde passa", aponta.

O titular da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos, João Lúcio Farias, explica que o Ceará possui um sistema que funciona de forma muito flexível, no sentido de que tem várias alternativas para garantir o abastecimento. Nem todo o Brasil tem essa condição, essa infraestrutura hídrica que o Estado tem hoje, com isso, aponta, a gestão pode a qualquer momento fazer transferência de água, seja do Orós, seja do Banabuiú, seja do Castanhão para reforçar o Sistema Metropolitano. "Inclusive, reverter o sentido dos canais. Temos estações de bombeamento, e assim podemos mudar o sentido da água, como agora no Canal do Trabalhador, que ao invés de garantir água para a RMF, está no sentido do sertão".

Para o casal Ivan Lima e Jucileide Gomes, de Morada Nova, essa água, via canal, é uma bênção. "Tive irmãos que saíram do Ceará por causa da seca. Essa tristeza nós não temos mais", afirma.

Rio Jaguaribe muda a paisagem do sertão

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Com 633 km de extensão, Jaguaribe é o maio r e mais importante manancial do Ceará (Fotos: Kid Jr)

Se o Canal do Trabalhador ainda continua imprescindível para os municípios de seu trajeto, o Rio Jaguaribe mantém a sua imponência por ser o maior e mais importante curso d´água do Ceará. Afinal, são 633 quilômetros de extensão, desde a Serra da Joaninha, em Tauá, até a sua foz no Oceano Atlântico, passando por 81 municípios cearenses. "Na realidade, foi e ainda é o salvador da pátria da vida da gente", comenta o auxiliar de cozinha Maurílio Lima, do município de Jaguaribara, a 230 km de Fortaleza. Ali, ele ajuda a esposa a lavar roupa, enquanto aproveita para tomar banho e amenizar o calor do dia. Aqui, o rio está bom, e com água", diz.

Entretanto, nem tudo são flores. O Jaguaribe sofre com a degradação e poluição ao longo de todo o seu percurso. "É preciso entender que os mananciais são finitos", alerta o professor e engenheiro hidráulico da Universidade Federal do Ceará, José Nilson Campos.

Para ele, existem algumas abordagens novas em relação ao assunto recursos hídricos, como a questão da essencialidade da água. Ninguém vive sem água, porém, ninguém vive só com a água. Você precisa tê-la para viver, mas precisamos também para produzir, para alimento. O conceito novo no Fórum Mundial das Águas, que acontecerá no próximo ano em Brasília, é o chamado "nexos", o trinômio: água, alimento e energia.

A interconexão entre a água, energia e alimentos (também chamada de "stress nexus") é a questão mais vital em um mundo em adaptação à mudança climática. "Veja bem: para tratar e transportar a água é necessário o emprego de energia, mas para produzir energia a água está presente em todos os processos energéticos". Entretanto, diz, tanto a água como a energia é necessária para cultivar alimentos. Esse é o mais importante elo existente entre os três.

O grande desafio é o equilíbrio dos três "exes", dessa tríade. É trabalhar com equilíbrio. "Não pode ser só água, pois sem emprego não tem dignidade, sem energia não tem conforto", analisa.

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