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Capital cearense é primeira a apresentar resultados promissores

00:00 · 13.01.2018

As expectativas despejadas sobre o último leilão de aeroportos - editado para ser mais adequado à realidade brasileira após desentendimentos entre governo federal e concessionárias - estão se fazendo realidade em Fortaleza. A Capital cearense surge como a cidade de melhor desempenho entre Porto Alegre, Florianópolis e Salvador, que também tiveram seus terminais concedidos à iniciativa privada dez meses atrás e deve superar a média de R$ 10,2 bilhões gerados na economia cearense anualmente. A chegada de uma empresa especializada em gestão de aeroportos e o acordo com um grande grupo de aviação para mais voos são apontados por especialistas como os principais motivos desse notório sucesso. Mas outros elementos compõem a fórmula que impulsiona a aviação na cidade.

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"Até agora, Fortaleza está tento o melhor desempenho, pois os resultados mais promissores foram os da Fraport", analisa o professor do Laboratório de Transporte Aéreo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Cláudio Jorge Pinto Alves, ao falar dos trabalhos da empresa que assumiu o Aeroporto Internacional de Fortaleza no início deste ano, citando como facilitadores a capacidade do terminal e a reconhecida localização geográfica estratégica.

O chamado "kit de oportunidades", como se refere Alves aos fatores responsáveis pelos resultados promissores no Ceará, inclui ainda outros elementos: "a demanda crescente na Região, a expertise, o poder de fogo, os contatos da concessionária, e o interesse das companhias aéreas". "Nesses aspectos, Fortaleza é privilegiada e o Estado está proporcionando vantagens em outras áreas, como o turismo de negócios", arremata Alves, sobre os esforços do governo cearense em promover uma agenda diversificada para o turismo local.

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Avanço surpreendente

Já o ex-presidente da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) e atual presidente do Instituto de Transportes Aéreos do Brasil e da Sociedade do Direito Aeronáutico e Espacial, Adyr da Silva, aponta a capacidade de expansão da demanda do Nordeste como um dos principais impulsionadores do crescimento desenhado para o Ceará no mercado de aviação civil. Ele afirma que as companhias estão de olho no futuro, quando a demanda para a Região deve ser bem maior que a atual, enquanto as concessionárias preparam a infraestrutura para isso.

"Nós estamos diante de um fato bastante positivo. Assim, Fortaleza vai se ampliar porque existe demanda e investimento. Na Capital cearense, nos idos de 1990, quando se usava aquela estação geral perto da base (aeroporto antigo) e, depois, com poucos incrementos de infraestrutura, com pista, pátio, auxílio, e um terminal novo, Fortaleza deu um salto e foi tão surpreendente, que o que parecia superdimensionado mostrou-se que tinha uma bela ocupação e atingiu uma saturação inesperada em um tempo razoavelmente pequeno", avalia o especialista, sinalizando que o mesmo pode ser visto numa próxima fase do Aeroporto de Fortaleza, agora, após a intervenção planejada no leilão de concessão.

Sustentação

Mas a saturação não deve acontecer já nestes primeiros anos, segundo Silva. Os novos voos do hub do Grupo Air France-KLM e Gol, esperados para iniciar operação a partir de maio, devem demorar para atender à taxa de ocupação ideal. No entanto, ele diz que o mercado deve se sustentar a partir da integração do trade, com o trabalho conjunto com as agências de viagens e a rede de hospedagem. "São empresas vinculadas a grandes grupos. Elas têm uma base mínima para não fazer bobagem para não fazer como outras que já vimos aqui no Brasil", afirma.

Desafios e concorrência

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Mesmo reconhecendo que "nenhuma das empresas que entraram no mercado brasileiro da aviação aproveitou essa situação como Fortaleza", ambos os especialistas demonstram cautela a respeito da concorrência com os maiores terminais do País. Com a economia nacional tendo o eixo Rio-São Paulo como referência e a política do País concentrada em Brasília, ainda é difícil de cidades do Nordeste, principalmente, despontarem em um mercado tão competitivo quanto o da aviação.

"Vamos botar os pés no chão. Começamos as concessões, agora, em 2011. Exceto por Natal, que foi um primeiro teste, passando pelos demais já concedidos (Rio, Guarulhos, Brasília e Campinas), a ideia de concessão inicial mostrou-se que não foi 'uma boa pedida' e estão refazendo várias renegociações. Os contratos de Fortaleza e os outros três (Florianópolis, Porto Alegre e Salvador) já vieram sob outra bandeira e não vão precisar bancar a Infraero do lado. Então, o resultado me parece bem-sucedido. Mas vamos ver o que vai acontecer. As empolgações são diante do cenário que o concessionário tem na região, mas pode acontecer o inverso", observa Cláudio Jorge Pinto Alves.

O especialista do Laboratório de Transporte Aéreo do ITA alerta ainda para o problema de expansão de Fortaleza, que, caso a demanda estrangule a capacidade do projeto executado pela Fraport, não tem como crescer. Porém, segundo ele, os concorrentes mais próximos sofrem com crises mais imediatas e de solução mais difícil. "Em Natal, por exemplo, a localização é ruim, falta apoio do Estado para estabelecer o acesso, o que transformou o Aeroporto de Natal num elefante branco", diz.

Sobre os demais terminais, Alves menciona "um problema ambiental sério em Salvador", "as muitas mudanças necessárias" para Porto Alegre, "que também não tem como crescer mais", e "uma mudança de pátio necessária em Florianópolis, que tem uma demanda boa, mas sazonal". "Se fosse para apostar, eu estaria menos otimista com o Sul, exceto com Florianópolis, e mais otimista com Fortaleza. Mas as novas concessionárias vão precisar ser bem criativas para dar conta dessa demanda", considera o especialista.

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