Reportagem

Campos esquecidos

00:00 · 03.06.2017 / atualizado às 18:10 · 05.04.2018 por João Bandeira Neto - Editor-Assistente

Bem antes das grandes arenas, dos belos campos e das aconchegantes arquibancadas nas praças esportivas do Ceará, o chão de terra era o palco onde a bola rolava para divertir os fortalezenses no início do século XX.

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Parte da história

Quando o estudante José Silveira, em 1904, organizou a primeira partida oficial em Fortaleza, ele jamais iria imaginar que o esporte iria mudar hábitos das classes mais ricas da época, dividir famílias e alterar a vida de muitos jogadores, que viram a esperança de vida melhor no rolar daquela bola de couro.

Ainda concentrada em ruas próximas ao litoral, sem iluminação e com classes sociais bem delimitadas, o futebol nos primeiros anos em Fortaleza foi extremamente excludente e um luxo para poucos atletas.

Lugares incomuns de se imaginar na metrópole que Fortaleza se tornou já sediaram partidas de futebol. Praças, ruas, avenidas, universidades e igrejas que vemos hoje, já receberam o esporte mais popular do Estado. Com o desenvolvimento da cidade, os espaço foram reaproveitados, e as praças esportivas da Capital ficaram limitadas.

Local da primeira partida, quem passa ou visita o Passeio Público não imagina que o espaço já foi palco e presenciou grandes partidas do Foot-Ball Club, o primeiro time montado no Ceará. Por anos, as dependências do Passeio Público sediaram partidas entre o clube contra tripulantes dos navios que estavam de passagem pela cidade.

Rivalidade

Em um período anterior ao das grandes rivalidades do futebol cearense, como Fortaleza contra Ceará, havia uma tão acirrada quanto. Os confrontos entre as ruas 24 de Maio e Barão do Rio Branco marcaram época e fizeram Fortaleza ter mais um campo esquecido: Praça de Pelotas, atualmente Praça Clóvis Beviláqua (Praça da Bandeira).

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"À medida que a cidade ia se desenvolvendo, o futebol ia ficando forte e campos iam surgindo em meio a ruas e terrenos. Isso fez com que o esporte ficasse ainda mais popular no início da década de 20 em Fortaleza", lembra o pesquisador Nirez.

Hora de organizar

Esse desenvolvimento fez com que a cidade precisasse de um local fixo e mais organizado para reunir a elite aos domingos para ver o futebol. Foi então que as corridas de cavalo deram lugar e espaço para um campo de futebol. Inaugurado em 1913 como Stadium Sport Cearense, o local acabou sendo conhecido como Prado, um referência clara às corridas de cavalos que existiam no local antes da sua inauguração. Por muitos anos esse foi o palco onde os diversos atletas passaram e fizeram história no futebol cearense.

Mas se a elite resolveu concentrar o esporte em apenas um local, trabalhadores menos abastados trataram de espalhar o futebol por toda a cidade. Muitos campos surgiram nos mais variados bairros de Fortaleza e carregaram consigo memórias de quem viveu essa época onde o futebol ainda era embrionário.

Ao longo das próximas páginas, o leitor é convidado a voltar no tempo e entender a importância desses campos de futebol que acabaram sendo esquecidos e substituídos na cidade. É hora de fazer uma viagem pela Capital do início do século XX e estabelecer conexão com a atualidade.

A bola rolada em todo lugar

Registros históricos datam que a primeira partida de futebol no Ceará ocorreu nove anos após Charles Miller introduzir o esporte no Brasil. Foi no dia 24 de dezembro de 1904 que Foot-Ball Club e English Team jogaram em um campo onde hoje é o Passeio Público, no Centro de Fortaleza.

A ideia de organizar uma partida no Estado partiu do jovem estudante José Silveira, que, em 1904, apresentou um livreto com a regras do esporte e promoveu oficialmente o primeiro jogo.

"A partida aconteceu no segundo plano do Passeio Público, onde hoje é a garagem da 10ª Região Militar. Além desse emblemático fato da partida, esse campo ficou sendo utilizado até a década de 1930. Isso é facilmente identificado por fotografias que mostram postes de luz ao redor do campo", detalha o pesquisador Nirez.

Mesmo com a derrota no seu primeiro jogo por 2 a 0, o Foot-Ball Club não se abateu e seguiu suas atividades durante todo o ano de 1905 e sempre atuando no campo do Passeio do Público, até então o único campo de futebol da cidade. Após mudar seu nome para Clube da Vaca, um ano depois, seus principais jogos foram contra os tripulantes dos navios que estavam de passagem pela cidade.

Sem ainda ter a influência para chegar nas classes menos favorecidas, os espaços para a prática do futebol na Capital ficaram restritos ao Centro da cidade nas primeiras décadas do século.

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Em 1911 a rivalidade era entre as equipes da Ruas: 24 de Maio e da Barão do Rio Branco

A carência de espaços também levou os jovens recém-vindos da Europa a ocuparem as praças, como a Praça de Pelotas (hoje, Clóvis Beviláqua/Bandeira), Praça da Lagoinha e Praça da Estação.

Início organizado

O primeiro campeonato cearense foi organizado pelos clubes formados por jogadores que atuavam nas ruas do Centro da cidade e dos colégios. Esses jogos criaram as primeiras rivalidades na cidade. Os embates mais conhecidos entre os anos de 1906 a 1910 foram entre o Liceu Foot-Ball Club e o Castelo Football Club, equipes formadas por alunos dos colégios Liceu e Castelo. Em 1911, a disputa ficaria entre as equipes das Ruas 24 de Maio e da Barão do Rio Branco.

"Esses campos que surgiram nas praças foram de suma importância para o esporte ganhar força na cidade. Um fato emblemático aconteceu em 1928, quando uma rádio que ficava próxima à Praça Clóvis Beviláqua transmitiu um jogo que acontecia. Da janela da emissora, os locutores iam narrando a partida", conta Nirez.

Surge o Campo do Prado

Documentos históricos datam que o Campo do Passeio Público e das praças da cidade tiveram atuação até 1930 mas, com o surgimento de novos clubes, uma liga organizada e uma modernização do esporte para a época, criou-se a necessidade de surgir um campo com melhor infraestrutura para receber os jogos e a elite que, aos domingos, ia acompanhar as partidas. Surgia assim o Campo do Prado, local onde hoje funciona o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Inaugurado em 1913, o nome original foi Stadium Sport Cearense. Com forte influência de jovens vindos da Europa, não era difícil de se encontrar nomes ingleses em clubes e estádios do Ceará na época.

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Foto da fachada do Colégio Liceu no início do século. Foto : Acervo Nirez

Porém, o local acabou sendo batizado como Campo do Prado, uma menção às corridas de cavalo que havia no local.

O campeonato iniciou em julho e teve Stela e Ceará como os principais rivais. No dia 7 de novembro de 1919, o Campo do Prado recebeu sua primeira decisão de campeonato cearense.

"O Prado tinha um pavilhão onde ficava a arquibancada. De lá, o público assistiu grande parte do início do futebol e começo do interesse ao esporte", destaca Airton Fontenele, escritor e pesquisador do futebol.

Grande aposta de entretenimento para a elite da cidade, o Campo do Prado foi reformado em 1927. Naquela época, o piso do local era formado apenas de barro. "Em partidas mais importantes, vinham caminhões do Corpo de Bombeiros aguar o campo para evitar que a poeira tomasse conta das arquibancadas e prejudicasse o futebol", lembra Airton. Além disso, havia uma cerca de madeira para separar torcedores e campo. "Não tínhamos grandes instalações porque originalmente ele foi projetado para corridas de cavalos, mas, com as suas reformas, ele acabou ganhando ares de campo de futebol e bem mais agradável para o público", conta o pesquisador. O Campo do Prado teve participação ativa nas atividades esportivas na cidade até 1941, ano que foi inaugurado o Estádio Municipal (antigo PV).

A bola rolava em qualquer lugar

Os primeiros anos do futebol no Ceará tiveram como característica uma completa exclusão das classes menos favorecidas. Os times, ligas e associações permitiam a participação apenas dos brancos e ricos nos seus eventos.

Porém, os registros históricos mostram que, mesmo o esporte sendo patrocinado pelas elites, as classes dos trabalhadores de grandes empresas instaladas na Capital começaram a organizar por conta própria suas equipes.

Se as mais ricas jogavam no Campo do Prado, onde hoje é o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), no bairro Benfica, os times compostos de pessoas com menores condições financeira faziam suas partidas na Praça Fernandes Vieira, atual Praça do Liceu e, mais tarde, no Campo do Alagadiço, onde hoje é a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes.

Como no início do século os registros fotográficos eram restritos aos mais ricos, pouco se tem de material fotográfico e histórico sobre o Campo do Liceu.

A Liga Cearense de Football, fundada em 1912, com inclusão do Maranguape, primeiro time filiado fora da Capital, passou a se denominar de Liga Metropolitana em 1915. A Liga tinha uma separação por hierarquização: as equipes dos jovens abastados na primeira divisão jogando no Campo do Prado e uma segunda divisão por pessoas de menor condição financeira, que atuavam no Campo do Liceu e no Campo do Alagadiço.

Virou igreja

Quem frequenta a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes, nem imagina que nos arredores do templo religioso já existiu um dos principais palcos de futebol da cidade. Inaugurado em 22 de abril de 1923, o Campo do Alagadiço dividiu por muitos anos com o Campo do Prado o papel de protagonista no futebol cearense.

Com o Campo do Prado fechado para reformas e melhoramentos, o Alagadiço recebeu as finais do campeonato cearense nos anos de 1924 até 1926.

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Passaram pelo Campo do Prado times que marcaram a memória do torcedor cearense Foto: acervo Pedro Simoes

Feito pela Associação Desportiva Cearense, instituição depois denominada Federação Cearense de Desportos e que hoje chama-se Federação Cearense de Futebol (FCF), o Campo do Alagadiço foi cenário do início da rivalidade entre Ceará e Fortaleza. Com jogos cada vez mais duros e cheios de provocações, o Fortaleza conquistou os cearenses de 1923/24/26 e o Ceará, em 1925, no local.

"Com a fundação da Liga em 1915, os primeiros times começaram a se organizar e os campos foram se desenvolvendo. O campo do Alagadiço inicialmente pertencia à ADC, mas depois outros times foram arrendando o local. O Maguary, que na época estava em plena atividade foi um deles", explica o pesquisador Eugênio Fonseca.

O domingo era o dia escolhido para as partidas dos campeonato e, por muitas vezes, a Capital recebeu dois jogos no mesmo dia. Sendo escolhido o Campo do Alagadiço para dar esse suporte como campo auxiliar da Capital. "Aconteceu de ter jogos no mesmo dia no Campo do Prado e no Campo Alagadiço. Às vezes era da mesma Divisão e, como eram poucos times, eles acabavam mesclando os jogos", conta Eugênio.

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O goleiro do Fortaleza, Pedro Simoões, em uma de suas exibições em campos sem estrutura alguma 

Um outro marcante espaço da cidade que já não faz mais parte da vida esportiva da Capital é o Estádio Américo Picanço, mais conhecido como Campo do América. Inaugurado em 1941, ele foi sede de partidas do Campeonato Cearense de 1945 a 1951. Atualmente, o Campo do América deu lugar à Igreja do Líbano, localizada na Rua República do Líbano, no bairro Meireles. O que se conhece como Campo do América atualmente foi apenas uma homenagem dos moradores de casas localizadas na Rua José Vilar que deram ao antigo estádio, mas o endereço original não é aquele, destacam os historiadores.

Palco de final

Presente no cenário esportivo até 1951, o Campo do América teve um dos auges quando recebeu, em 1945 a final do campeonato cearense, entre Ferroviário e Maguary.

"O campo recebeu esse importante jogo por conta do Estádio Presidente Vargas estar em obras. O título ficou com o Ferroviário e o tricampeonato do Maguary foi evitado", destaca Airton Fontenele.

Para receber o jogo, o Campo do América ganhou diversos materiais já usados no PV. Traves, pedaços de madeira para arquibancadas e estruturas de ferro foram levados para o local.

A história do declínio do campo se mistura com a próprio time do América. Campeão estadual em 1935, a equipe entrou em várias crises e encerrou suas atividades recentemente. Do local, restou apenas memória de quem jogou ou assistiu às partidas.

Parte da história

Em anos em que o futebol passava longe de altas cifras, do estrelato e da fama mundial, jogadores queriam mesmo era brilhar nos campos de terra espalhados por Fortaleza. Atletas que despontaram nos antigos campos buscam na memória e detalham como era duro e cansativo a rotina de treinamentos e jogos em locais sem qualquer estrutura mas, também, lembram com saudade do tempo em que o futebol era praticado por amor aos clubes e pela vontade de aparecer no esporte mais popular do País.

Quem ilustra bem esse momento é o ex-lateral-esquerdo do extinto Messejana Futebol Clube, Francisco de Assis, conhecido como Seu Dodô. No início da década de 50, quando começou a jogar pelo Messejana, um time que nunca deixou de ser amador, as condições dos jogadores em nada se parecem com o que assistimos hoje. Sua história dentro das quatro linhas foi vivida no antigo Campo da Messejana, fundado em 1938.

O campo foi mais um espaço criado para agregar os moradores do bairro. Como o acesso de Messejana ao Centro e aos bairros onde existiam campos era complicado, surgiu no fim da década de 30 a necessidade de se criar um espaço dentro do próprio bairro.

"Dia de domingo era a diversão de todos. Todo mundo ia bem-vestido e até de paletó para assistir aos jogos. Ir pro campo era a festa da época. Arrumávamos até namorada", conta seu Dodô, enquanto revira fotos da sua época de lateral-esquerdo do time do bairro.

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"Os campos não tinham a estrutura que se tem hoje. Eram feitos por terrenos abertos. Limpavam, tiravam os matos e deixavam abertos para se fazer os campos. Então, a cidade tinha campo em quase todos os bairros". 

Pedrinho Simões, ex-goleiro do Gentilândia e do Fortaleza

Sem nunca virar jogador profissional, seu Dodô lutou para manter viva a história do campo de Messejana, que hoje se tornou o Estádio Valter Lacerda, mais conhecido como 'Murilão'.

"O campo era separado por pedaços de madeira da torcida. Era uma outra realidade. Só fazíamos treinar e estudar. Na minha época os pais preferiam ver os filhos formados. Futebol era coisa pra malandro", destaca Seu Dodô.

Mesmo com o fim do time e a mudança da estrutura do campo, resta na memória e nos documentos guardados com tanto zelo pelos jogadores da época, a certeza de que valeu a pena cada dia dedicado ao futebol do bairro. O campo de Messejana exemplifica outros tantos campos antigos que hoje já não fazem mais parte do cenário dos bairros afastados do Centro.

Estrelato

Os antigos palcos de futebol da cidade também guardam histórias de quem conseguiu chegar ao auge da sua carreira. E essa trajetória de sucesso está bem guardada na memória do ex-goleiro Pedro Simões, conhecido como Pedrinho. Ídolo do time do Gentilândia e do Fortaleza Esporte Clube na década de 50, Pedrinho começou a chamar atenção dos boleiros quando defendia a meta do modesto time do Gentilândia, campeão cearense de 1956.

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"Dia de domingo era a diversão. Todo mundo ia bem-vestido e até de paletó para assistir aos jogos. Ir pro campo era a festa da época. Arrumávamos até namorada"

Seu Dodô, ex-lateral-esquerdo do Messejana Futebol Clube

Mas antes de chegar aos profissionais, Pedrinho, logo com 15 anos de idade e atuando no juvenil do Gentilândia, foi apontado como um dos goleiros mais promissores do futebol cearense. No campo que recebe o mesmo nome do bairro e do time, o goleiro lembra com saudade de como tudo começou, no campo do Gentilândia.

"O campo ficava na Rua Adolfo Herbster. Foi um espaço que marcou época porque o clube tinha várias categorias. Era a infantil, juvenil e profissional no início da década de 40. Em 1952 comecei a jogar pelo Gentilândia. Ele foi a base para eu conseguir ganhar todos os títulos que um atleta pode conquistar no futebol cearense", lembra Pedrinho.

"Os campos não tinham a estrutura que se tem hoje. Eram feitos por terrenos abertos. Limpavam, tiravam os matos e deixavam aberto para se fazer os campos. Então, a cidade tinha campo em quase todos os bairros. Porangabuçu, Alagadiço, Campo do Pio, Montese e Parangaba e Aldeota são alguns dos exemplos", relembra Pedrinho.

Nascido em 5 de abril de 1938, Pedrinho brilhou também no Fortaleza e conseguiu ser campeão cearense em 1960, além de campeão do Norte-Nordeste no mesmo ano e ainda ser vice-campeão nacional. O ex-atleta encerrou a carreira em maio de 1961.

De campo para estádio

Pedrinho faz parte de uma geração de atletas que pegou a transição do futebol praticado nos campos para os estádios.

Com o desenvolvimento do esporte, houve a necessidade de oferecer uma infraestrutura melhor para os jogadores e para os espectadores. Ter estádios nas cidades virou obrigação.

"Quando o Presidente Vargas foi inaugurado em 1941, ele não tinha o conforto e o trato que tem hoje mas já era uma evolução do que tínhamos antes, no campo do Prado. Durante minha carreira eu joguei em estádios de todas as capitais do Nordeste e os melhores campos foram no Ceará, no Estádio dos Aflitos, em Recife, e no Estádio da Fonte Nova, em Salvador", lembra o ex-jogador.

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