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Calungas do Manguezal: arte e diversão às margens do rio

Alonso Ribeiro ouvia as lendas do Cumbe e descobriu que o pai era um grande artista guardado no tempo. Num dia qualquer, vestiu as mãos, mudou a trajetória da família e garantiu lazer para uma meninada crescente à beira do salgado com o doce
00:00 · 03.02.2018

Não existe água mais salgada que a do Jaguaribe perto de sua foz, quando acabou-se o que era doce - e nem falamos só de água. Prestes a desaguar no mar, o rio tem um ecossistema particular em relação ao todo. Numa margem é Aracati, na outra, Fortim, no Litoral Leste. Nas duas, um complexo de planície e vegetação litorânea que reúne dunas, florestas e matas de tabuleiro. É impressão de que nada muda, mas são líquidas a paisagem e as pessoas, cada uma com o próprio tempo.

A área de estuário do Jaguaribe já se despediu do sertão. Pela proximidade com o litoral, separado apenas por dunas, há uma vegetação diferente. Se no doce corre a tilápia, nessa parte serão vistas outras espécies de peixe: bagre branco, piaba, traíra, ou sargo e cará. Alguns só vão para o doce desovar, seguindo o curso da vida no salgado.

Alonso Ribeiro vai ser pai pela primeira vez. Isaac ainda nem nasceu, mas o jovem já assume a responsabilidade paterna. Consegue pensar no filho que foi e ainda é para seu Raimundo, que quando foi pai a Vila do Cumbe, em Aracati, era outra. A do presente já não é igual e, a do futuro, de Isaac, tampouco.

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Na escola, Alonso ouvia história de que seu pai vestia roupa nas mãos e fazia todo mundo rir. Com dois braços, chegava a ser mais de 20 pessoas, vozes as mais variadas. Havia, naquela época de 40 anos atrás, um tal de Cassimiro Coco, outros eram Olbar, Baltazar. "Cassimiro era o valentão, chegava numa festa pra acabar, e não estava nem aí para quem reclamasse. Ele se sente o dono de tudo e já vai colocando o dedo na cara dos outros", lembra de ter ouvido.

Chegou um tempo em que, após ir ficando velho, seu Raimundo já não queria mais falar da época em fazia calungas, os bonecos feitos à mão cheios de representatividade.

Num dia em que o tema em aula era o dia do Folclore (22 de agosto), o professor João Luís Joventino, já alimentando a imaginação de Alonso sobre um tempo de seu pai calungueiro, provocou o filho a confrontar o pai com sua memória:

- Pai, por que o senhor não volta a fazer os calungas?

Ele "ia ver". Jeito de pensar numa resposta. Mas Alonso também. E saiu dali com a ideia de chamar os colegas e eles próprios fazerem bonecos. Com isopor, talharam os primeiros personagens.

Quando sentiram ter coragem, chamaram a meninada. Um espetáculo atrás do outro, os calungas de isopor caindo aos pedaços. Até que entrou em cena o mestre para explicar como se faz.

Ao ajudar a ideia do filho, o sonho guardado pulou da memória para o presente. Raimundo lembrou que as mãos podiam ser mais que mãos, se já tinham sido.

E foi com a volta do mestre que renasceram Olbar, Baltazar, Cassimiro Coco e tantos outros. E existe o valente, tem o festeiro. Chega ao evento e pergunta para a plateia infantil se está gostando. Siiiiiimmm! Ao que vem um oooollllbaaaa. Está apresentado o nome.

Há quatro anos, seu Raimundo Gonzaga da Silva, de 62 anos, tem um dos momentos mais inesquecíveis: é eleito mestre da cultura pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e ganhou o Prêmio Teatro de Bonecos Popular do Nordeste. Um reconhecimento de 40 anos de 'calungagem'.

O seu saber, transmitido pela oralidade, que chegou ao filho Alonso, atingiu também os sobrinhos. De uma ver por todas, o Cumbe se reapropriou do teatro de bonecos como uma de suas tradições.

A gente começou a conversar com o pessoal mais velho e foi conhecendo as lendas daqui, histórias antigas, e foi criando outras também. Então, tem o pescador, o caranguejeiro, o pé da vaca, a marisqueira. O próprio caranguejo também faz parte.

Mesmo que em bonecos vestidos nas mãos, a própria história da vila do Cumbe, uma área remanescente de quilombos, é recontada com a metáfora dos tempos atuais.

Se o cenário não for o bar, e sim a vila, os moradores bem conseguem sugerir um "Cassimiro Coco", valentão poderoso e arrogante. Nem precisa ser gente, pois quando as coisas se agigantam frente à comunidade tornam-se personagens da vida real. É o que se pode dizer das eólicas no horizonte acima e das muitas fazendas de camarão logo abaixo.

Ao lado dos tempos modernos, resiste um pedaço de comunidade que insiste em mergulhar na lama do mangue e catar caranguejo, pescar. É o que na prática se diz melhor conviver com o meio ambiente.

No dia de visitar, fomos ao mangue com Alonso e, como um teste, chamamos um garoto para assistir a uma apresentação de improviso. Em Cinco minutos juntaram-se 14 crianças na beira da gamboa (uma saliência do Jaguaribe no mangue) para o teatro armado por Alonso.

- Bom dia, criançada!

- Bomm diiiaaaa.

- Meu nome é Zé, moro no Cumbe. Um lugar muito bonito, cheio de natureza muito bela. Mas temos que acabar a poluição.

Talvez fique para o tempo do filho Isaac.

Guerreiras do Cumbe

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Cleomar Ribeiro, Ronaldo Gonzaga e Luciana Santos nasceram no Cumbe e hoje lutam pela preservação do lugar, banhado pelas águas salgadas do estuário do rio Jaguaribe

Com crise de identidade e em busca do filho Martin, Afrânio perambula como que sem rumo pelas dunas. Larga a peruca de Saruê e delira, quixotescamente, a resolver-se com seus dragões, enquanto torres eólicas giram feito moinhos de vento. Milhões de pessoas assistem à cena, representada pelo ator Antônio Fagundes, um dos mais consagrados da teledramaturgia brasileira, na novela Velho Chico. Uma trama ficcional à beira do rio São Francisco.

Fosse ao pé da letra, a cena ali seria o 'Velho Jaguar'. A paisagem toda é o Cumbe, uma comunidade em Aracati que tenta se refazer e encontrar no tempo. De um lado, o mangue que beira o Jaguaribe prestes a encontrar o mar em sua foz, em outro uma comunidade que vive duas margens em uma só, pela distinção de gostos sobre o que pensam para presente e futuro da vila, num conflito entre tradição e modernidade, cada uma tentando ser o instrumento para um fim chamado progresso. No meio disso, Cleomar e Fabiana. Na infância, brincavam nas gamboas que dão acesso ao Jaguaribe, entre mergulhar no rio e na lama à cata de caranguejo. Hoje adultas, lutam para que a comunidade tenha acesso ao mesmo mangue e à sobrevida dos caranguejos.

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O açude Caldeirões, no município de Saboeiro, é o primeiro a sangrar quando fortes chuvas banham o rio Jaguaribe

Cumbe é um termo africano que tem por um dos significados quilombo. A vila, no entanto, hoje se alterna entre casas e fazendas de camarão.

A empregabilidade gerada cria uma leva de defensores do camarão. "Mas o emprego de um tá prejudicando o emprego do outro, porque agora não tem caranguejo como tinha antes. A queda já é de 80%", explica Cleomar. O mais prejudicado é o acesso ao rio, hoje feito por corredores entre uma fazenda e outra.

As divergências sobre a presença desses empreendimentos têm movimentado a comunidade já reconhecida como quilombola pela Fundação Palmares - o próprio título foi motivo de confusão e disseminação de boatos.

O Cumbe tem uma comunidade dividida. Duas margens de um mesmo lado do Jaguaribe. Parte se reconhece quilombola, outra não. É uma das áreas com maior riqueza de sítios arqueológicos (já foram constatados mais de 50) que até travou conflito para quem irá tomar de conta do Museu, em fase de construção.

Cleomar Ribeiro e Luciana Santos entraram na briga, já foram chamadas de mulheres revoltadas. Hoje, depois de pescadoras e marisqueiras, já se reconhecem guerreiras, como uma necessidade para que o Cumbe não acabe.

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