Reportagem Meio ambiente

Biodiversidade brasileira é do tamanho do nome

Tubarão-baleia (Rhincodon typus) habita os oceanos tropicais e de água quente. É inofensivo ao homem (Foto: Ruver Bandeira)
00:00 · 02.06.2018

Quando se fala do meio ambiente - e estamos na véspera da semana alusiva, o verbo mais conjugado é "preservar". Mas nem todo verbo indica ação. Muito embora os recursos naturais movam o mundo - basta ver o caos instalado com a paralisação dos caminhoneiros e a consequente falta dos combustíveis fósseis que são diesel, gasolina e querosene - poucos mundos se movem pela natureza.

As toneladas de lixo que "caem" no mar todos os anos da orla de Fortaleza, a praiana que se vende nos postais do Instagram, chamam menos atenção do que a notícia de que um tubarão teria aparecido em águas rasas. Mas o maior perigo ao homem está aquém da praia

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Oito anos atrás, em 2010, o Brasil tinha a audaciosa meta de acumular 10% de sua área marinha protegida. Hoje não se chega nem a 2% dos 3,5 milhões de metros quadrados sob proteção em unidades de conservação, mesmo que o País seja marcante no mundo por sua biodiversidade, impossível de manter sem preservação.

As aves migratórias que atravessam o Brasil, mas antes se hospedam aqui para recomposição alimentar, são um termômetro do que está acontecendo com o meio ambiente. Quando elas precisam comer partes de si próprias para continuar a jornada, algo está muito errado. Mas se a intervenção humana nem sempre é visível fora d'água, dentro é ainda mais difícil.

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"A diversidade nos impõe responsabilidade, mas muitas vezes a impressão é de que o Brasil não reconhece a importância ou simplesmente desistiu dela", lamenta o biólogo Sérgio Arrais, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão, no Rio Grande do Norte, estado em que foi criada, em 1979, a primeira Unidade de Conservação marinha no Brasil.

A Reserva Biológica do Atol das Rocas consiste em um agrupamento de ilhas de corais formadas sobre uma superfície submersa composta por bancos de areia. É o segundo maior local, depois do Espírito Santo, de reprodução da tartaruga-verde (Chelonia mydas), ameaçada de extinção e sobre a qual falamos na primeira edição deste DOC Bichos do Mar - a difícil jornada.

Do que se tem conhecimento, são mais de 100 espécies de aves associadas ao bioma costeiro; das sete tartarugas conhecidas no mundo, cinco vivem em águas brasileiras, todas ameaçadas; existem, ainda, ao menos 46 espécies de moluscos, 1.209 de peixes e 27 de crustáceos marinhos, de que são mais conhecidos o camarão e a lagosta. Essa última afetada pela pesca predatória, seja com redes de arrasto ou marambaias feitas de latões ou pneus, que, submersos, tornam-se nicho e armadilha para esses animais.

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Arena do tubarão (Foto: Ruver Bandeira)

Somado à pesca de mergulho com compressor, com a captura dos bichos antes mesmo da fase de reprodução, o retrato é uma queda na produção superior a 50% nos últimos oito anos.

A esperança na escassez

Teve fim ontem, 1º de junho, o período de seguro-defeso, que durou seis meses, dando início à volta ao mar. Sem pessimismo, o melhor dos dias de pesca na praia de Redonda, em Icapuí, não será como 20 anos atrás e talvez não haja 20 anos para frente. Um dos maiores polos pesqueiros do Nordeste, adepto da pesca artesanal, sofre com a predação insustentável. "O pescador vai puxar os manzuás no fundo do mar e muitas vezes quando sobe não vem nada", reclama Tobias Soares, líder pesqueiro. Ainda assim, a produção de lagosta em Icapuí foi de 491 toneladas, fechando com R$ 28 milhões em 2017 - metade da produção de 2015.

Essa redução sequenciada atrai os pescadores de lagosta para o atum como alternativa econômica viável. Os municípios litorâneos têm recebido reuniões para capacitação do manejo dentro do projeto Ceará Mares do Atum, envolvendo Governo do Estado e empresas como a Robinson Crusoé. Já foram 12,7 mil toneladas em 2017.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a produção de pescado tem crescido a uma taxa anual de 3,5% nos últimos 50 anos, enquanto o incremento populacional é de 1,6% no mesmo período. O mar é a origem de 85% da produção de pesca extrativista. Já o pescado vindo da aquicultura (produção controlada em cativeiro) tem no mar cerca de 36% de sua origem.

Em seu Estado Mundial da Pesca e Aquicultura (Sofia, no inglês), a FAO aponta que as mudanças climáticas e outras interferências à biodiversidade têm proporcionado uma tendência de inversão: a aquicultura crescer ainda mais que a pesca de captura, mesmo que esta gere mais empregos e, em parte, mais sustentabilidade que aquela.

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