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Bichos do Mar: conscientizar é preciso - Edição II

Maçarico-do-papo -vermelho (Calidris canutus), espécie ameaçada de extinção, cruza as américas do Ártico à Patagônia (Foto: Alberto Campos/Acervo Aquasis)
00:00 · 02.06.2018 / atualizado às 01:14 por Melquíades Júnior - Repórter

Tem animais que evoluem à medida em que se afastam de onde nasceram, como quem percorre vários mundos numa mesma vida. São do mar também bichos que voam e dependem diretamente das águas salgadas para a sobrevivência, mesmo aqueles que não precisam dar um mergulho.

O maçarico-do-papo-vermelho (Calidris canutus) sai do Ártico e viaja o planeta em longitudinal. É uma das mais de 20 espécies que cruzam o céu para se abastecer do mar.

Quando o inverno começa onde já é muito frio, atravessa Canadá, Estados Unidos, até beirar o mês de setembro em Icapuí, no litoral leste do Ceará, um dos mais raros lugares do Brasil que hospeda aves migratórias em busca de alimentação para concluir a jornada no fim do ano até a Patagônia, para quem segue, ou de volta ao Ártico, para quem fica. É uma das espécies mais ameaçadas de extinção.

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Revoada do Maçarico-do-papo-vermelho (Foto: Alberto Campos/Acervo Aquasis)

Como se não pudesse já ser surpreendente, o maçarico-do-papo-vermelho inicia sua viagem do Norte ao Sul e, chegando por aqui, muda a plumagem, que sai do branco para o alaranjado. Ele ainda pode apresentar anéis coloridos que permitem a identificação de sua procedência. Seu pouso no mar cearense tem explicação: desenho territorial favorável para acesso às fontes de alimentos.

"As aves costeiras se dividem em bandos. Uma parte vai para o extremo sul da Patagônia, a Terra do Fogo. Outra parte não vai, fica aqui no Nordeste para o que chamamos de invernagem. Então, eles chegam aqui mais ou menos no fim de agosto e permanecem até março, podendo estender um pouco. Não chegam todos de uma vez, mas vemos que ocorrem picos de imigração em setembro e fevereiro", explica Gabriela Ramires, bióloga especializada em aves marinhas da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), em Caucaia (CE).

Se para preservar é preciso conhecer, Gabriela ressalta a importância da biodiversidade: "não é qualquer litoral que tem as condições que essas aves precisam. Em Icapuí, no Ceará, temos uma condição muito especial, o Banco de Cajuais".

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É uma enorme planície de maré em forma de meia-lua. E se o Brasil possui a maior biodiversidade do planeta, este pedaço de solo cearense é como um tesouro no raso do mar. É importante banco de capim-agulha na região, alimento preferido do peixe-boi (o mais ameaçado de todos os mamíferos marinhos), além de fonte de outros recursos para peixes e lagostas, fontes de sobrevivência da população local.

Forças para a jornada

Quando as águas recuam por quilômetros, aparecem as ostras e dentro delas pequenos filhotes que alimentam o maçarico e diversas outras espécies de aves costeiras. Para seguirem até a região da Terra do Fogo, na Patagônia, as aves precisam se fortalecer, alimentando-se bastante. Nem sempre dá tão certo, e o maçarico come partes do próprio corpo para aguentar a jornada.

Esta segunda edição do DOC Bichos do Mar sai na véspera da Semana Nacional do Meio Ambiente (5 de junho é o dia mundial), quando um conjunto de ações é realizado em todo o Brasil em defesa do meio ambiente e conservação dos recursos naturais. Mas há um longo caminho entre perspectiva e realidade.

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