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Barro: a matéria-prima que molda vidas

00:00 · 03.03.2018 / atualizado às 02:06 por Roberta Souza - Repórter

Seja do ponto de vista religioso ou científico, há muito o barro é relacionado à origem do homem. Na Bíblia, o livro mais vendido de todos os tempos, com mais de seis bilhões de cópias em todo o mundo, consta como verdade para muitos que "Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gênesis 2,7). Já a ciência concluiu, em pesquisa de 2003, de um grupo de cientistas do Instituto Médico Howard Hughes e do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, que materiais típicos do barro são fundamentais no processo de formação biológica.

A cerâmica - barro endurecido pelo fogo - é pré-histórica e traz pistas sobre civilizações e culturas que existiram há milhares de anos. Vasos de barro, sem asa, que tinham cor de argila natural ou eram enegrecidas por óxidos de ferro são os primeiros de que se tem notícia. Aliás, diferente de outras tradições como a renda de bilro, aqui no Brasil o trato do barro não se aprendeu com os portugueses; esta já era uma prática comum entre os povos indígenas.

O processo aborígine sofreu algumas modificações com as instalações de olarias nos colégios, engenhos e fazendas jesuíticas, onde se passou a produzir, além de tijolos e telhas, também louça de barro para consumo diário. Mas, além do utilitário, a matéria-prima dotou-se de outros significados, e um bom exemplo nacional disso, naquele período inicial, é a cerâmica marajoara.

Com o passar do tempo e a chegada das novas gerações, a utilização do barro foi se multiplicando. Bebendo de referências ancestrais, artistas das mais diversas linguagens se apropriaram dessa tradição. No Ceará, alguns exemplos podem ser observados com as mestras de diferentes regiões do Estado, que sobrevivem do artesanato.


Na Moita Redonda, em Cascavel, crianças e jovens que cresceram vendo as mães e avós trabalhando com o barro, agora, com a ajuda do músico Tércio Araripe, retiram dele o som por meio de instrumentos constituídos desse material. Pelo Brasil, o juazeirense Bosco Lisboa exporta esculturas de cerâmica, também guiado pelos que lhe antecederam. O mesmo barro lembrado na origem da vida é o que vem ajudando a moldá-la em diferentes comunidades, e é exatamente sobre isso que mergulharemos nas próximas páginas.

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