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Banho: fonte da juventude

Nilson e Virória aproveitam o banho de chuva para afugentar o calor no município de Jaguaribe. Foto: JL Rosa
00:00 · 18.03.2017 / atualizado às 11:10 por Melquíades Júnior - Repórter

O que no Sul é 'mau tempo', 'feio', no Nordeste é o contrário. Quanto maior a sede da terra, maior a beleza que lhe jorra. A beleza do bonito para chover está além do que o olho vê. Depois que o abafado vira brisa fresca e sobe um cheiro que mistura madeira, mato e terra em pleno céu fechado, a chuva é uma sinestesia. Vitória, de 9 anos, já estava atenta na janela da cozinha antes mesmo de os pingos começarem a tocar o telhado. Como quem não quer nada, chega para a mãe, que já sabe.

"Não vai pra chuva, Vitória!"

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Tinha chovido no dia anterior. Não era a primeira água lavando o telhado das folhas e retirando as fezes dos gatos cristalizadas pelo sol, mas a luz que esquentou o terreiro fez subir um mormaço, inimigo dos alérgicos. O tempo em que o chão esfria é o da menina insistir:

"Por favor, mãe. Por favorzinho, deixa eu brincar na chuva". Quem não chora não banha.

Onde chover não é comum, brincar é uma oportunidade e as duas sabem disso. Judite, finalmente, deixa. Coloca a cadeira de balanço na porta e tricota olhando para a chuva, enquanto a filha pula e canta satisfeita entre uma calçada e outra na sua frente.

Na casa ao lado, Nilson, 48, também vê o tempo mudar em Jaguaribe. Senta na sala sem camisa no meio do caminho entre a porta de entrada e a do quintal, para ver se esbarra com algum vento visitante. Começa a chover. "'Homi', num vou desperdiçar a frieza dessa água não". Corre para a biqueira com a sensação de frescor e abundância na vila que há dois anos só bebe água de carro-pipa. Vitória e Nilson são dois meninos brincando cada um no seu próprio chuveiro.

A cena se repete por onde a nuvem carregada vai despejando. E com as 'chuvas isoladas em todas as regiões', conforme prevê a Funceme, ir para a rua pode ser oportunidade única. Quem não precisa pedir permissão à mãe, porque já cresceu, rememora o tempo da infância entre uma biqueira e outra. "Quando eu tomo banho hoje, lembro de quando tomava banho antigamente", diz Augusto Noronha, 42, aproveitando o céu com os filhos Aldo e Guilherme enquanto chove em Alto Santo, no Vale do Jaguaribe.

É um banho que já se toma limpo. Ou para se sujar nas poças de lama. A psicanálise aponta a metáfora da chuva, usada como símbolo comportamental, como uma experiência de purificação. "É uma entrega à natureza. Não é a pele em si, que se banha, mas a mente, o conjunto de memórias", diz o pesquisador Aderbal Carvalho, da Universidade Federal do Ceará (UFC), ele próprio um sentidor das memórias das águas no sertão de Quixadá, sem esquecer as várias interpretações que a chuva pode dar. "Pode ser triste ou alegre, depende da subjetiva entrega ou fuga desse fenômeno".

Aguar com os próprios olhos

Em Limoeiro, uma multidão correu de casa para ver o que as nuvens fizeram com a Barragem das Pedrinhas. Deu-lhe um banho e encheu a poça. Mesmo nos primeiros anos de seca havia água, mas desde 2015 a situação ficou mais crítica. Francisco Norberto foi à parte mais alta da barraca que leva o nome do pai, Moacir, e fez um registro fotográfico direto para o Facebook dias antes do Carnaval. Água voltando a passar por cima da ponte e fazendo um 'véu de noiva'. Na primeira quinzena de fevereiro de 2017, o lugar encheu de água e de gente. Tanta que foi necessário organização pelos agentes de trânsito.

Quando viu a ruma de água, a dona de casa Lucia Assis sentiu uma coisa dentro que não soube responder. Sentiu que banhou os olhos.

Enquanto alaga, o movimento não acaba na Barraca do Moacir e de vendedores ao redor. "O pessoal não acreditava. Via foto na internet e pensava que era de outros anos. Tinha que ver com os próprios olhos. Teve quem se emocionou aqui com o tanto de água", lembra Francisco Wilson, antes agricultor e hoje vendedor ambulante para os curiosos da sangria das Pedrinhas. Tendo água, nenhum outro trecho do rio Jaguaribe compete.

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