Grupo de Extermínio

Banda da década de 1990 volta após reaparecimento de fita

00:00 · 14.07.2018 / atualizado às 08:37
fita
Mesmo com poucas cópias, um exemplar da fita com 10 faixas sobreviveu pelas mãos de colecionadores preocupados com a manutenção da memória

Nos primeiros dias de junho passado, uma demo tape do Grupo de Extermínio passou a circular no YouTube. Contendo 10 músicas, o trabalho foi gravado em 1995 e estava restrito ao formato K7. Vinte e três anos depois de ser confeccionada, uma das cópias em K7 rompeu a tampa da cova onde repousava para estabelecer um serviço de resgate da memória musical da Capital. Assim, duas Fortalezas distantes são devassadas e o relato das testemunhas envolvidas neste processo diz muito sobre o mérito em torno da manutenção dos suportes analógicos.

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Formado à época por Fábio (vocal), Marcos (baixo) e Marcelo (bateria) - essas são as informações sucintas e diretas do encarte - o trio digeria um coquetel molotov imerso na agressividade punk, grind e hardcore. O teor político das composições atacava mazelas que persistem até hoje.

Quem exuma uma boa parte dessa memória é o baixista Marcos Aurélio. Após uma infância e adolescência marcada pelo skate e pelo consumo de discos de metal e hard rock, o jovem mudou de cenário ao trocar Sobral por Fortaleza para estudar Química Industrial na UFC.

No curso, conheceu o colega Juarez Oliveira (irmão de Fábio) com quem poucos anos depois montou a elétrica e efêmera Heaven Up. Marcos lembra que, aos aficcionados por rock em Fortaleza, a opção era se perder pelos corredores da Galeria Pedro Jorge para angariar mais um tape das bandas gringas.

"Todo mundo colava na Opus, Chakal. Eu assistia aula pela manhã, almoçava pelo Restaurante Universitário e passava a tarde inteira na Galeria. Tinha muita coisa nova, cansei de comprar fita virgem para fazer cópias nas lojas. O montante de encomendas dos caras era grande e sempre rolava um prazo de dois dias para entregar. Talvez essa dificuldade de acesso tenha dado mais gosto. A galera de hoje tem tudo fácil. Quando você pegava uma fita daquela ia pra casa e ficava o dia todo escutando", diverte-se ao relembrar.

No meio desse turbilhão, o álbum "Scum" (1987), dos ingleses do Napalm Death, acabou batendo forte. Obra seminal no meio grind, o disco foi um dos dispositivos para que Marcos definisse o sonho de executar as próprias músicas. O próximo passo foi arregimentar o irmão Marcelo para o projeto. Fábio também colava nas ideias hardcore e assumiu os vocais.

"Sempre entendi que o lance de ter banda deve envolver amizade. Depois do 'Scum', vi que podia fazer música com um acorde só. Como não tínhamos guitarrista decidimos fazer daquele jeito mesmo. A demo saiu com aquela sonoridade meio sem querer, sabe", descreve.

Os ensaios aconteciam no quintal da casa do avô, onde funcionava um galinheiro. A gravação contou com a força de Andrea Agda e Daniel Arruda, da icônica banda indie Banana Scrait. Em uma noite, foram capturados os poucos mais de 12 minutos da demo e a mixagem foi feita direto na mesa de som. O trio já saiu do lugar com a preciosa fita em mãos.

O número exato de cópias produzidas é algo perdido na lembrança. No entanto, Marcos contextualiza que geralmente a coisa funcionava assim: com a proximidade de algum show, o trio comprava pacotes com 10 unidades de fita e montava as unidades. A arte do encarte foi pensada pelo primo do baixista, Adams Pinto - que hoje atua profissioanmente como designer.

Algumas das fitas foram vendidas nas lojas da Pedro Jorge. Antes de chegar à internet, uma delas passou por diferentes mãos até chegar na coleção do Carlos Henrique, integrante da banda Faixa de Gaza, fundada em 2008. Quem descreveu o histórico percorrido pelo K7 para o ex-integrante do GE foi o Isaac Garrafa, vocalista do Faixa.

"O Zeli tinha uma loja na galeria e ele tinha essa demo, com o encarte original e tudo. Digitalizamos e, na época, eu tocava numa banda chamada Mundo Cadáver, onde fazíamos cover de Dago Red, de vocês e da Oposição Reprimida. A gente pirava nessa DT, achávamos vocês tipo o 7 Seconds daqui e tal. Quando a loja do Zeli fechou, o Jorge Matagato que hoje toca comigo no Faixa de Gaza passou a fita pro Henrique", descreveu.

Com o fim das atividades da banda, Marcos dedicou-se ao Heaven Up e, posteriormente, a um de seus projetos mais duradouros, a 69% Love. Outra contribuição ao lado dos irmãos Marcelo, Marcel e do parceiro DJ Dado foi a fundação da casa Noise 3D, espaço responsável por abrigar e divulgar boa parte da cena alternativa de Fortaleza nos anos 2000.

Todo essa memorabilia foi mediada pelo reaparecimento de uma fita K7. Como forma de celebrar o feito, o trio entrou em estúdio para alguns ensaios e duas novas composições foram adicionadas ao set. Dia 20 de julho,na casa Berlinda, o Grupo de Extermínio retorna aos palcos para estabelecer mais um capítulo nessa saga.

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