Casa Maria Mãe da Vida

Associação tem a missão de acolher jovens gestantes

00:00 · 28.07.2018 / atualizado às 09:27 por Cristina Pioner - repórter

Camila, 17 anos, está grávida de sete meses, Vanessa, 16 anos, de cinco meses, Claudia, 16 anos, de três. Todas desejavam ser mãe um dia, mas não agora. Todas disseram estar usando anticoncepcional, mas engravidaram. Todas têm relação estável, mas nenhuma possui renda fixa. No momento, elas participam do projeto da Associação Casa Maria Mãe da Vida, na Barra do Ceará, no qual gestantes, adolescentes ou não, são acolhidas e incentivadas ao pré-natal e à produção do enxoval do bebê.

Uma vez por semana, as grávidas se reúnem na sede da Associação para aprender a cortar e costurar fraldas, roupinhas e mantinhas para a chegada dos bebês. Num ambiente amoroso, Josefa Soares, ou tia Nenê, é quem ensina as futuras mamães a preparar o enxoval e também a encarar a vida de frente. "Gosto de ouvir, conversar e ajudar estas meninas que, muitas vezes, foram rejeitadas pela própria família. Aqui eu não imponho regras, é olho no olho e compartilha", revela tia Nenê.

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A Casa Maria Mãe da Vida é tão espaçosa, no sentido de sempre acolher mais um, que Vanessa, ao descobrir que estava grávida, não teve dúvidas de onde buscaria apoio. Desde então, passou a fazer o pré-natal e o enxoval. "Aqui eles dão até as nossas vitaminas e fazem todos os exames", ressalta. Antes de engravidar, definia-se como uma menina normal, que estudava e ainda estuda, namorava e cuidava do irmãozinho, hoje com 7 anos; "Dava banho, alimentava e levava até no médico. Sou praticamente a mãe dele".

"Em choque"

Mesmo com tanta responsabilidade, Vanessa ficou em choque ao descobrir a gravidez. "Eu queria, mas não neste momento. Eu tomava remédio e mesmo assim eu engravidei. Então foi uma bênção, né? Muitas pessoas me julgaram e diziam para eu abortar", lembra com mágoa. O companheiro, entretanto, ficou feliz com a notícia, embora ainda esteja procurando emprego. Quando o bebê chegar, pretende dar continuidade aos estudos e, quem sabe, cursar a faculdade de artes cênicas e prestar concurso para a Polícia.

A primeira reação ao descobrir a gravidez foi de medo, segundo Camila. "É muita responsabilidade. Tem que estar ali direto, cuidando, protegendo. E quando fica doente, levar pro hospital", diz. Mas o apoio do companheiro foi fundamental para a futura mamãe que, por diversas vezes, ouviu conselhos para abortar. Com todas as incertezas comuns nesta faixa etária, continua confiando em um futuro melhor com a família.

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Na Associação Casa Maria Mãe da Vida, na Barra do Ceará, adolescentes grávidas aprendem a fazer o enxoval do bebê e recebem apoio psicológico

"Sempre quis ser mãe, desde criança", revela Claudia. "Quando descobri, fiquei feliz e meu namorado também. Minha mãe é que não gostou e meu pai não falou nada", recorda. Acolhida pela Casa Maria Mãe da Vida, já aprendeu a costurar e está satisfeita com o resultado inicial do trabalho. A jovem, que deseja ser administradora, cursa o 9° ano e, atualmente, faz uns bicos para garantir o sustento.

Serviço permanente

A procura pelo serviço ofertado às gestantes adolescentes é permanente e tem aumentado nos últimos meses, explica a coordenadora da Associação Maria Mãe da Vida, irmã Poliana Barbosa. Segundo ela, o trabalho voltado às gestantes foi implantado pelo padre Adolfo Serripiero, que começou como missionário nas praças de Fortaleza. "Como médico ginecologista, o padre foi ao encontro dessas mulheres gestantes, em especial das adolescentes que estavam em situação de risco e sem atendimento", recorda a Irmã.

Quando percebeu que não dava conta sozinho, padre Adolfo criou a Associação Casa Maria Mãe da Vida, que ganhou o apoio da Congregação das Missionárias Camilianas e Maria Mãe da Vida. Desde a fundação, em 1990, o projeto segue com doações e voluntários. Além do pré-natal e do enxoval, oferece cursos de artesanato, aulas de violão, de informática e apoio psicológico.

Apesar da idade avançada, o padre Adolfo continua fazendo os exames de ultrassom, dentre outros procedimentos médicos. "A nossa missão é estar junto dessas mulheres e adolescentes, amando, protegendo e acolhendo", ressalta a coordenadora da instituição. 

* Os nomes das adolescentes com menos de 18 anos citadas nesta reportagem são fictícios

Prevenir é o melhor remédio

As brincadeiras com as bonecas ainda faziam parte da rotina de Maria Paula, à época com 13 anos, idade em que engravidou pela primeira vez. O corpo franzino e frágil logo se transformou em nove meses de gestação. As bonecas ficaram de lado para a menina cuidar do pequeno Carlos.

Um ano depois, estava grávida novamente, desta vez, da Marina. Hoje, aos 19 anos e com vida sexual ativa, não descuida dos anticoncepcionais. Se na adolescência, ela tivesse tido acesso à informação, talvez nada disso teria acontecido com ela e outras tantas que engrossam as estatísticas da gravidez precoce.

Por isso, a temática está inserida na disciplina de Ciências, seguindo orientação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Ciências Naturais, conforme a Secretaria de Educação de Fortaleza (SME). A discussão também é motivada pelos PCNs de Saúde e Orientação Sexual como temas transversais a serem tratados. Ações educativas e palestras são realizadas, ainda, durante o calendário escolar. Além disso, a SME promove a identificação das estudantes grávidas para desenvolver ações de combate à infrequência escolar e orientações específicas acerca do processo de gestação

Já no Hospital Distrital Gonzaga Mota (Gonzaguinha Messejana), a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) disponibiliza o Serviço Interdisciplinar em Ginecologia e Obstetrícia para Adolescente (Sigo Adolescente). O programa atende também jovens pais que vivem essa experiência. Os adolescentes contam com assistência ambulatorial, atendimento clínico e de pré-natal, ginecologia especializada e acompanhamento psicológico.

Mortalidade materna

Ações como essas ganham ainda mais importância por a mortalidade materna ser uma das principais causas de óbito entre adolescentes e jovens com idade entre 15 a 24 anos na região das Américas, conforme indica relatório conjunto divulgado em fevereiro deste ano pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Em 2014, cerca de 1,9 mil adolescentes e jovens morreram em decorrência de complicações ocorridas durante a gravidez, parto e períodos pós-parto. Em nível global, o risco de morte materna é duplicado em mães com menos de 15 anos em países de baixa e média renda. As mortes perinatais são 50% maiores entre os bebês nascidos de mães menores de 20 anos quando comparados com os nascidos de mães de 20 a 29 anos, de acordo com o relatório. 

Serviço:

 

Associação Casa Maria Mãe da Vida

Rua Estevão de Campos, 905 - Barra do Ceará

Fortaleza

Tel.: (85) 3485-1756

Serviço Interdisciplinar em Ginecologia e Obstetrícia para Adolescente Sigo Adolescente (Hospital Distrital Gonzaga Mota - Gonzaguinha Messejana).  Av. Washington Soares, 7700 - Messejana, Fortaleza

Tel: (85) 3105.1590/3105.1594

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