Reportagem Mestras do drama

As múltiplas faces de dona Tereza

Aos 9 anos, Tereza Lino estreou o primeiro drama na escola. Até hoje, preserva a tradição no Sítio Umburana, em Beberibe, atuação que lhe proporcionou , em 2007, o título de mestra da cultura
00:00 · 13.05.2017

Os dramas comumente são apresentados por grupos femininos, não que os homens estejam impedidos de atuar. Quando necessitam de um personagem masculino, elas mesmas se caracterizam e encaram o desafio. Dona Terezinha Lima dos Santos, a mestra Tereza Lino, de 76 anos, incorpora com naturalidade o Janjão, um matuto que canta, dança e diverte o público. Ela também encena baianas, ciganas, floristas, ou qualquer outra figura necessária para garantir a performance da apresentação.

Moradora do sítio Umburanas, em Beberibe, no Litoral Leste do Ceará, a dramista deixou sua comunidade especialmente para participar da roda de conversa promovida durante a Bienal do Livro, em Fortaleza.

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Com simplicidade e até uma certa timidez, a senhorinha se revela ao narrar peças carregadas de comicidade, uma particularidade da dramista. Ainda criança, teve os primeiros contatos com esta arte por meio de uma professora contratada para dar aula na comunidade, pois lá não existia escola.

Por volta da década de 1950, aos 9 anos, ela encenou o primeiro drama coordenado pelas professoras. Desde então, participou ativamente das montagens, da criação de peças, das cantorias, lembrando que um dos irmãos organizava as exibições, armava uma lona, fechava o entorno e ainda cobrava ingresso com o valor simbólico.

Roupas de papel

As apresentações reuniam grandes plateias em Umburanas. Quando alguém gostava do drama pedia um ¨bis", mas para isto era preciso pagar em dinheiro. As dramistas prontamente repetiam o número. "Na minha primeira apresentação, fiz o papel de uma baiana. A gente não tinha nada, então pedia roupas emprestadas ou fazia com papel", recorda.

Aos 20 anos, quando casou a jovem deixou a cultura de lado, nunca se desligou totalmente da tradição. Reconhece que nos anos 1970, os dramas populares ficaram meio esquecidos. Acredita-se que a massificação da televisão, inclusive nas comunidades mais distantes, contribuiu para o enfraquecimento dessa cultura.

No fim dos anos 1980, mediante a aplicação de algumas políticas públicas de valorização do patrimônio cultural, foram então surgindo novos grupos de dramas.

Tereza Lino é exemplo disto, passando a integrar, em 1992, um grupo formado pelas primas Umbelina Vieira e Maria Alice Vieira, na localidade de Encruzilhada, município de Fortim. Depois de algum tempo, ele retomou a tradição dos dramas na sua comunidade, passando a ser conhecida e respeitada pelo trabalho em prol da cultura.

Por essa dedicação, conseguiu reconhecimento também fora do Ceará. Em 2007, com o projeto "Dramas Populares do Litoral Leste", a mestra Tereza Lino foi contemplada com o Prêmio Culturas Populares 2007 - Mestre Duda 100 anos de frevo, concedido pelo Ministério da Cultura. (CP)

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