Reportagem Conectados

As distâncias já não existem mais

00:00 · 18.02.2017

De posse de um smartphone, habitantes de longínquas comunidades dos litorais Leste e Oeste do Ceará estão cada vez mais perto de amigos, familiares e, principalmente, de conhecimento. Muito mais do que jogos e redes sociais, a conexão 3G faz com que eles tenham acesso e se apropriem de informações, elevando o desempenho nos estudos e também nos negócios  

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Canaan: 12.080 habitantes

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Acostumada a passear entre os wi-fis das casas ao redor da praça e da igreja de Canaan, Milena Moura, 10, mantém-se sempre conectada e sequer lembra do tempo no qual seus pais e vizinhos ainda percorriam o tortuoso caminho rumo à única antena de telefone celular da comunidade em busca de sinal. Afinal, como ela mesma conta, possui um smartphone "já tá bem com mais de um ano". Foi Milena quem apresentou a casa da Lu, filha da proprietária do terreno onde a antena do Alô Sertão foi instalada e, por estar na sesta, não pôde atender a reportagem.

"Eu tenho o 'zap' dela", disse Milena antes de empreender o grito no portão da casa da amiga. As duas estudam pela manhã e, no resto do dia, não se separam do celular.

Milena ainda é vizinha da única loja de conserto e vendas de artigos para smartphones de Canaan. O proprietário do negócio, Victor Alves, 19, acompanhou a chegada do sinal móvel à comunidade e enxergou a oportunidade de empreender ainda quando era adolescente. "Eu já trabalho nesse ramo há cinco anos", conta enquanto negociava o desbloqueio de um celular com Vanderson Rodrigues, 24. O preço, inclusive, é algo bem maleável.

Que o diga o amigo que chegou às pressas para copiar umas músicas do computador da loja para o pen drive dele. "Quanto foi", indagou o cliente, logo atendido por Victor: "Dois conto". "Um não resolve, não?", respondeu e, de imediato, fechou a transação. No auge de seus 14 anos, naquela mesma época em que as pessoas rodeavam a antena replicadora de sinal na comunidade, Victor - ou Vitim, como chamam os amigos e clientes - ganhou de presente da mãe um smartphone de entrada, de configurações bem básicas, com o qual iniciou a carreira no comércio de artigos e produtos de tecnologia.

"Eu fui trocando o aparelho em outro, depois em outro, até ter mais de um... Hoje, eu compro os produtos direto em Fortaleza e revendo aqui (Canaan) e em Itapipoca", conta, demonstrando como a demanda de capas, telas e principalmente novos aparelhos impulsionou o crescimento da loja.

São necessárias duas viagens a Fortaleza no mês, pelo menos, para dar conta da demanda da loja e do outro ponto de vendas. Em Itapipoca, onde cursa a faculdade de Letras, ele vai três vezes por semana para "vender na feira de lá". "Mas esses assessórios, capas, telas e o resto saem pouco. O que mais vende são aparelhos. Novos e usados, mas todos precisam ser 3G", afirma, revelando que o preço dos aparelhos negociados não supera os R$ 300. Justamente pelos celulares mais simples não possuírem tecnologia 3G, muitas pessoas trocaram de aparelho quando a terceira geração de telefonia móvel chegou ao distrito, há cerca de um ano pelo que conta Victor. A mudança ajudou o negócio dele, que alerta os visitantes de Canaan e os clientes: "Não tem nem perigo desses celulares lanterninhas pegarem aqui. Não funciona, só os mais modernos".

Siupé: 3.658 habitantes

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A poucos quilômetros do mais promissor Distrito Industrial do Ceará, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), Siupé configura-se no emaranhado da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), a partir de uma igreja, um minúsculo centro comercial e, de uns quatro anos até agora, de uma antena de telefonia móvel. Este cenário, inclusive, é comum a todas as comunidades visitadas pela reportagem. O equipamento, instalado a partir do Alô Sertão na proximidade dos demais elementos típicos de cidade pequena, reúne as pessoas e trouxe a conexão móvel - antes vista só pelo wi-fi da praça - para o cotidiano dos moradores. Por lá, o sinal precário de algumas operadoras impede o movimento de redução de chips, fazendo com que as pessoas possuam até três pré-pagos para falar e acessar a internet - gastando bastante em um mês.

Para diminuir esse custo, o cuidador de cavalos Diego Martins, 21, aproveitava o momento de folga para conferir o Whatsapp e o jogo de bila dos amigos. Entre um grito e outro na disputa de quem conseguia empurrar mais bilas para fora do triângulo, ele e os demais tiravam fotos e riam de mensagens e vídeos - e também de si mesmos.

Lan house obsoleta

De frente para a calçada onde eles estavam, localiza-se talvez o único negócio que perdeu dinheiro com a chegada da antena: a lan house de Siupé. "Antes, o movimento era bem melhor. Agora, a gente apura mais com os serviços de impressão, fotocópia e venda de material de escritório", atesta a atendente Helaine Gomes, 30. A loja fica estrategicamente ao lado do cartório e, oportunamente, também coloca crédito nos celulares pré-pagos.

Mas a chegada da tecnologia ajudou mesmo foi a comerciante Regilane Barbosa, 55, proprietária da única loja de Siupé que realiza compras com cartões de crédito. "Isso foi uma coisa que facilitou muito o nosso negócio, pois tem cliente que só pode comprar se for no cartão e, se eu não tivesse, ia perder a venda", afirma, contando que há um ano adquiriu a máquina justamente após a chegada do sinal móvel no distrito.

Juritianha: 11.562 habitantes

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Localizado além da badalada vila de Jericoacoara e antes das famosas fazendas de camarão de Acaraú, o distrito de Juritianha foi o mais conectado das localidades do Litoral Oeste. Apesar de o Alô Sertão ter chegado há três anos por lá, a disputa entre as operadoras de telefonia móvel já existia - efeito do fluxo mais intenso nas estradas de Itarema e Acaraú, o que deve viabilizar economicamente a instalação das antenas. A semelhança com o cotidiano das grandes metrópoles conectadas no que diz respeito às telecomunicações é tanta que, quando perguntados sobre o sinal de telefonia, o lamento de falhas frequentes e sem explicação, aparelhos que não funcionam em uma ou outra tele são comumente citados.

Os moradores de Juritianha, inclusive, também recorrem à base de conexão do Interior cearense: a internet à rádio. O celular, como prefere o pedreiro Mateus Ribeiro, 31, "só serve para ligar mesmo". Sentado na calçada de casa, de frente para uma antena, ele e o vizinho Adailton Nascimento, 24, pouco usam o sinal móvel para web.

Caponguinha: 1.605 habitantes

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Beneficiada por mais de um projeto que levou inicialmente o sinal 3G e, agora, internet a cabo às suas instalações, a única escola pública de Caponguinha foi responsável por apresentar para a maioria das crianças e a boa parte dos professores as vantagens de um mundo conectado. Em pleno planejamento para o próximo semestre letivo, as professoras Rejane Holanda, 30, Jaqueline Rodrigues, 26, e o coordenador pedagógico Mateus Castro, 26, relembraram a chegada do sinal ao colégio e de como foi difícil administrar a atenção dos estudantes entre as aulas e as tão atraentes redes sociais.

"No começo, a gente não distribuía a senha do wi-fi porque não tinha suporte para todos os alunos e a direção da escola. Mas eles sempre acabavam descobrindo e quando notávamos estavam todos usando. Agora, todos têm e muitos vêm à tarde para usar a internet", conta Mateus. Ele conta ainda que o acesso à rede qualificou as aulas devido às pesquisas bem mais aprofundadas que os alunos passaram a levar para as classes, fazendo com que os professores também elaborassem melhor as aulas.

Assim como acontece durante o período letivo, durante o planejamento do semestre os portões da escola continuam abertos para que os alunos tenham acesso livre ao espaço. Na tarde que a reportagem visitou Caponguinha, Renan Holanda, 11, era um dos que foi até à escola interessado no sinal de internet e também nas histórias contadas pelos professores.

Nova realidade

Ele conta que a antena instalada a partir do projeto Alô Sertão chegou há menos de um ano na comunidade - "em maio do ano passado" - e que a maioria dos moradores da comunidade possui mais de um chip para falar gastando menos com as tarifas de ligações entre operadoras. Vizinho a Renan e aos professores, enquanto executava a limpeza da sala da biblioteca sob sua responsabilidade, a bibliotecária Rita Batista, 52, apresentou-se como a maior usuária de 3G da escola. De posse de dois chips, ela revela que "um é para falar ilimitado com os filhos e o outro é só para usar internet, com Zap e Face". Logo também sacou o smartphone para fazer foto dos amigos sendo entrevistado e depois postar nas redes sociais. Sobre o sinal, ela também tem suas ponderações, afinal, uma operadora só apresenta conexão da cantina para a quadra da escola, enquanto a outra é mais para o portão da frente.

Pontal de Maceió

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De olho vidrado no celular enquanto o pai tinha os cabelos cortados, Rian Lucca Neres, 2, sequer notou a aproximação da equipe de reportagem e, na verdade, estava pouco se importando com isso ou como se dá play no vídeo que assistia com tanta atenção. "É assim, se deixar passa o dia", denuncia Jean Carlos Neres, 32, sentado na cadeira de barbeiro.

É de lá que ele e o amigo, Rodrigo Rodrigues, 41, atestam a intimidade do menino com o smartphone e reclamam do sinal de celular em Pontal de Maceió. Ao mesmo tempo, Rian deixa o vídeo da Pepa Pig de lado e, determinado a imitar o fotógrafo Cid Barbosa, saca a câmera do celular e põe-se a fazer fotos de todos ao redor até enjoar da brincadeira minutos depois. "Tá bom, quero mais não", fala diversas vezes seguidas seriamente até os cliques encerrarem.

Perto da barbearia, já no meio da praça da comunidade, o estivador Edyo Albuquerque, 39, e o filho, Edyo Luís, 10, passavam o tempo conversando com amigos, família e curtindo as redes sociais. Cada um com seu aparelho - um tablet para ele e um celular para o menino. "Aproveito o tempo livre para ver o grupo do futebol, da família, a turma do trabalho. Comparado a antigamente, ter esse sinal aqui é filé demais", diz. O mesmo era feito por Auristela Taveira, 50, e o filho, Marcos Paulo Silva, 25, que passavam uma temporada na casa da avó dele, Maria Silvano da Silva, 89 - sogra dela. Mas o sinal ao qual eles se referem e usam não é de celular. Todos faziam uso da internet wi-fi instalada na praça do distrito. A mesma também era usada da calçada de casa pelas irmãs Lara Cecília e Melissa Cordeiro, de 9 e 7 anos, respectivamente, para ouvir música eletrônica e dançar.

Dificuldades

No entanto, o sinal da praça não percorre os 300 metros até a praia. De frente para o mar, a dificuldade tanto dos habitantes de Pontal de Maceió quanto dos clientes das barracas de praia e pousadas é ter acesso pleno ao sinal de telefone, segundo conta a estudante de Hotelaria e atendente da barraca do Dedé nas horas vagas, Nadine Ramos, 21.

"Tem cliente que pena muito para conseguir sinal. Uns precisam ir até ali perto da cacimba para telefonar ou se conectar. Outros preferem ir até a praça. Depende da operadora", conta. A insatisfação nunca fez com que ela perdesse um pedido, mas, segundo atesta, um sinal melhor ajudaria bastante no negócio. Até mesmo para conseguir aceitar pagamentos com cartão de crédito o Dedé, ou José Egídio Braga, 54, sofreu tanto quanto os clientes. "Testamos duas operadoras para dar certo", conta com a maquineta na mão prestes a efetuar mais uma venda. Isso porque a barraca não possui sinal fixo, nem de telefone nem de internet, e para levar até o cliente a máquina do cartão de crédito é imprescindível o sinal de telefonia móvel.

Guanacés: 9.655 habitantes

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A presença de pelo menos três operadoras há tanto tempo na comunidade permite mostrar o quanto os habitantes de Guanacés já usufruem dos benefícios do sinal de celular. A estudante Graciele Sousa, 17, inclusive, foi encontrada entre as ruas enquanto telefonava e usava o 3G do smartphone comumente.

Porém, assim como o que é bom, os malefícios também fazem parte da rotina deles. É o que conta a família de Maria Edile dos Santos, 60. Reunidos na calçada no fim da tarde, ao serem perguntados sobre como é o serviço no distrito, todos lamentam a falta de sinal repentinamente e sem motivo aparente.

Mais ligações

Enfatizam ainda que os acontecimentos são tão corriqueiros e vistos em diversas operadoras que os motiva a utilizar o aparelho apenas para ligações e não para internet. Exceto por um dos mais jovens da família. Edinilton Alves, 21, investe mensalmente R$ 40 em crédito de celular para manter-se conectado às redes sociais e aos aplicativos de comunicação instantânea.

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