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Artesãs: mãos ágeis que transformam a palha

Muitas vezes a palha toma conta da casa das artesãs
00:00 · 28.10.2017 por Maristela Crispim - Editora

"A renda que a gente tem certa é a da palha da carnaúba", afirma Maria Helena Angelina Monteiro, 44, mais conhecida como Bóba, sobre a importância da árvore para a sua comunidade. Ela é presidente da Associação Comunitária do Serrote e Adjacências (AMCSA) e mora no distrito mais antigo do Município de Aracati, no Litoral Leste, a 154 quilômetros de Fortaleza, Cabreiro. Como tudo começou? "Eu cresci fazendo o trabalho da palha e os filhos, os netos, todos na comunidade trabalham com isso. Por causa do artesanato, eu já fui pra Brasília, participo das feiras da Ceart (Central de Artesanato do Cará), do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), dei até curso no Encontro de Povos do Mar, no Sesc Iparana. Nossa renda certa é a da Ceart, um incentivo porque é o melhor preço", conta.

Além deste comprador certo, Helena conta que as artesãs da sua comunidade recebem outras encomendas, de Canoa Quebrada e até mesmo de Natal (RN). Quantos aos tipos de produto, produzem o que vende melhor, o que varia muito. "Em termos de cozinha, fazemos boleira, porta-pão; afora os porta-revistas, bolsas de praia. O cliente pede o modelo e a gente vai desenvolvendo", explica.

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No outro extremo do Estado, encontramos Francisca Neuma dos Santos, 56, no bairro São Pedro, sede de Granja, município do Litoral Oeste do Ceará, a 332 quilômetros de Fortaleza. A agricultora e verdureira não deixa de lado o trançado da palha de carnaúba. Aprendeu aos 12 anos, com uma tia, e nunca mais parou. Costumava fazer 60 chapéus por semana. Hoje faz 15, mas diz que melhorou porque hoje tem mais preço.

No bairro São Francisco, as irmãs funcionárias públicas Maria Zuleide Mendes, 54 e Maria do Socorro Mendes, 45, dividem o tempo livre com as encomendas que recebem para eventos, aniversários, casamentos, até de outros municípios. Quando a encomenda é grande, pedem 15 dias para entregar porque costumam trabalhar à noite, quando a palha não resseca. O segredo para manter a palha flexível para tecer, aliás, é envolvê-la em um pano úmido para hidratar na medida certa. Zuleide conta que aprendeu a tecer a palha aos 15 anos, com uma vizinha.

Dos dedos ágeis de Maria Cristina dos Santos, 33, saem, em média, 250 vassouras por dia. Ela trabalha na sala de casa, transformada num palheiro, no distrito de Santa Luzia, Município de Jaguaruana, no Baixo Jaguaribe, há 189 quilômetros de Fortaleza. O cento é vendido a R$ 50. A primeira pergunta: quanto leva para fazer uma vassoura. "Uns dez minutos", estimou. Intrigada com a rapidez da confecção de uma peça para fotos e filmagens, cronometrei: 1 minuto e 35 segundos.

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Avanços

Essas são algumas das muitas histórias de pessoas que têm no artesanato feito com palha de carnaúba uma renda. No Estado, há uma movimentação no sentido de melhorar a vida dessas pessoas.

Amanaci Diógenes, coordenadora do Programa de Artesanato do Estado do Ceará, explica que a política pública do artesanato está em implementação há mais de 30 anos e, portanto, já está consolidada. "Mas existe o compromisso do governo, enquanto gestor, da melhoria contínua da qualidade, com inclusão social e produtiva", destaca. Segundo suas informações, essa política está assentada num quadripé que inclui cadastramento; assessoramento técnico e capacitação; curadoria e certificação; e comercialização.

O cadastramento serve para constituir a identidade artesanal e garantir participação nas demais ações, além de garantir o benefício da isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

O assessoramento técnico e a capacitação visam o desenvolvimento de novas coleções, com o desafio de considerar a realidade, cultura e aspectos iconográficos de cada região e inovar, além de capacitar as artesãs em gestão de negócios.

Em termos de curadoria e certificação, em 2015 foi lançado o Selo Ceart, que efetivamente reviu os critérios de produção e qualificação. No nível três, a artesã atinge a qualidade de excelência, com responsabilidade socioambiental.

Depois de cadastrados, qualificados na qualidade e na gestão, são necessárias ações de comercialização, que têm sido garantidas nas quatro lojas Ceart (Matriz, RioMar, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e Guaramiranga) e eventos locais, nacionais e internacionais. No ano passado, segundo Amanaci, foram 72 eventos. A meta deste ano são 75.

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Fibras vegetais

Segundo Amanaci, há uma tendência mundial de utilização de fibras vegetais, que no Ceará são, além da carnaúba, a palha do milho, a taboa, o sisal e o cipó. As bolsas, particularmente, têm chamado muita atenção. Tanto que as artesãs levam 30 dias para entregar e, em 15 dias, esgota o estoque.

O trabalho com a palha da carnaúba está mais presente no Vale do Rio Jaguaribe e Litoral Leste, nos municípios de Cascavel, Aracati, Itaiçaba e Palhano.

Segundo suas informações, no momento, a maior preocupação tem sido a preservação ambiental, sobretudo em relação ao cipó. "Para trabalhar a questão do manejo, extração e replantio, fizemos um trabalho com o curso de Agronomia da Universidade Federal do Ceará (UFC)".

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