Reportagem DOC

Anônimo de pai e mãe

00:00 · 11.02.2017

Moisés da Cruz viveu muitos anos sem a certidão de nascimento. Natural de Sergipe, nasceu sem saber a origem do pai, mas guardou na memória o nome da mãe, que morreu quando ele tinha sete anos. Aos cuidados do padrasto e de outros irmãos, o menino preferiu seguir em frente, conhecer outras paragens. E, assim, embarcou na boleia de um caminhão com destino ao Rio de Janeiro. Chegando lá, a fantasia e a alegria do menino logo terminaram.

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O caminhoneiro, segundo Moisés, tinha interesse em adotá-lo, mas a família não gostou da ideia. Foi levado, então, para um abrigo de menores, no Centro do Rio de Janeiro, onde viveu até completar 12 anos. Depois dessa idade, foi transferido para uma unidade em Niterói, quando começou a ter conflitos com os jovens infratores.

Novamente preferiu seguir em frente, desta vez optou por viver nas ruas do Rio. Passados uns três anos ao relento, uma alma generosa estendeu a mão ao jovem, conseguindo, assim, obter um registro de nascimento e, logo em seguida, os demais documentos. Alistou-se no Exército, mas foi dispensado por excesso de contingente. Arrumou emprego, teve a carteira de trabalho assinada e deu os primeiros passos para a cidadania, porém ainda tinha um caminho longo pela frente.

Na Carteira de Identidade de Moisés, que em hebraico significa “filho”, ironicamente não traz a identificação do pai nem da mãe. No espaço destinado à filiação, tem apenas dois registros de NC (Não Conhecido).

Acostumado com esta realidade “anônima”, não se lamenta pela ausência dos nomes materno e paterno. “Meu pai, eu não conheci, e minha mãe já morreu. Então, não tem mais jeito. Vou ter que viver assim mesmo”, diz Moisés, que reside em Fortaleza.

O único problema é para fazer alguma transação bancária. Ao perder o emprego de porteiro, por exemplo, precisou encaminhar os papéis para receber os seus direitos, contudo, como sempre, foi questionado: “Cadê o nome da sua mãe, e o do seu pai? Aí eu tive que contar toda a minha história. É sempre assim”, mas eu já me acostumei.

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