Reportagem Da terra e do mar

Ana Lúcia Silva: banquete servido na praia

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 19:52 · 01.10.2017 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral / Fotos: Cid Barbosa e Helene Santos

Filha de agricultor e casada com pescador, Ana Lúcia é meio terra, meio mar. Do solo, extrai a firmeza, do oceano, as incertezas. Da terra, garante o alimento, do mar, o sustento. Mesmo sem nunca ter frequentado a escola, criou uma receita de sucesso usando apenas três ingredientes: amor, trabalho e sorriso. É assim que recebe os clientes na sua barraca de praia em Barreiras de Cima, município de Icapuí.

O espaço funciona de quarta-feira a domingo, mas, excepcionalmente, ela abriu na terça para receber a reportagem. O cardápio principal já estava definido: lagosta ensopada. Antes de começar os preparos, Ana Lúcia Silva Barbosa, 54 anos, apresenta a cozinha. As panelas de alumínio brilhantes já revelam o capricho. Pisos e paredes brancos e limpos. Louças e talheres bem organizados. O cuidado no manuseio dos alimentos confirma: vem coisa boa por aí. E não deu outra!

Enquanto preparava a lagosta, prato típico em Icapuí, ia revelando a conquista de cada "tijolinho". Muito antes de se "descobrir" na cozinha, trabalhava na agricultura com os pais e os irmãos, e continua ainda hoje. Quando não está na barraca, está plantando milho, feijão, macaxeira para subsistência, ou então, colhendo cajus na pequena propriedade da família.

Casada com Raimundo, teve quatro filhos, ou quatro bênçãos, como ela se refere. Caiquinho, como é chamado o marido, tem nome de peixe, entretanto, o pescador nunca se deu com o mar. Para compensar, ia para o roçado e consertava redes de pesca que ajudavam no sustento, mas não supriam as necessidades.

Ana Lúcia, sentindo as dificuldades, passou a ser catadora de algas na praia. Saía de madrugada para percorrer quilômetros e mais quilômetros em busca de algas para gerar uma renda extra. A atividade era pesada, mas sempre retornava leve e cheia de esperança.

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Além de cozinhar, Ana Lúcia gosta de artesanato para decorar a barraca

Depois dessa experiência, trabalhou numa pousada bem estruturada da cidade. Começou na limpeza, passou a camareira e chegou à cozinha, o seu maior deleite. Em 14 anos, aproveitou para assimilar de tudo um pouco, fazendo inclusive alguns cursos pelo Sebrae. "Eu não sabia ler e escrever, mas eu queria aprender mais e mais. Então, fiz os cursos", revela aos risos.

Quando deixou a pousada, por escolha própria, ficou um tempo parada e sem saber exatamente o que fazer, foi quando recebeu a oferta para assumir uma barraca de praia. O espaço não estava pronto, faltavam o piso, os acabamentos, bem como louças, panelas, fogão, enfim, não tinha nada, muito menos dinheiro para assumir o risco. Nesta hora, um mar de incertezas bateu à porta de Ana Lúcia, mas a fé e o desejo de trabalhar superaram todos os medos.

Na loja de material de construção, encontrou o primeiro apoio. Comprou no crediário o que precisava para concluir a obra. As primeiras louças e panelas foram presenteadas por uns amigos da família. E assim, há cinco anos, começou a escrever um novo capítulo da sua história.

Na cozinha impecável, tem como braço direito a filha mais velha, Micerlange, além da ajuda do marido. Nos dias de maior demanda, conta ainda com a mão de obra das irmãs e dos outros filhos. Unida, a família vai se tornando uma referência na gastronomia de Icapuí, oferecendo, inclusive, serviços sob encomenda, bem como almoços e jantares para eventos especiais.

Mas o capricho da barraca Brisa do Mar vai muito além da cozinha. Logo na entrada, esculturas de madeira com motivos marítimos garantem charme ao espaço. As plantas bem cuidadas confirmam o lado terra de Ana Lúcia. Na parede frontal, uma frase dá boas-vindas: "Sinta a brisa aconchegante. O calor do abraço e o poder do sorriso". A mensagem também está fixada no cardápio, porém esta opção não tem preço, é mais uma cortesia de Ana Lúcia.

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