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Águas mais que bem-vindas

A barragem São José II, em Monteiro (PB), é uma das primeiras a receber as águas da Transposição. Fotos: Eduardo Queiroz
00:00 · 10.06.2017

Os primeiros pontos de entrega das águas do "Velho Chico", na Paraíba, são os reservatórios São José II e Poções, em Monteiro. Como a cidade possui sistema adutor com tratamento, seus 33 mil habitantes voltaram a ter água na torneira de imediato. No dia 18 de abril, as águas chegaram a outras 18 cidades ao longo do curso do Rio Paraíba. Entre estas, Campina Grande, que enfrentava sérios problemas de abastecimento para os seus 400 mil habitantes.

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O Eixo Leste foi projetado para ampliar a oferta hídrica e garantir abastecimento a cerca de 4,5 milhões de pessoas, em 168 municípios que sofriam com a seca prolongada nos estados de Pernambuco e da Paraíba. É composto por seis estações de bombeamento, cinco aquedutos, um túnel, uma adutora e 12 reservatórios - estruturas que cruzam os municípios de Floresta, Betânia, Custódia e Sertânia (PE), até chegar ao fim do Eixo Leste, no Açude Poções, em Monteiro (PB). A partir daí, segue pelo Rio Paraíba até a Barragem Presidente Epitácio Pessoa, em Boqueirão, para abastecer a Região Metropolitana de Campina Grande.

Reservas críticas

Alexandre Magno Teodosio de Medeiros, gerente executivo de monitoramento e hidrometria da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (Aesa), informa que, no Estado, há dois reservatórios sangrando, 36 com capacidade armazenada superior a 20% do seu volume total; 46 em observação (menor que 20% do volume total); e 43 em situação crítica (menor que 5%). O Açude São José II, em Monteiro, está sangrando com a água da Transposição. Mas a situação dos três maiores açudes do Estado ainda é preocupante: o maior, Coremas (Coremas), está com 9,5%; o segundo, Mãe D'Água (Coremas), com 5,7%. Ambos ficam no Sertão.

Já o terceiro, Epitácio Pessoa, com 6%, teve o seu volume melhorado do dia 18 de abril para cá. Estava com 11,8 milhões de m³ (2,8%) quando chegaram as águas da Transposição. Abastece Campina Grande e mais 18 municípios. Fica na bacia hidrográfica mais seca do Estado, incluindo a região do Cariri e parte do Curimataú. Sangrou pela última vez entre março e setembro de 2011.

Ele abastece, por meio de duas adutoras, os seguintes municípios e distritos: Adutora Cariri (nove municípios e um distrito): Boqueirão, Boa Vista, Cabaceiras, Cubati, Pedra Lavrada, Olivedos, Seridó, Soledade, Juazeirinho e o distrito de São Vicente do Seridó (Seridó). Já a Adutora Boqueirão - Sistema Gravatá (nove municípios e seis distritos): Campina Grande, Caturité, Barra de Santana, Lagoa Seca, Queimadas, Pocinhos, Alagoa Nova, São Sebastião de Lagoa de Roça, Matinhas e os distritos: Galante, São José da Mata, Jenipapo e Catolé de Boa Vista (Campina Grande), Curralinho (Caturité), Floriano (Lagoa Seca).

Segundo Alexandre, na Paraíba, 80% das chuvas se concentram de fevereiro a maio. Desde 2012 as precipitações têm ocorrido muito abaixo da média, com muita irregularidade. "Campina Grande está entre as cidades mais desenvolvidas do Interior do Nordeste, com polos tecnológico, universitário e industrial. A seca travou o crescimento. Onde não tem água, não tem como desenvolver", afirma.

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A Barragem Epitácio Pessoa, em Boqueirão (PB), responsável pelo abastecimento de 19 cidades da Região Metropolitana de Campina Grande, já evoluiu de 2,8% para 4,8%

Severino de Normandia, conhecido como Nanan, auxiliar administrativo do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) no Açude Epitácio Pessoa, diz não ter visto o reservatório nesta situação. De fato, desde a construção da barragem, em 1957, nunca o seu nível ficou tão baixo. Quando as águas da Transposição do São Francisco chegaram, no dia 18 de abril, o volume era 2,8% da capacidade. Um mês depois, chegou a 6% e permitiu mudança no severo racionamento que Campina Grande e mais 18 cidades do entorno vinham enfrentando. Mas a austeridade continua. Ele precisa chegar a 8,2% da sua capacidade para sair do volume morto.

Outro cenário

A mudança é visível. Principalmente no entorno, que ganhou o colorido festivo do São João após meses de abandono por falta de água. O restaurante Portal do Sol, que recepciona os visitantes da barragem, reabriu as portas em grande estilo. "Com a chegada da Transposição, o açude voltou a sorrir para a gente", afirma a dona do comércio, Margareth Leal. "É preciso entender que, se Deus faz a parte Dele, nós precisamos fazer a nossa, fazendo economia, construindo reservatórios, fazendo gestão", completou.

A 142Km de Boqueirão fica Monteiro, a primeira cidade da Paraíba a receber as águas da Transposição, com direito a duas inaugurações, pelo presidente Michel Temer, e pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Na cidade, o impacto desses acontecimentos foi tão forte quanto o da chegada da água.

"Chegava à torneira uma vez por semana, quando chegava. Quem tinha como reservar, conseguia levar. Mas, quem não tinha, era obrigado a comprar", conta o comerciante Gelson Correia da Silva, 60, que tem comercializado bebidas e petiscos todo domingo no local onde a água da transposição chega à cidade. "Isso é uma riqueza! Está mudando a minha vida e a de muita gente aqui. Estou conseguindo faturar de 300 a 500 reais aqui. É um bom começo", afirma.

A 6Km deste local fica a primeira barragem do outrora seco Rio Paraíba, a São José II, que tem recebido inúmeros visitantes atraídos pelas águas do sangradouro, que vertem com uma fartura de peixes que não se via há muito tempo. O funileiro Lafaiete Remídio de Lima, 51, nem se lembra ao certo qual foi a última vez que pescou no local. Mas, no segundo domingo após o início da Transposição, levou 12Kg de tilápia para casa. "Quando chego aqui, não tenho vontade de voltar para casa. Morro de arrependimento de ter vendido um sítio aqui perto porque não tinha água. Vendi por R$ 25 mil. O novo dono não vende nem por R$ 100 mil. Se tivesse um pedacinho de terra, estava plantando de tudo", afirma. (M.C.)

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