Reportagem Esperança dos cearenses

Águas do Velho Chico: tão perto e tão longe

00:00 · 18.11.2017
De um lado, o orgulho de construir aquele que irá transportar as águas do Rio São Francisco, quando elas finalmente chegarem ao Ceará; do outro, as incertezas e a pressa de quem tem urgência dessa água, num ambiente tão sofrido pela estiagem dos últimos anos. O operário Paulo Sérgio da Silva conjuga o verbo “envaidecer” de uma forma bem própria, enquanto o desempregado José Nildo do Nascimento flexiona o “acreditar” timidamente, de um jeito que transparece só lhe restar mesmo a expectativa de dias melhores e fartura que a transposição do Velho Chico promete trazer por onde passar. Os dois vivem e habitam bem próximos: o primeiro empunhando picareta e pá, ajudando o trator a abrir caminhos; o outro, vizinho da obra, um carrinho de mão, com baldes para buscar água no poço no sítio em frente à sua casa, na beira da BR-116, no município de Jati, a 538,9 km de Fortaleza. Duas maneiras de ver, sentir e analisar o trabalho que segue a todo vapor. Na paisagem, poeira, um calor quase insuportável e muito suor. Ali, as imagens do início do Cinturão das Águas (CAC) aparecem e impressionam pela grandiosidade. Perto dele, Paulo Sérgio, Nildo e qualquer um parecem formiguinhas perante o todo que representa o empreendimento.
 

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No entanto, mais do que conjugar verbos, a palavra esperança inspira todo cearense, seja do sertão ou cidade “grande”. A fé, reforçada pela ciência, nos bons prognósticos de especialistas em clima e tempo, que a pré-estação chuvosa, entre dezembro e janeiro, seja tudo aquilo pedido nas orações para São José, São Francisco e São Pedro. A confiança é de que as precipitações no período entre fevereiro e maio recarreguem os mananciais, com isso, ganhe-se mais fôlego para continuar lutando pela transposição. Na visão do professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e engenheiro hidráulico Marco Holanda, mesmo assim, essas águas não são a “bala de prata” para os períodos de estiagem, característicos do semiárido. “Até porque, vão resolver o problema de Fortaleza, mas e o restante do Estado? Principalmente os Inhamuns e Sertão Central? Por isso que as obras estruturais como os canais, como o Cinturão, são fundamentais”, analisa. 

Enquanto esperam, Nildo e sua mãe, Joana, rezam e vão se “virando” como podem para garantir a água da sobrevivência para os dois, uma vaquinha, cachorro e galinhas que criam e resistem aos momentos de dificuldades extremas. “Não sei quando as águas do São Francisco vão chegar de fato por aqui, sei que a obra anda, mas esperamos há tanto tempo que somente a fé em Deus é que permite continuar a crer”, diz ela, pertinho do santuário que tem na sala de visitas, bem na entrada da casa. “Eu apelo para todos, Padim Cícero e Mãe Santíssima também”, conta.

Alternativas

Na visão de Marcos Holanda, a questão dos recursos hídricos no Ceará é crucial e tem que ser analisada sob o ponto de vista de quais as soluções mais viáveis. “Primeiro ponto é que não existe alternativa mágica para a convivência com a seca no semiárido. Não existe uma solução ou mesmo um conjunto de soluções que vá resolver o problema”, indica. Agora, pondera, existem algumas medidas que devem e podem ser tomadas para convivermos com a seca de maneira menos traumática, como já aconteceu na história do Ceará. “Podemos ter uma série de ações que amenizam. Até porque resolver não vai. As condições climáticas são inerentes à região geográfica em que vivemos”.

Segundo ele, fala-se muito em resoluções “encantadas”, especialmente, frisa, por pessoas que não têm conhecimento técnico ou que tenham algum interesse. Para ele, o primeiro ponto importante é que, teoricamente, é que tudo em engenharia é possível. “Pode-se, por exemplo, fazer uma ponte de Fortaleza a Fernando de Noronha, é possível, mas é viável economicamente? É a solução mais barata? Tem um melhor custo/benefício? Certamente que não”, avalia ele.

Custo e benefício

E em recursos hídricos, indica, é preciso esgotar todas as soluções com melhor custo/benefício, antes de se partir para outras alternativas. “Se fala muito em dessalinização. Está na pauta do dia. Acho que os estudos devem ser feitos e avaliadas as possibilidades”, comenta. Mas, considera, até partir como solução para o problema, deve-se ter um certo cuidado, por uma simples questão: custo. “Quanto custa essa água? Acho que devemos buscar primeiro as soluções mais baratas e, entre elas, certamente, está a Transposição do Rio São Francisco. E é isso que já está sendo feito e é nisso que temos que focar”. Até porque, diz, a partir de fevereiro/março do ano que vem, se não houver uma pré e estação chuvosa muito boa, com recarga nos açudes, haverá um colapso de água em várias regiões do Estado. “O que já está havendo em algumas, inclusive nos centros urbanos”, alerta Marco Holanda.

“Como engenheiro não sou otimista e nem pessimista, sou realista. Avalio dados e concluo”, comenta. Para ele, a curto prazo é a única alternativa se o Estado não tiver um inverno bom ano que vem. “Até porque não consigo ver outra. Castanhão quase com volume morto, Orós com volume muito baixo também e Banabuiú seco”, reitera.

Sobre a transposição, o especialista ressalta dois pontos fundamentais. O primeiro, o benefício para a Região Metropolitana de Fortaleza, incluindo o Pecém. O outro, para o restante do Estado. Para a RMF uma vez a água chegar ao Castanhão, em torno de 15 metros cúbicos por segundo, o abastecimento da Capital está garantido através do Eixão ou do Canal do Trabalhador, que é outra alternativa. “Já o resto do Ceará é outra história”.

Recursos escassos

Para ele, são problemas muito grandes para serem solucionados. “Algumas regiões historicamente muito complicadas, como Crateús, Inhamuns, essas águas de transposição não terão efeito agora”. E aí, assinala, entra o Cinturão das Águas. Com ele, parte desses recursos do São Francisco também vão beneficiar outras áreas do Estado. O Cinturão, argumenta, é uma medida, a outra é a construção de barragens de maior porte nessas regiões. Inclusive já foram alocados recursos para a barragem de Fronteiras, em Crateús. Para ele, esse é o caminho. 

“Eu vejo com preocupação a crítica que as pessoas fizeram ao Castanhão, como provavelmente Fronteiras, nos Inhamuns, também será criticada. A questão é que não há alternativa viável urgente”, reafirma. O problema do semiárido, acentua, não é a falta de chuvas, e sim de medidas corretas para enfrentar os períodos que sempre vão ocorrer e isso é inevitável.

 

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Paulo Sérgio, Nildo e Joana: orgulho, esforço e fé, fases da mesma moeda no sertão cearense (Fotos Kid Júnior)

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