Dossiê esgoto

Água limpa "morre" na saída da estação

Resultados de exames laboratoriais, encomendados pelo Diário do Nordeste, comprovam efluentes fora dos padrões legais vigentes

Retirada de água bruta em riacho que deságua no rio Maranguapinho. A coleta, a pedido do Diário do Nordeste, foi realizada por químicos do laboratório Labor Saúde a cinco metros distante da saída de ETE Parque Genibaú II. Foto: Fernanda Siebra
00:00 · 24.06.2017

O esgoto doméstico é 99,9% água, mas tudo o que se traz no outro 0,01% é sujeira e poluição em cores, odores e malefícios à saúde humana e do meio ambiente. Nem toda água poluída é contaminada, mas toda água contaminada está poluída.

Por isso, é uma verdadeira redução de danos quando a turbidez dos poluentes se reveste em transparência logo no cano de saída da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), que existe às dezenas em Fortaleza. No entorno de cinco delas, realizamos análise laboratorial da água bruta ou tratada. Em todas, o resultado apontou para desconformidade com os padrões legais vigentes. Mas é só um recorte do que vimos ao visitá-las em bem maior número: quando caem no meio, já chegam como um 'esgoto novo'.

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Quando damos descarga no vaso sanitário, para onde vão os dejetos? Qual o ciclo daquela água? Se o domicílio tem rede de coleta, vai para uma das ETEs espalhadas no município. Percorremos Fortaleza para conhecer os arredores dessas estações de tratamento e a localização dos canos despejando água tratada para o meio, geralmente córregos, rios e riachos interligando a cidade. Após sofrer processo químico, físico e biológico, volta ao meio ambiente para que as bactérias do meio se alimentem do orgânico residual. Não é água potável, para consumo humano e animal, mas adequada ao uso agrícola ou industrial, se houvesse essa finalidade.

O meio receptor se encarregaria de terminar a limpeza da água, não fosse ele um outro próprio esgoto a céu aberto.

O Diário do Nordeste solicitou análise laboratorial de uma amostra de efluente tratado na saída de ETE e outras quatro de efluente bruto a poucos metros da saída de água dessas estações. A intenção foi entender se os sentidos nos confundiram ou realmente a água tratada "morre" outra vez quando se refaz em misturas químicas poluentes.

Os exames

Assinadas pelos químicos Elisio Soares Neto e Francisco Airton Abrantes de Lima, do Laboratório Labor Saúde, de Fortaleza, as coletas buscaram os seguintes registros: coliformes termotolerantes, Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), materiais flutuantes e sedimentáveis, PH, sólidos em suspensão totais, óleos e graxas totais e sulfeto.

Todas as amostras findaram em desacordo com os padrões legais vigentes - tendo como parâmetro a resolução 430 do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema) de fevereiro de 2017. As diferenças deram-se, sobretudo, no excesso de DBO, de óleos e graxas totais, e presença de materiais flutuantes onde não deveria existir.

A pesquisa foi realizada nos bairros Passaré, Parque Genibaú, Conjunto José Walter e Dias Macedo. A única amostragem de efluente tratado deu-se na saída da ETE Pequeno Mondubim, no bairro José Walter. Foi encontrada Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) 60% acima do permitido, mas todos os outros parâmetros verificados estão dentro da margem exigida. "Quando a análise revela um excesso de DBO, aponta para a presença de mais matéria orgânica, de modo que é necessária uma quantidade grande de oxigênio para aquele meio. É sinal de poluição", afirma Carlos Márcio Soares Rocha, doutor em geologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mestre em geoquímica ambiental e professor do Curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da Universidade de Fortaleza (Unifor).

A situação de maior desacordo foi encontrada na água bruta em córregos e riachos. Conforme a Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza (Seuma), responsável pelo controle da qualidade da água, esse é um problema diagnosticado.

"Acompanhamos o ano inteiro o nível de poluição em diferentes pontos de 24 lagoas e 12 rios e riachos na cidade, para discutir a maneira de resolver. Existem muitas ligações clandestinas de esgoto que desembocam direto nessas áreas. Sabemos que são vários problemas, desde a falta de rede de coleta, condições financeiras para ligação com a rede e mesmo a falta de educação ambiental", afirma André Arrais, gerente de célula de controle de efluentes da Seuma.

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