Reportagem Madalena

'Água Doce' mata a sede dos moradores

Os animais já sabem o caminho para matar a sede a qualquer hora do dia
00:00 · 02.12.2017

Há cinco anos, o êxodo rural parecia ser o destino de parte dos moradores das comunidades de Pau Ferro, Riachão do Mel e Caiçara, na zona rural de Madalena. O principal motivo da desolação enfrentada pelos moradores era a falta d'água, não só para consumo humano, mas para os animais.

O Açude Queto, que abastecia essas localidades, havia secado. A única opção era adquirir água dos carros-pipa. Hoje, graças ao projeto Água Doce, do governo federal, em parceria com a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), a realidade é bem diferente.

Com um investimento de pouco mais de R$ 146 milhões, 220 famílias das comunidades de Vila do Mel, Aroeiras, São Nicolau, Vila Angelim, Queto e Vila Caiçara foram beneficiadas com a implantação e recuperação do sistema de dessalinização.

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A conquista da água trouxe cidadania e dignidade aos moradores do Assentamento 25 de Maio 

"Estávamos no maior sufoco para conseguir água há cinco anos. Graças a Deus, as coisas melhoraram 100%", garante José do Vale Maciel, que é o morador escolhido pela comunidade para operar o sistema Água Doce. Um poço profundo foi cavado na localidade há três anos, dando uma vazão de 4.885 litros de água por hora. No dessalinizador, a água é tratada e o sal retirado. Para custear a manutenção do sistema, uma ficha é vendida por R$ 1. Cada fichinha, quando introduzida no chafariz eletrônico, permite a retirada de um galão de 20 litros.

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"Lembro da passagem de vocês por aqui, há cinco anos. Eu estava desesperado. A minha cisterna estava quebrada. A água que consumíamos era suja, esverdeada. Mas não tínhamos outra opção, a não ser filtrá-la, após fervê-la, para não consumi-la tão poluída. Foi importante vocês mostrarem aquela situação, pois, foi quando passou a ser do conhecimento de todos, que finalmente resolveram fazer alguma coisa de concreto para nos ajudar".

A comunidade também ganhou um pequeno açude, construído nesse período. É dele que é captada a água para uso doméstico. "É pequeno, mas garante o nosso consumo. Apesar de poucas, as chuvas deste ano foram suficientes para enchê-lo", relata Maciel. A água, que não passa pelo tratamento tradicional para consumo humano, mas é de boa qualidade, é destinada aos animais. Um tanque construído a poucos metros do sistema Água Doce oferece água 24 horas aos bichos.

Prosperidade

"Colocamos duas boias para não desperdiçar nada. Os animais se servem à vontade. Muitos vêm de longe para matar a sede por aqui. Nunca mais vimos os animais sofrerem". O Água Doce levou prosperidade para as comunidades do Assentamento 25 de Maio.

"Aos poucos, as casas de taipa foram trocadas por alvenaria. A tendência é que a gente consiga acesso a novas políticas públicas para trazer mais dignidade e cidadania", finaliza Valdo.

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Agricultor se adapta à nova realidade 

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Acima, o filho Nélio, agora à frente dos negócios; abaixo, o primeiro da fila é seu Júlio, hoje aposentado

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A saúde e a disposição já não são mais as mesmas, mas a esperança de ver a terra produzindo uma safra de feijão e milho continua firme para o agricultor Júlio Alves de Lima, 82. A labuta no campo ficou a cargo do filho mais velho, Nélio Alves. Das 170 cabeças de gado que existiam na fazenda, restaram apenas 44. "Fomos vendendo aos poucos. Não deu mais para manter todos os animais com seis anos de seca. Foi preciso se desfazer da maior parte para conseguir alimentar o restante", conta seu Júlio.

O agricultor ainda guarda um exemplar do Diário do Nordeste da época da passagem da reportagem por sua propriedade, datado de 29 de abril de 2012. "Não dava para imaginar que aquele era apenas o início desse tempo seco. Já está durando demais. Tem que acabar um dia. Não é possível tanta quentura no sertão". Seu Júlio se queixa da saúde debilitada. "Não dá mais para mim. Com 82 anos, fica difícil pegar na enxada. E o pior é que a cada dia está mais difícil encontrar quem queira. É difícil encontrar quem esteja disposto a trabalhar no campo".

Apesar de ainda considerar a estiagem de 1958 a maior de todos os tempos, seu Júlio já não tem dúvida de que o ciclo atual não tem precedentes. "Só se tiver sido no início dos tempos. Estou convencido de que daqui para a frente vai ser assim mesmo. A gente vai ter que se conformar com o pouco que chove a cada ano e se adaptar à falta d'água".

Foi essa adaptação que fez com que o agricultor diminuísse o seu rebanho. "Com poucas cabeças, dá para administrar e evitar que os animais morram de fome e sede. Outro fator positivo é que não foi preciso recorrer à queima do xiquexique ou mandacaru para alimentar os bichos. Hoje, sabemos da necessidade de produzir e guardar a forragem dos animais".

Nélio Alves revela que, apesar das parcas chuvas, "plantamos sete quilos de feijão e conseguimos colher 11 sacas (o equivalente a 660 quilos), o suficiente para alimentar a família e ainda vender alguma coisa. A silagem para os animais foi guardada e deve durar até fevereiro próximo". Em relação aos animais, conta que só os vende em último caso. "Só se for para honrar alguma dívida ou coisa parecida. Nada de se desfazer do bicho na base do desespero, por preço bem aquém do que ele vale".

As dificuldades e adversidades fizeram com que a família procurasse diversificar os negócios. A opção foi a produção leiteira. Todos os dias, a fazenda produz 40 litros. Não chega a ser muito, mas dá para negociar uma parte. "Nós tiramos uma média de cinco litros para o nosso consumo. É leite de ótima qualidade. O restante, nós negociamos com uma indústria de laticínios de Fortaleza. Já estamos vendo a possibilidade de ampliar o negócio. A vida é mesmo assim: se uma porta é fechada, a gente vai abrindo outra. Quem sabe o leite não compensa o prejuízo na agricultura? Acho que o ideal mesmo é apostar um pouco em cada atividade, criação de animais, agricultura e leite".

A esposa de seu Júlio, Maria Eduarda de Lima, 80, revela que o marido, após abandonar a lavoura, se preocupa menos com os problemas do campo. "A saúde dele está frágil. O lado bom é que ele não precisa mais se esforçar para garantir o sustento da família. Nossos filhos estão à frente do negócio. Espero que, se vocês voltarem daqui a cinco anos, encontrem todos nós com saúde", declarou.

Entrevista

'Os impactos são grandes, sobretudo no setor primário'

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Francisco Teixeira é secretário de Recursos HídricosO senhor falou na pior seca dos últimos 60 anos.

Qual realmente é o impacto hídrico dessa estiagem que assola o Semiárido nordestino e o Estado do Ceará de forma particular?

Segundo a Funceme, estamos vivendo, em termos de média pluviométrica, o período mais longo de chuvas abaixo da média da história catalogada. Os impactos são grandes, sobretudo no setor primário, na agricultura irrigada, onde o Ceará conseguiu se notabilizar, nas duas últimas décadas, até o início dessa seca, como um grande produtor de frutas. Fora a agricultura, nós tínhamos o crescimento da aquicultura por meio da criação de tilápia e da carcinicultura, e tudo isso sofreu impacto. Em relação ao abastecimento humano, para não entrarmos em colapso total, tivemos que implementar o maior programa de poços da história. No atual governo, construímos mais de 4.100 unidades, o que equivale a quase 40% de todos os poços construídos nos 30 anos de história da Sohidra. Também, desde o governo passado, implantamos o maior programa de adutoras de engate rápido da história, cerca de mil quilômetros.

Transposição, perfuração de poços, dessalinização e outras medidas que estão sendo implementadas são suficientes para garantir uma segurança hídrica nos próximos anos?

O que nós temos que aproveitar, numa seca dessa magnitude, é exatamente identificar bem as vulnerabilidades e saber como é que nós podemos corrigi-las. No Interior a gente já viu que pode contar, em algumas regiões, com a construção de poços para complementar a demanda, a oferta dos açudes, dos mananciais de águas superficiais. Algo que precisa ser implementado, de forma mais consistente, estruturante e definitiva é um programa de adutoras. Precisamos implementar quatro ou cinco mil quilômetros de adutoras para garantir que todas as sedes municipais e distritos do Interior possam ter água tratada com quantidade e qualidade, a partir dos maiores mananciais, daqueles que resistiram a essa grande seca.

O desperdício d'água por meio da evaporação dos nossos açudes é fenomenal. Qual é a sua dimensão real? Existe alguma maneira de mitigar essas perdas?

Esse é o preço que pagamos por termos uma sociedade que vive muito próxima da linha do Equador. Somos pobres de águas subterrâneas, que estão ajudando mundo nessa seca, mas sempre terão um caráter complementar, a não ser em algumas áreas litorâneas e no Cariri, onde água subterrânea é encontrada em maior quantidade e de melhor qualidade. A evaporação é uma espécie de imposto que pagamos para ter algum saldo na água do reservatório para ser utilizada.

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