Reportagem Falência hídrica

Açude Castanhão: o gigante agoniza na estiagem

A barragem do principal açude do Ceará está quase seca, causando desalento
00:00 · 02.12.2017

Construído, dentre outras finalidades, para garantir o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e a perenização do Rio Jaguaribe, o gigante Castanhão, inaugurado em 2002 e que em 2004 encheu, hoje agoniza. Desde o dia 21 de outubro último, o manancial opera no volume morto, segundo o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Nessa data, atingiu 3,73% da sua capacidade de armazenamento. Atualmente, está com 3,12%. Há exatos cinco anos (2/12/2012), o Castanhão estava com 57,47% da sua capacidade total. A falência hídrica do equipamento trouxe dificuldades, desempregos e desesperança entre os moradores da nova Jaguaribara.

O administrador do Complexo Castanhão, Fernando Pimentel, não esconde a gravidade da situação e menciona um dado alarmante. "A perda de água é crítica. O que foi armazenado durante a quadra chuvosa, cerca de 77 milhões de m³, já tinha sido perdido no dia 31 de julho".

O prefeito de Jaguaribara, Joacy Júnior, lembra que o Castanhão era uma esperança para os munícipes e virou um pesadelo. "Se a Jaguaribara antiga está em ruínas, a nova, economicamente, está na mesma situação. Já realizamos até eventos para angariar recursos. Pela primeira vez em muitos anos, a fome voltou a surgir entre as pessoas mais carentes. A produção de tilápia, que representava 70% da economia do Município, ruiu. Nossa situação é desesperadora. Se não chover muito bem a partir deste mês que se inicia, não sabemos o que será da cidade", alerta.

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Para constatar que não existe exagero nas palavras do administrador, basta dar uma volta em Jaguaribara. As ruas largas e projetadas encontram-se vazias. Até para conseguir uma informação é preciso paciência. Após 16 anos, a Secretaria de Assistência Social começou a receber pedidos de cesta básica. "A economia se sustentava da pesca da tilápia. Produzíamos, em média, duas mil toneladas de pescado por mês, representando um faturamento de R$ 12 milhões mensais; hoje, atingimos a marca de apenas 150 toneladas, o que não corresponde nem a R$ 1 milhão. A cidade depende das aposentadorias e dos salários dos servidores municipais".

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Esperança

"A vista é bonita, mas a verdade é que a cidade não prosperou, não é nada daquilo que falaram para a gente". O testemunho sobre a mudança da velha para a nova Jaguaribara é de João Rodrigues de Sousa, 87, conhecido como Crisóstomo. O aposentado reforça a renda e a vontade de viver exercendo a atividade de cambista no mercado.

"Antes, passávamos o tempo na vazante do rio. Eram dias de fartura e tranquilidade. Água nunca foi problema para nós. O Jaguaribe passava na porta. A mudança nos trouxe esperança no início; depois, só decepção". Crisóstomo ressalta que sua clientela é formada basicamente por moradores da cidade inundada com as águas do Castanhão. "Sou cambista há 44 anos. Essa atividade me mantém lúcido e bem disposto. Se tivesse em casa, no fundo de uma rede, já tinha atrofiado e morrido". Sobre a cidade antiga, "não posso negar que a saudade é grande. Todos se conheciam e eram amigos. Não tinha violência. Apesar de tudo, sei que não tem mais volta. O jeito é se conformar e ir levando a vida como Deus quer. Para não ter desgosto, preferi nunca voltar à velha cidade depois que ela foi descoberta. Muita gente já visitou".

Embora seja natural da Paraíba, poucos moradores de Jaguaribara contam a história do Município com a precisão de seu Antônio Pinheiro Neto, 78. Seu Netinho, como é conhecido, reside há 65 anos no Ceará. Ele fala como a cidade surgiu e passou por transformações. "Na verdade, Jaguaribara era distrito do Município de Frade, hoje Jaguaretama. Chamava-se ainda Santa Rosa (na condição de distrito) quando se emancipou, em 1957. Um ano depois, elegeu como seu primeiro prefeito, Eraldo Bezerra. Daí até 2001, a antiga Jaguaribara viveu plenamente. Costumo dizer que éramos ricos e não sabíamos. Vivíamos da agricultura e pecuária. Tínhamos uma bacia leiteira de 12 mil litros de leite por dia. Para se ter uma ideia da abundância, o plantio no entorno do rio era maior no verão do que no inverno. Existia criação de galinhas, porcos e outros animais", retrata seu Netinho.

Contrastando com essa realidade, seu Netinho garante que "hoje, Jaguaribara é a cidade mais pobre e menos desenvolvida de todo o Vale do Jaguaribe. A pesca, a agricultura e a criação de animais se acabaram. Se tirarmos as aposentadorias e os poucos salários da Prefeitura, não resta nada. Não temos uma fábrica sequer. Nos jogaram no meio da pobreza. Aqui, para dizer a verdade, só tem a 'boniteza' da cidade nova". De 2004 a 2012, a situação era diferente. "A barragem do Castanhão tinha muita água. Tudo levava a crer que a nova Jaguaribara seria uma cidade próspera. Com o ciclo de seca, chego a arriscar que a atual Jaguaribara está se transformando numa cidade fantasma, como a antiga".

De 2012 até hoje, a velha cidade desapropriada para a construção do Castanhão foi emergindo dos escombros. Água mesmo só numa antiga passagem molhada. No local, muitos animais aproveitam para pastar no entorno e matar a sede. A antiga rua principal, que dava acesso à cidade, tem parte do calçamento intacto. Uma parada de ônibus permanece em pé. Por todo canto, se vê tijolos pelo chão e muitos postes que foram quebrados durante a desapropriação.

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No alto, João Rodrigues de Sousa; no meio, Antônio Pinheiro Neto, o seu Netinho; abaixo, os escombros da velha Jaguaribara descobertos pela estiagem 

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