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Açude Castanhão: anseios, esperanças ou um milagre?

00:00 · 18.11.2017

É quase fim de tarde quando o agricultor Manuel Alves de Sousa, de 65 anos, começa a retornar para casa, após mais um dia tentando aproveitar o pouco que resta da reserva hídrica do maior açude do Norte e Nordeste, o Castanhão. Ali, na terra batida, onde há menos de dois anos, bilhões de metros cúbicos de água cobriam tudo de onde fora uma cidade, ele observa a imensidão e não esconde as lágrimas. "Andava de barco por aqui. Tinha peixe e vida. Tudo era bonito de se ver. Agora, é rezar para que essa belezura volte com a chuva ou o São Francisco", anseia. Por enquanto, diz, vai plantando capim para o que resta do gado da Nova Jaguaribara, que renasceu, em 2002, um pouco mais afastada, com a inauguração do reservatório que ocupou o lugar da antiga cidade.

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A rezadeira Maria do Socorro lembra bem do dia que teve que transferir "suas coisas" e de quando o Castanhão encheu rapidamente. Agora, como a maioria, lamenta a situação do açude e diz que, apesar da descrença de muitos, ainda tem fé de vê-lo com "água até a boca". "É difícil sim e ainda tivemos que lutar para não se levar mais nada dele para Fortaleza. É uma briga feia, mas 'tão' vendo que não podem tirar nem uma gota mais daqui", ressalta, sendo apoiada por outros moradores que antes sobreviviam da pesca e da agricultura.

"Nós estamos numa crise hídrica, com nossos principais reservatórios no limite: o Castanhão com quase nada, o Orós com 7.1%, o Banabuiú praticamente seco, sem falar na transposição que ainda é uma esperança", reconhece o titular da Secretária de Recursos Hídricos (SRH), Francisco Teixeira. Por isso, defende a diversificação das fontes hídricas e faz um alerta: "estamos indo buscar água cada vez mais distante. E isso custa muito caro", chama atenção.

Imagine, explica Teixeira, que para garantir Fortaleza, que não produz água e depende da Bacia Metropolitana, esse recurso que veio do Castanhão, até o ano passado, percorre 256 km via Eixão e, num futuro próximo, com a chegada da transposição do São Francisco, essa água virá de quase 800km, captada em Cabrobó (PE), percorre 210 km para chegar em Jati/Brejo Santo, vai percorrer 53 km pelo Cinturão das Águas, por Missão Velha, e mais 300 km para chegar no Castanhão. "É uma água que vem de longe e é importante a pessoa usá-la com parcimônia e respeito, economizando. É um bem que será cada vez mais caro e as disputas no mundo serão cada vez mais comuns", projeta.

Sobre o Cinturão, ele garante que o primeiro trecho, entre Jati e Cariús, deverá ser entregue ainda esse ano. A meta é chegar aos 150 km no final de 2018, início de 2019". Para quem mora nas proximidades do Castanhão, é esperar para ver. "Ou essa água salva a gente ou vamos à espera do milagre de boas chuvas", declara Maria do Socorro.

Entrevista com presidente da Coger João Lúcio Faria

Sistema resiliente e flexível

O Ceará enfrenta uma série crise hídrica. As disputas pela água são constantes e os dilemas de abastecer população, campo e indústria também. Como analisa isso?

É preciso entender que o sistema integrado do Jaguaribe e Banabuiú é bastante flexível. Hoje, temos várias alternativas de obter água. Temos o Banabuiú, o Óros, o Castanhão. Desde 1993 podemos contar com o Canal do Trabalhador que integrou os sistemas do Jaguaribe ao Metropolitano. Foram decisões importantes ao longo desses 30 anos.

Qual a população beneficiada?

O Estado todo. Somente no sistema metropolitano, são 3,5 milhões de pessoas atendidas, se somarmos com a bacia do Jaguaribe, sobe para 4,5 milhões de pessoas, então é um sistema com uma responsabilidade muito grande, porque além de garantir o abastecimento, também garante a atividade econômica do Estado, seja na produção da agricultura irrigada ou atividade comercial e industrial que se concentra, em grande parte, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). É preciso que todos da Capital tenham em mente esses esforços para todos.

O Cinturão das Águas será gerido pela Cogerh a partir de quando?

Em relação ao Cinturão, a Cogerh se prepara para receber os primeiros 53 km, do Lote 1, de Jati a Missão Velha, para transferir a água do São Francisco, via Riacho Seco. A perspectiva do Cinturão é integrar todo o lado Oeste do Estado, sendo o primeiro trecho com 145 km de canal, de Jati até Cariús. O que nos dará maior garantia para o Cariri, Bacia do Salgado, reforçando o sistema, que conta com água subterrânea, e garantir o desenvolvimento econômico daquela região.

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Primeiro trecho, em Jati, as obras devem ser concluídas até dezembro, em 53 km de extensão. Ali, a estrutura hídrica impressiona pelo tamanho e traz, em si, a esperança de transferir as águas do São Francisco (Foto Kid Júnior)

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