Reportagem Projeto no Mondubim

Acordes Mágicos: sons para tocar a vida

O casal Bento e Lene se reúne com os seis filhos e a turma das aulas de música no bairro Novo Mondubim (Fotos: Fernanda Siebra)
00:00 · 23.12.2017 / atualizado às 00:40

Aquela indagação de "o que você pode fazer por alguém hoje" Maíra começou a responder cedo. Filha de pai músico, e de ouvido criterioso, iniciou ainda na infância, com o irmão Axel, estudos de música clássica, tocando instrumentos como violino e clarinete. Entretanto, essa não é a história de uma menina da periferia de Fortaleza que sabe tocar violino e encanta com isso. Essa também não é uma história de Natal.

Foi em um dia qualquer do ano, mas não 25 de dezembro, que os irmãos Maira e Axel, então com 13 e 15 anos, tomaram uma atitude que mudaria a história do bairro Novo Mondubim. "Pai, a gente quer montar um projeto: ensinar o pessoal do bairro a tocar música clássica. De graça, como a gente aprendeu". 'Pai' é Bento Cruz, um músico que decidiu deixar como heranças o bom gosto musical - antes mesmo de os meninos se tornarem prodígios nos palcos cearenses. "Tudo bem, mas é uma responsabilidade grande", disse aos filhos.

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Maíra afina instrumento no ensaio geral para a próxima apresentação do período natalino

Em outro tempo, já havia lhes falado que se quisessem, um dia, ser músicos, tinham que estudar de verdade. O medo do pai era a repetição de seu caminho: um profissional que, para ganhar a vida, embrenhou-se em bandas a tocar pelos trocados da sobrevivência e, no fim, não ter o reconhecimento. "As bandas de forró não valorizam o talento de seus músicos", pronto, falou.

Só foi anunciarem que começariam as aulas de música que, no primeiro dia, apareceram mais de 300 crianças e jovens. Axel Brendo, o mais velho dos filhos de Bento, pensou que, se não há opção de lazer, seriam eles. E se música é coisa séria, lá estava Maira lecionando para os bem mais velhos que ela. Pedindo sensibilidade. Para ouvir, não basta ter ouvido, já que para viver não basta estar vivo. Os meninos de Bento e Lene, a mãe, já cresceram numa área de exclusão e vulnerabilidade. Em outras palavras, já sabiam o peso das drogas a consumar os amigos. A música poderia lhes tocar.

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Projeto Acordes Mágicos recebeu nova estrutura, ampliando a capacidade de alunos

Em pouco tempo, as aulas dos irmãos viraram a sensação do bairro. Não demorou para aparecer quem dissesse "podemos ganhar dinheiro com isso", mas o atendimento já nasceu gratuitamente porque era esse o princípio de Maíra e Axel: dar pelo que receberam.

Em cinco anos de Projeto Acordes Mágicos, já foram vários lugares de ensaios, sobretudo em escolas, e foi de tanto ouvir "não queremos mais vocês aqui", porque estariam fazendo barulho, que a única saída foi entrar com a turma na própria casa.

E se a família de pai, mãe e seis filhos já não parecia pequena, eles trouxeram outros...150.

"Acreditamos que se cada pessoa dá uma contribuição que é positiva gera uma mudança na sociedade. Nossa ambição é formar cidadãos", disse Maíra, artista requisitada nos espaços da música cearense, do alto de seus 19 anos, e criticada desde os 13 por ser uma professora de tantos. "Criticavam a gente porque éramos crianças".

Entendendo que os críticos não se ofereciam para fazer o mesmo trabalho, a família Silva (da parte do pai) e Cruz (da mãe) só seguiu em frente.

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Além de filhos, Axel, Maíra, Alisson, Mírian, Vitória e Cecília compõem um sexteto do clássico ao popular. São também organizadores do projeto, em que decidem tudo democraticamente

Enquanto faziam "barulho" com os instrumentos de corda, promoviam uma transformação silenciosa em universo de dependentes químicos no Novo Mondubim. "Tem mãe que chega aqui pra nos agradecer que o filho está deixando as drogas, melhorou em casa, tá trabalhando. Mas não foi a gente, foi a música", retruca Axel.

O Projeto Acordes Mágicos se mantém com as oportunidades que ainda surgem. Foram selecionados no último Edital Mecenas do Governo do Estado do Ceará, de incentivo à cultura, e assim conseguem pagar despesas com água e luz. Mas foi o ano de 2016 um divisor de águas, e do silêncio dos incomodados: o programa Caldeirão do Hulk, da TV Globo, reformou a casa da família, que agora tem até um estúdio de gravação.

"Não é fácil manter tudo isso, porque as contas somos nós quem pagamos no fim do mês", bem sabe Bento Cruz. Dois anos atrás, os alunos apenas ficavam o tempo da aula, hoje a casa dos Silva Cruz é um refúgio cultural sempre cheio.

É, no centro da periferia, um instrumento de contraste: enquanto em algum lugar próximo grupos tragam fumaça e pó, nesta casa, eles sopram, dedilham e deslizam em cordas, numa ceia musical.

Serviço:

Projeto Acordes mágicos
( 85) 9 9653.- 1695 / 9 8708. 5630
Novo Mondubim - Fortaleza
Facebook: Projeto Acordes Mágicos

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