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A vida pede pressa

Após o consentimento da família, os órgãos do doador são captados. Os profissionais têm pressa para levar o coração até o local de transplante. O órgão tem apenas quatro horas para ser transportado, implantado e reanimado ( Foto: Yago Albuquerque )
00:00 · 04.02.2017

Com a autorização da família, começam os procedimentos de captação. Equipes dos principais centros transplantadores do Estado são notificadas pela Central sobre o fechamento do protocolo e passam a avaliar se os órgãos ainda estão ativos, passíveis de transplante. O desejo coletivo é que todos possam ser captados. Quanto maior o aproveitamento, maior é a esperança para pacientes na fila de espera. "Tem a possibilidade de doação do coração, do fígado, dos rins e das córneas. Mas tem que ver se os órgãos estão funcionando e se têm compatibilidade com os receptores", diz a enfermeira Kátia Rodrigues, da CIHDOTT.

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Mesmo antes dos testes finais, o receptor do coração já foi escolhido. Em primeiro lugar na fila do transplante, aparece José Cardoso Morais, de 60 anos. Natural do Piauí, veio a Fortaleza na esperança de conseguir um novo órgão e se curar de uma doença cardíaca grave, que já estava no limite da espera.

 

Seu Cardoso estava internado desde agosto no Hospital Carlos Alberto Studart Gomes, o Hospital do Coração de Messejana, quando recebe a notícia da doação. Tenta não criar grandes expectativas, mas o desejo de viver é maior. Em poucos meses, passou por 10 tentativas de transplante. Todas fracassaram porque o órgão não estava em condições para implante.

"Vai ter coração"

"Ele já estava pra não aguentar. Estava muito fraco. Mas toda vez que aparecia uma chance, ele achava que ia dar certo. Às vezes, perguntava: "Será que vai ser agora?", e eu dizia: "Vai, sim"', conta a esposa, Francisca.

O piauiense entra em pré-operatório por volta das 14h da sexta-feira, quando a captação tem início no IJF. Os testes indicaram que, com exceção do fígado, todos os órgãos têm potencial para ser transplantados. Rins e córneas vão para outras pessoas.

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Menos de 20 minutos após a captação, médicos levam o coração doado à sala de cirurgia, no Hospital do Coração de Messejana. Foto: Yago Albuquerque 

Frágil, o coração é o órgão que mais sofre durante o processo de manutenção do doador, por isso a viabilidade do transplante só é confirmada no momento da retirada. Na saída do centro cirúrgico, a coordenadora da CIHDOTT traz a boa notícia: "Vai ter coração".

A partir do momento em que o coração é captado, são apenas quatro horas para que o órgão seja transportado até o hospital de transplante, implantado no receptor e reanimado. É o chamado tempo de isquemia fria, que determina até quando o órgão pode resistir e conservar funções fora de um corpo.

Quando as equipes saem do bloco cirúrgico com o coração captado, a ambulância do hospital está preparada para o levar o órgão até a unidade transplantadora. O percurso, acompanhado pela reportagem, precisa contar com a parceria da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) porque o tempo, mais uma vez, é decisivo. Definirá o sucesso ou não do transplante. Durante todo o deslocamento, batedores vão desviando o fluxo de motoristas e abrindo caminho pelas ruas congestionadas de Fortaleza. Em menos de 20 minutos, o órgão chega ao local da cirurgia.

Cinco horas depois, o transplante chega ao fim com êxito. Quem avisa é Dr. Juan Mejia, coordenador do Programa de Transplantes Cardíaco do Hospital de Messejana e responsável pelo procedimento. "Transcorreu tudo bem, dentro do esperado. O paciente está bem".

Voltar a viver

No primeiro dia de visitas, Seu Cardoso e Francisca se reencontram. Desta vez não para lamentar o transplante que não ocorreu, mas para celebrar. Quando vê a esposa, começa a chorar. "Chore, não", diz ela. "É tudo graça de Deus".

Se o caminho até o transplante foi longo, o que virá depois dele não será menos custoso. O piauiense ainda tem meses de reabilitação à frente antes de voltar para a terra natal. Mas já começa a usufruir do coração que lhe foi destinado. Será seu por, pelo menos, mais 14 anos, tempo médio de sobrevida estimado para transplantados cardíacos. "Agora, é uma outra vida. Ele estava vivendo, mas não estava. Agora, daqui pra frente, ele quer viver", diz Francisca.

Tempos de isquemia

Coração: 4 a 6 horas

Pulmões: 4 a 6 horas

Fígado: 12 a 24 horas

Pâncreas: 12 a 24 horas

Rins: até 48 horas

Córneas: 7 dias

Ossos: até cinco anos

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