Reportagem 'Antônio de Lu'

A vida inteira de dedicação à lida com o gado

Nem todo vaqueiro concorre nas vaquejadas, mas a maioria dos esportistas trabalha no ofício
00:00 · 19.05.2018

Gibão, chapéu, perneira, guarda-peito e luvas de couro de bode. Estes são alguns acessórios utilizados para se proteger contras espinhos e evitar cortes nas chamadas "pegas de boi" ou, simplesmente, "na luta", como alguns descrevem. Neste município, no Cariri cearense, os "vaqueiros afamados" ainda existem e resistem para manter a tradição. Na ponta da língua, todos falam de uma herança de pais, avôs e bisavôs.

É o caso de Antônio Ferreira Nobre, popularmente conhecido como "Antônio de Lu", 73, morador do Baixio das Palmeiras, que anda para cima e para baixo no seu cavalinho "pé duro", sempre com seu inseparável chapéu de couro. A vida de vaqueiro começou com seu avô, José Agostinho, que ficou sem ninguém para cuidar do seu cavalo e pediu ao garoto que assumisse a tarefa. "Eu sabia fazer uma luta", lembra. Aos 24 anos, assumiu o emprego. Com o céu ainda escuro, já tirava o leite logo cedo e soltava o gado para comer nos matos.

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Mesmo assim, ele não esconde que a paixão surgiu ainda moleque, quando via, admirado, os vaqueiros tangendo o gado até a sede município de Crato. "Eu gostava e ficava com inveja dos vaqueiros velhos. Era uma profissão respeitada", garante. Aos 7 anos, se meteu a sair sozinho montado a cavalo e ajudou um senhor a guiar a boiada até o matadouro da cidade.

Mais tarde, Antônio de Lu assumiu a profissão que tanto quis, mas, na época, o trabalho era fazer ração, cortar capim, preparar a forragem. O 'gado solteiro' tinha que observar, cuidar. Uma vaca mojada ele trazia para o curral. A aventura aos 7 anos, agora era comum, tangendo boi de seu avô até o matadouro, para depois ser vendido no açougue. "Naquele tempo, não tinha tanto movimento de carro, a gente entrava na rua com gado estorvado, até 20 bois. Hoje, não é possível. Levam em carro mesmo, a não ser que vá tirar de uma roça para outra", conta o nostálgico vaqueiro aposentado.

No entanto, o trajeto não era tranquilo, pois, muitas vezes, havia um gado "ridículo" e outro mais "veaco". O primeiro, era aquele animal mais bravo, que gostava de brigar, já o segundo, era o corredor, que fugia do grupo. Era neste momento que Antônio de Lu mostrava ser um bom vaqueiro. Saia correndo atrás do boi no meio do mato, por cima de jurema e olho-de-gato, segurando o "croá" - corda responsável por amarrar o boi.

Quando capturava, colocava os arreios, chocalho e a careta, para trazer de volta à boiada. A careta, máscara que cobre os olhos do bovino, servia para o animal não correr muito. "Sem ela, vai partir no meio do mundo, sem destino. Com careta você vai manobrando", explica Antônio. Todos estes equipamentos carregam uma "marca" para deixar claro o dono do bicho. No caso dele, eram as letras 'A' e 'F', marcadas também nos animais.

"A gente fazia as pegas de boi por obrigação, mas gostava, porque tinha aquela aventura, saia contando para um vaqueiro e outro. O cara dizia para fulano que pegou o gado de sicrano. Muitos deles vinham ajudar a gente. A gente nunca estava só numa luta quando tinha muito gado. Um ia ajudando o outro. Alguns gostavam de contar vantagem, história em feira, de um e de outro, enquanto tomava uma pinga. Alguns aumentavam sempre, não tem como não. Vaqueiro e caminhoneiro sempre é desse jeito", brinca o vaqueiro.

Outras aventuras

Mas as lutas não aconteciam só no Cariri. No lombo dos cavalos Cinzeiro ou Passarinho, Antônio de Lu saia do Baixio das Palmeiras, em Crato, para deixar gado no Sítio Chico Lopes, em Bodocó (PE), percorrendo cerca de 145Km. Um colega sempre o acompanhava, seja Sebastião Barros ou Antônio Mascarenhas, já falecidos. Este último fazia questão de ir a pé até o município pernambucano, tangendo os animais. A viagem durava de dois a três dias.

No trajeto, os dois sempre eram recebidos nas fazendas pelo caminho, botavam o gado num cercado ou curral. "Vaqueiro é bem recebido e esse pessoal de Pernambuco é muito hospitaleiro. Onde chegava, tinha dormida", garante Antônio de Lu. Na "mala", seu alforje trazia comida: arroz, carne e queijo. Uma maca, amarrada na garupa, carregava uma rede. "Com gado solteiro, era mais ligeiro. Podia sair de lá uma madrugada e chegar no outro dia, 10 horas da noite", lembra. Outra vez, seu avô comprou um gado de Moreilândia (PE), "criado no sertão, solto, quase selvagem", descreve. Foi tanto trabalho que passaram oito dias para recuperar, um a um.

Aqui e acolá, Antônio tirava um trocado, levando 120 cabeças até Porteiras, compradas por algum fazendeiro na feira de Crato. Cedinho, carregava o gado por cima da Chapada do Araripe, atravessando o município de Jardim. Além do trajeto ser menor, era melhor para os bichos, pois a estrada é plana e a temperatura mais amena. Mesmo assim, o trabalho não era suficiente para sustentar toda a família, de seis filhos, por isso, também cuidava da roça.

"Hoje, ninguém faz isso. Tenho saudade. Às vezes vem a recordação. A gente ainda sente uma coisa parecida quando vai numa cavalgada. Ainda se encontra com a 'vaqueirama' velha, antiga. Mata a saudade. Minha família cresceu vendo isso, mas só o (filho) mais velho que gosta mesmo. Eu o levava para as viagens. Agora são os filhos dele que gostam, mas nesse esporte mesmo, vaqueiro de praça", lamenta.

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