Reportagem Ilhados: natureza intocável

A viagem: expedição se inicia com a travessia no mar

Navio-patrulha Araguari transporta tripulantes e técnicos de apoio ao Arquipélago
00:00 · 22.04.2017 / atualizado às 09:31 por Marcus Peixoto - Repórter

Para chegar ao Arquipélago São Pedro e São Paulo (ASPSP), onde ainda se mantém o mito de natureza "intocável", a viagem somente é possível por mar. Por meio do navio-patrulha da Marinha Araguari, sob o comando do capitão-de-fragata Sousa Aguiar, repórteres e pesquisadores passam a conhecer ou ampliar seus conhecimentos em torno de um local inóspito para a vida humana: sem vegetação, água doce ou praia. O ASPSP é, na verdade, um conjunto de rochas de uma montanha submersa.

.Ilhados: natureza intocável
.O lugar: mundo submarino fascina pelo mistério
.A estadia: estação científica é vulnerável a tremores
.A chegada: ilhas são inóspitas à vida humana
.O valor: santuário intocável é mito degradado
 

A viagem longa, reunindo civis e militares, impõe uma rotina que deve ser seguida durante todo o período de confinamento no navio. Acordar com o apito da alvorada, estar no rancho às 5 horas, já banhados e barbeados, para o café da manhã, participar ou acompanhar os exercícios de adestramento, e praticar exercícios físicos pela tarde. Almoço e jantar ocorrem, respectivamente, às 11 e 17 horas.

Embarcação construída por ingleses, o Araguari é considerado não apenas um dos mais modernos navios de guerra na sua categoria como também um dos mais confortáveis da frota da Marinha brasileira. Na planta interna, existe ar condicionado em todos os compartimentos e os banheiros contam com água quente.

A lendária comida da Marinha, com fama justificada pelo sabor e variedade e pelo que proporciona pela compensação do longo curso, não é um mito. Se no passado, a comida ruim das naus explicavam motins e surras em cozinheiros por marinheiros destituídos de outros entretenimentos, é uma referência longínqua para o presente. No entanto, é sua propulsão, a velocidade, estabilidade que mais são enaltecidas pelo comando.

A cozinha, tendo à frente, o primeiro sargento Duarte, funciona das 4 às 22 horas. Nessa viagem, chegam a ser servidas 1.170 refeições. O cardápio, que é assessorado por nutricionista baseado em Natal, tem um planejamento prévio de até um mês antes da viagem. É regra evitar o desperdício.

Água para higiene pessoal passa por reúso. O navio também dispõe de um dessalinizador. Sentir enjoos pelo balanço no mar é uma reação que ocorre até mesmo com os velhos lobos do mar. Certamente, as queixas foram maiores entre os civis. Ficar nos beliches dos aposentos, lendo ou escrevendo, é uma distração, para quem já está enjoado, sem trocadilhos, de tanto ver televisão, quer na Praça de Armas, o rancho dos oficiais, ou no rancho dos praças, sargentos e cabos.

A experiência da viagem de navio é, inclusive, objeto de importância didática para os alunos do curso de Oceanografia do Laboratório de Ciências do Mar (Labomar), mantido pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo a doutora em Oceanografia, Maria Oziléa Bezerra, "é de grande importância pois auxilia na formação dos oceanógrafos oferecendo apoio para melhor capacitação com a experiência embarcada". Oziléa destaca as dificuldades de habitar ilhas oceânicas com isolamento radical. "A vida no arquipélago tem restrições e exige cuidado com a manutenção de serviços básicos como água doce, energia, comunicação", ressalta.

Ilha detém riquezas de valor estratégico

O Arquipélago São Pedro e São Paulo (ASPSP) é o único conjunto de ilhas oceânicas brasileiras acima da linha do Equador, sendo composto por pequenas ilhas rochosas formadas a partir da evolução geológica associada à falha tectônica de São Paulo. Trata-se de um afloramento do manto Oceânico que se eleva de profundidades abissais, em torno de 4.000 metros apresentando uma área total emersa de 17.000 metros quadrados.

Apesar de sustentar um perfil extremamente inóspito, o ASPSP possui características únicas que propiciam ao País oportunidades ímpares nos campos econômico, científico e estratégico. O Interesse econômico se dá porque o ASPSP está situado na rota migratória de peixes com altíssimo valor comercial, revelando-se uma região bastante promissora para a atividade pesqueira nacional.

 

Além disso, sempre despertou elevado interesse científico. Trata-se de um caso raríssimo de formação de ilhas, cercadas de rica biodiversidade, que proporciona condições únicas para a realização de pesquisas em diversos ramos da ciência.

Almirante destaca potencial da costa

almirante

A identificação do brasileiro com o mar, não apenas pelo que representa de lazer e sua composição estética nos cartões-postais, mas sobretudo com o reconhecimento de uma grande riqueza que envolve um relicário vivo ainda pouco estudado. Afora isso, é igualmente menos conhecido o potencial mineral, que vão desde as jazidas de petróleo, sobretudo no sudeste brasileiro, quanto a materiais que despontam para suprir necessidades de novas tecnologias.

Segundo o almirante Renato Rodrigues de Aguiar Freire, comandante do 3º Distrito Naval, sediado em Natal, o Arquipélago São Pedro e São Paulo busca esse apelo para que o brasileiro passe a se identificar com a faixa de litoral, muito além das praias ensolaradas e dos momentos de lazer. Nesses rochedos, há uma dádiva não totalmente valorizada pelo cidadão comum até porque quem mais pesquisa e mantém maior permanência nas inóspitas pedras está muito longe de esgotar as conclusões sobre seu real valor.

"Nós aqui presenciamos o que é feito no Arquipélago. Temos o perfeito entendimento da nossa presença. A pesquisa constante da Marinha e dos pesquisadores garante, primeiramente, a soberania numa área muito extensa da Zona Econômica Exclusiva, com cerca de 450 mil metros quadrados, nos permitindo usufruir dos benefícios sustentáveis em prol de nosso País", afirma o almirante.

Para o comandante do 3º Distrito Naval, essa importância estratégica também se reveste de uma outra sobre a projeção do Brasil no Oceano Atlântico. "A soberania do Brasil se estende até aqui e isso nos dá uma responsabilidade muito grande de manter essa soberania e da capacidade de prosseguir com nossas pesquisas. As pesquisas científicas são centrais para o que fazemos aqui no Arquipélago", ressalta.

Aguiar Freire acredita ser importante que a exploração seja feita com sustentabilidade. Para isso é muito importante que as pesquisas feitas aqui nos indiquem o inter-relacionamento no habitat marinho que sucede nessa área. "O habitat marinho é muito complexo e cheio de inter-relações, o que demanda um estudo cuidadoso e demanda muito tempo desses pesquisadores que hoje estão realizando essas pesquisas".

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