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A trilha da experiência analógica na contramão do digital

No sentido contrário à atual efervescência digital, ouvir fita cassete ou comprar em lojas de rua são alternativas de reconstrução da memória, difusão da informação e território de encontro com o outro

00:00 · 14.07.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Quando o assunto “indústria fonográfica” é mencionado, associações mentais ligadas ao furor do sucesso costumam fazer parte desse expediente. A imaginação passeia por estrelas pop metidas em limusines, discos de ouro na parede e caríssimos quartos de hotéis destruídos. A idealização da fama e fortuna advinda com a música possui algum substrato na vida real e eventos pitorescos na área são recorrentes. 

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Tratado como chefe de Estado, Elvis Presley (1935 - 1977) presenteava amigos com Cadillacs estalando de novos. Em outra esfera desse mercado, bandas progressivas passavam anos em castelos medievais à procura da cristalina e definitiva sonoridade. Sir Elton John, certa vez, em estadia na Alemanha exigiu do empresário uma outra cobertura. Simplesmente, o vento que batia na janela da nababesca instalação atrapalhava o sossego do campeão de vendas. Verdades ou “disse me disse”, estes excessos soam distantes e até anacrônicos nos dias atuais. 


Obviamente, “darlings” da música continuam a perambular por aí em sites de celebridade e fofoca, porém, o jogo mudou radicalmente neste começo de milênio. Por parte das gravadoras, o grande e silencioso vilão foi encarnado pela pirataria via download. 

O Deus ex machina chamado internet tornou bem mais complexos os modos de consumo e consequente distribuição da música. Até mesmo as divindades do meio compraram esta briga e alguns marcos exemplificam esta rinha. No intervalo temporal entre a fúria histérica do Metallica contra o Napster, em 2000, ou o recente levante do Tidal, serviço de streaming capitaneado pelo rapper Jay Z, diferentes suportes tornaram-se párias ou heróis rapidamente da noite para o dia.

Olhares

Duas obras cinematográficas foram capazes de capturar o espírito tecnológico que inflamava o fim dos anos 1990, instante onde o MP3 passou a ganhar espaço. Cada uma, a seu modo e com pontos de vista singulares, retratou a influência das mídias físicas no cotidiano do consumidor anônimo. Nessa imersão sobre a decadência dos suportes, “Boogie Nights – Prazer sem limites” (1997) e “Alta Fidelidade” (2000) entregaram subtextos reflexivos sobre as inevitáveis alterações que o novo milênio firmaria.

Discorrendo sobre o auge e queda da indústria pornô norte-americana, tendo como ponto de partida os anos 1970, a obra de Paul Thomas Anderson conta com uma cena pontual sobre o mercado da música. Num momento bastante tenso da trama, Dirk Diggler (Mark Wahlberg) tenta negociar uma quantidade volumosa (e falsa) de cocaína com o figurão Rahad Jackson (Alfred Molina). 

Com os olhos injetados e louco até a tampa, Jackson escuta um cassete batizado por ele mesmo como “My Awesome Mix Tape #6”, algo como “Minha impressionante Mix Tape” (nada modesto). No meio daquele caos, o bigodudo personagem filosofa ao som da balada “Sister Christian”, da banda Night Ranger, e dispara algumas observações contra todo a lógica do disco.

“Amo essa coisa. Eu faço essas pequenas fitas de mixagem. Eu coloquei todas as minhas músicas favoritas juntas. Qual é essa? Número 11 (o número da canção nas paradas de sucesso)?. Quando você compra uma fita ou um álbum, as bandas colocam as músicas em alguma droga de ordem, como se elas quisessem que você ouvisse nessa ordem. Odeio isso. Não gosto de ouvir o que tenho que ouvir, ou quando escutar”.

Sutil

Menos paranoico, porém ainda amargo, Rob Gordon (John Cusack) é dono da loja de discos Championship Vinyl em “Alta Fidelidade”. No filme de Stephen Frears, baseada no romance homônimo de Nick Hornby, a decadência do estabelecimento é refletida na disfuncional vida amorosa do protagonista. 

Esnobe e amarrado ao passado, Gordon passa por uma severa crise de meia idade e se firma como um sujeito melancólico e avesso às mudanças. Habilidoso, Frears se utiliza do fato das lojas do segmento padecerem diante da popularidade dos CDs para esmiuçar a dissolução das relações. 

Criador e criatura, Championship Vinyl e Rob Gordon são sintomas de uma era considerada apocalíptica (ou frutífera tempos depois) para os amantes dos K7s e LPs. Já distante do terreno da ficção, o roteiro desse drama envolvendo tecnologia e fluxo da música ganhou outros contornos durante o correr dos 2000. Se caminhasse entre nós, o ambíguo protagonista vivido por John Cusack estaria vibrando com o atual desbunde e o inesperado retorno das coisas analógicas?

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