Reportagem Ematuba

A redenção de uma população antes esquecida

A dona de casa Antônia Martins, 75, reside local desde 1974 e só há pouco tempo passou a contar com água encanada de boa qualidade na sua moradia, no Centro
00:00 · 02.12.2017
Uma espera que durou 40 anos. Enfim, moradores de Ematuba, principal distrito de Independência, realizaram um sonho que, para a maioria da população, é algo por demais comum. Instalaram encanação e torneiras nas suas casas para receber água tratada. Com isso, o conhecido mané mago, uma geringonça utilizada para pegar água no chafariz do distrito, foi aposentado.

“Quem não mora aqui talvez não entenda, mas, para nós, a chegada da água a Ematuba, há quase dois anos, foi motivo de felicidade. Em março próximo, vamos comemorar a data”, relata Joaquim Alexandre, 62, conhecido como Quinca da Ematuba.

agua
A comunidade aguardava a instalação de uma adutora para puxar água do Açude Barra Velha, que fica a 30 quilômetros de distância. Entretanto, a solução estava bem pertinho. Um poço profundo foi cavado no próprio distrito com uma vazão de 24 mil litros d'água por hora. A água é levada para uma caixa que fica a 400 metros de distância, na parte mais alta de Ematuba. Lá, depois de tratada, é armazenada e distribuída por gravidade para as residências.

As cerca de 400 famílias que residem em Ematuba, até então, recorriam à água que era transportada por carros-pipa até uma cisterna localizada entre o prédio dos Correios e de uma escola municipal. Diariamente, filas enormes se formavam para pegar água em baldes e até em embalagens de agrotóxicos que eram reutilizadas. Os recipientes eram transportados nos mané mago até as residências.

“Hoje só não tem água encanada quem não quer. Podemos dizer que vivemos com dignidade. Carros-pipa por aqui só de passagem para outras localidades”, garante seu Quinca. O Programa Água Doce garante o abastecimento não só na sede, mas também nas comunidades de Juazeiro, Mundo Novo, Aniceto, São Joaquim e São José.

A dona de casa Antônia Martins, 65, mora no local desde 1974, e só recentemente conseguiu ver a água sair pelas torneiras. “A maioria nunca teve torneira em casa. Só mesmo uns poucos que tinham condição de comprar dos carros-pipa para encher as caixas. As pessoas aqui praticamente se matavam para pegar água. Vinham de todas as maneiras, a pé, de carroça, com baldes, no mané mago ou até no jumento. Foi uma época que preferimos esquecer e torcer para que não volte nunca mais”.

LEIA AINDA:

> Resistência sertaneja: perseverança em meio à seca
> 'Água Doce' mata a sede dos moradores 
> Açude Castanhão: o gigante agoniza na estiagem
> Água salobra chega pelas torneiras 
> Depois de secar, açude Colina renasce em meio ao Sertão

Necessidade

Isadora Rodrigues, mãe do pequeno Davi, de apenas um ano, sorridente, fala que o filho jamais vai saber o que é um mané mago. “Foi uma coisa de Deus. Passamos por tantas necessidades durante esse tempo todo e hoje temos água nas torneiras e para beber sem qualquer dificuldade”.

Francisco Vangles Furtado de Melo, 44, lembra do tempo em que pegava cinco baldes de água no seu mané mago. “Realmente era uma dificuldade sem tamanho. Espero que esse tempo não volte nunca mais. Porém, eu guardei o meu mané mago no quintal. Espero não ter que utilizá-lo para pegar água, e sim para outras tarefas, como carregar outros objetos”.

Para os moradores, o sonho da água encanada foi plenamente realizado. Eles agora se mobilizam para cobrar do poder público a implantação do saneamento básico no distrito. Muitas casas, sem opção, são obrigadas a despejar o esgoto para o meio da rua, causando poluição ambiental.

 
Água santa do padre Bourassa
 
ags
Na cidade de Capistrano, a população ainda recorre, nos dias de quarta-feira, à água armazenada numa grande cisterna ao lado da Igreja. A ideia foi do padre jesuíta canadense Bernardo Bourassa, falecido em 2009, aos 95 anos. Durante sua permanência à frente da Paróquia, há 25 anos, ele resolveu construir a cisterna, ante as dificuldades decorrentes do clima Semiárido da cidade e a frustração na tentativa de cavar poços profundos. Há cinco anos, a água era distribuída duas vezes por semana. A crise hídrica reduziu para um único dia.

Independência: valorizar o rebanho foi a solução

3
Atualmente, a Fazenda Recife tem 300 ovelhas e bodes e 150 cabeças de gado; e nenhum animal passa fome ou sede; pois as poucas chuvas foram suficientes

A Fazenda Recife, em Independência, foi uma das mais afetadas na região dos Sertões de Crateús pela estiagem de 2012. O proprietário, João Colares, teve que comercializar a metade do seu rebanho, 105 animais, pois o gado definhava rapidamente. Para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo, ele se desfez dos bichos, que foram encaminhados para o Piauí, em abril, para receber o dinheiro somente em dezembro. Sem falar em vários animais que não resistiram aos efeitos da estiagem.

Marco Antônio Martins, funcionário da Fazenda, lembra que “nunca tinha visto tanto animal morto como em 2012. Como a gente vinha de boas chuvas, ninguém podia imaginar que o pior iria acontecer. Veio a seca braba e deixou muitos proprietários no prejuízo”. Hoje, apesar da continuidade das precipitações abaixo da média, a situação está controlada.

“As poucas chuvas têm sido suficientes para produzir sorgo e capim para os animais. Na verdade, ninguém se preocupava muito com isso. Mas aprendemos com a derrota. Atualmente, aqui na fazenda, temos 300 ovelhas e bodes e 150 cabeças de gado. Nenhum deles passa fome ou sede”, conta o funcionário Marco Antônio.

O proprietário João Colares investiu na construção de tanques e uma cisterna para alimentar os bichos. “Eles agora não precisam caminhar muito por aí. Têm tudo por perto. Quando a água da chuva acabou, a gente compra dos carros-pipa. Antes não tinha onde armazenar”. Outra providência adotada foi a reativação de um cacimbão, no início de 2013.

“O segredo para não ter problema é criar poucos animais. Assim, temos como alimentá-los e mantê-los gordos. Dessa forma, eles se valorizam e são vendidos por um bom preço”.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.