Reportagem Projeto Tamar

A luta para a tartaruga aruanã não desaparecer

A pesquisadora estagiária Isadora Sousa realiza a marcação de uma aruanã antes de devolvê-la ao mar, na praia de Barra da Boca Grande, em Almofala, município de Itarema (Foto: Kléber A. Gonçalves)
00:00 · 26.05.2018 / atualizado às 09:11 · 27.05.2018 por Melquíades Júnior

A tartaruga leva fama de preguiçosa, porém poucos seres têm tanta disposição de percorrer o mundo. Começa a vida em um continente, segue a outro para alimentação, mas em qualquer um deles pode esbarrar em redes de pesca que se fazem lixo no fundo do mar.

Engaioladas acidentalmente, não conseguem subir à superfície para respirar - são constituídas de pulmão. Em outras situações, o sufocamento é causado pelo plástico engolido como se fosse folha ou água viva. Mas não digerido. A sacola do supermercado tem a disposição de correr o mundo igual à tartaruga. Se o bicho não esbarra com nenhuma dessas opções, vem o homem e captura para o consumo da carne.

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A tartaruga, que nunca teve pressa, sacode as nadadeiras desesperadamente na tentativa de se libertar das linhas de pesca. Ou das mãos humanas. Na praia da Boca da Barra, distrito de Almofala, Reginaldo encosta a embarcação para antes da arrebentação das ondas e lança os braços para cima exibindo uma aruanã em sinal para quem está em terra. O dia mal amanheceu e já estava voltando da pesca, que não era da tartaruga erguida como um troféu. Foi o jeito de avisar "à loirinha do Tamar" que havia passageira na embarcação.

Acompanhamos um dia de trabalho dos pesquisadores do Projeto Tamar, de conservação da tartaruga marinha, no litoral Oeste do Ceará. Com um binóculo na beira da praia, Isadora Souza aguarda o desembarque de cada uma das sete embarcações que haviam saído para o mar. A observação faz parte do monitoramento da tartaruga-verde (Chelonia mydas), popular aruanã, uma das cinco principais espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil, todas ameaçadas de extinção.

Vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Icmbio), o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinha do Leste, ou Projeto Tamar, está no Ceará desde 1993. Fosse resumir sua atuação em duas imagens, uma seria a fila de tartarugas na praia de 'barriga' para cima prontas para o abate a céu aberto, com as vendas ocorrendo ali mesmo; a outra seria pescadores como o Reginaldo erguendo o réptil vivo e anunciando desembarque.

Isadora é estudante de ciências biológicas em Belo Horizonte e faz estágio no Tamar-CE. Uma de suas funções é monitorar o desembarque das tartarugas e realizar marcação e medição de comprimento e peso. "Assim, a gente acompanha o movimento da população dessas quelônias, se estão doentes, ou mesmo se voltaram", explica.

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Tartarugas são monitoradas na Praia de Almofala/CE

Conscientização

Para isso, é fundamental o trabalho de socialização com a comunidade pesqueira. Uma ação iniciada nos anos 1990 por Eduardo Lima, diretor da sede. "É um acompanhamento contínuo, pois antes era muito natural o comércio clandestino de tartaruga, hoje a conscientização é maior. Os pescadores sabem que o animal está ameaçado de extinção e que o consumo de carne é proibido por lei. O problema do abate continua, tentamos conscientizar já que não podemos fiscalizar. É uma luta constante que tem como aliadas as crianças, por meio da educação ambiental". O trabalho ambiental também envolve a economia local. Rendeiras de bilro produzem as peças com desenhos de tartarugas que customizam produtos vendidos nas lojas do Tamar em todo o País.

Cinco anos atrás, estivemos entre os municípios de Acaraú e Itarema investigando o abate clandestino do "boi-de-mar", codinome dado à tartaruga-verde pelos atravessadores da carne ilegal. Ainda naquela época, era possível identificar um verdadeiro serviço delivery. Quem capturava o bicho, já tinha venda certa na cidade. O comércio não acabou, e os predadores estão cada vez mais espertos, driblando fiscalizações do Ibama e operação da Polícia Federal, quando haviam.

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Marcação e medição de tartaruga em Almofala/CE 

Vida monitorada

Em apenas uma manhã, Isadora realizou a marcação em cinco tartarugas, trazidas do mar porque ficaram presas nos currais de pesca. Chegam estressadas, agitando as nadadeiras. São colocadas de barriga para cima até acalmar. Após medição, uma a uma é liberada de volta para a água.

No meio da atividade, surge "Chicão" de moto. Corria a notícia de uma tartaruga encalhada a dois quilômetros dali. Chegando ao local, constatamos a tartaruga sem casco. "Não deve ter tido muito tempo, ela não está com estágio de decomposição avançada. Ela encalhou há pouco, mas o tempo que foi abatida não tem como saber", explica Isadora. O que era um trabalho de marcação tornou-se necrópsia e sepultamento.

"É difícil ver e é muito mais comum do que a gente pensa. Um animal em extinção, que leva de 25 a 30 anos para reproduzir, ver um deles abatido antes de chegar à fase de reprodução significa menos ovos, menos filhotes". Tudo o que a gente não quer ver. Sediado na Praia do Forte, estado da Bahia, o Tamar e suas 25 unidades comemoraram, em abril deste ano, 35 milhões de tartarugas protegidas e soltas no mar.

Frase
 
"O monitoramento é feito nas pescarias, nos currais e nas redes de espera porque são importantes meios de captura de tartaruga marinha. Além disso, desenvolvemos um trabalho de educação ambiental junto às escolas locais. Nossa arma é a conscientização."
 
Eduardo Lima
Diretor do Tamar em Almofala

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