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A força do rap

MC Padêro: "Estudei por quatro anos para me alfabetizar"
00:00 · 04.03.2017 por Adriana Martins - Editora assistente

Para qualquer rapper, as palavras são 50% do negócio. Com MC Padêro, 38 anos, não é diferente. Fundador do grupo RDF, um dos mais conhecidos do gênero na Capital, tem três discos lançados e hoje segue com público fiel em carreira solo.

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Mas até chegar aqui, sua relação com as palavras teve um período, no mínimo, peculiar. Com mais de 30 anos, ainda não sabia ler e escrever, embora se preparasse para lançar o primeiro disco do RDF, "O que eu fui, o que eu sou", ao lado de Sid e Jonas de Lima, amigos e integrantes do grupo.

"Eu falava e eles escreviam. Aí a gente batia as letras e eles reliam pra eu decorar. O primeiro disco foi todo assim, um trabalho danado", resume Padêro. "Acho que nasci com esse dom", continua, em referência à então habilidade de cantar longos versos sem ter lido nenhum.

Nascido no Pará, Francisco Velto Barbosa Lima - alguns anos depois, MC Padêro - veio para Fortaleza com dois anos de idade, junto da mãe. "Meu pai faleceu e ela tinha família aqui, por isso viemos. Moramos no Pirambu e até no Interior, antes de se instalar aqui nas Goiabeiras", recorda.

"Minha família tinha pouca estrutura, a gente era meio jogado pra um lado, pra outro", lembra, sobre a própria situação e a dos irmãos. "Então passei esse tempo sem estudar. Cheguei a ir pra escola, mas não ficava".

Adolescente, começou a trabalhar numa padaria do bairro (daí o apelido). "Fazia entregas de bicicleta, aí cruzava com 'os cara', que pediam um pão e tal. Com medo de ser assaltado, você ia lá e liberava. Então eles começavam a achar que você era legal, e disso surgia a amizade com as pessoas erradas", recorda o rapper.

"Quando vi, estava com lama até o pescoço", resume Padêro, que não entra em detalhes sobre o passado de crimes, mas sinaliza envolvimento com roubo e tráfico de drogas. "Perdi meu emprego e comecei a pensar que não tinha mais jeito, que só restava continuar naquela vida", relata. Até ser preso em 1998. "Foi o suficiente pra entender que não queria mais aquela vida".

padero

Mudança

Foi nessa época que Padêro aproximou-se do rap. "Planet Hemp, Racionais MCs, essas bandas começavam a chegar aqui. Foi com Racionais, aliás, que passei a ver as 'ideias certas'", reconhece.

De tanto ouvir, ficou bom em cantar. Certa vez, numa barraca de praia, durante o intervalo da banda que tocava ao vivo, tirou onda fazendo rap com os amigos. Impressionados, os músicos perguntaram se conseguia fazer aquilo com um instrumental. A palhinha convenceu e o grupo convidou Padêro a entreter o público enquanto não voltava ao palco. Daí para as apresentações covers e, depois, para o RDF, foi um pulo.

Até que, em 2009, ele e Jonas foram convidados por Preto Zezé a integrar uma coletânea de rap sobre o crack. O resultado agradou e, pouco tempo depois, Zezé chamou os dois para participarem de um trabalho da ONG Afroreggae (RJ) em Fortaleza.

"Eles vinham fazer um projeto de combate ao crack, e Zezé sabia que eu e Jonas éramos ex-usuários. Demos a entrevista e Júnior, do Afroreggae, ficou impressionado com minha história. Perguntou se eu não pensava em aprender a ler e escrever, expliquei que não tinha tempo por causa do trabalho, precisava sustentar minha família (à época Padêro já tinha um filho pequeno, hoje com 14 anos)".

Decidido a ajudar, Júnior disse que pagaria um professor para lhe dar aulas em casa, durante as duas horas livres que tinha no dia. "E assim foi, encontrei uma professora, que até hoje mora aqui na comunidade, e estudei por quatro anos para me alfabetizar".

Da boca, as palavras passaram a sair do punho, e o segundo disco do RDF, "Coração vagabundo" (2013) foi feito com letras escritas por Padêro. "Nunca completei os estudos, me acomodei no meu trabalho, mas sempre sonhando com a música. Então foi o rap que me levou a mudar minha realidade, que me deu vontade pra aprender a ler e escrever", resume.

Solo

Assim como o parceiro Jonas, em 2014 Padêro decidiu apostar na carreira solo, embora ainda mantenha excelente relação com o RDF, inclusive participando de shows da banda. Os frutos não demoraram: um ano depois, o rapper foi selecionado para se apresentar na Mostra Petrúcio Maia e aproveitou a oportunidade para realizar o próximo disco.

"Tive ajuda de pessoas da equipe, como Rui Pedro, que mixou o disco pra mim a partir da gravação ao vivo feita na Mostra", explica. "Padêro MC pela paz e pela vida" saiu em 2015 e evidenciou o rapper como artista solo.

Agora, ele já tem outro projeto na agulha: selecionado para o projeto Polifonias, do Instituto Dragão do Mar, em 2016, fez um show com amigos, gravado ao vivo para um DVD. Com 12 músicas e cerca de 45 minutos (incluindo entrevista e participações do RDF, VM na Rima e de colegas como Nego Galo, MC Mau, Erivan Produtos do Morro e Andrezão GDS), "Um novo dia pela paz, pela vida" está pronto, mas faltam recursos para finalizar detalhes como capa e promover o lançamento.

"Em Fortaleza é difícil. Não tem apoio, mesmo com rappers talentosos se multiplicando. A gente vai assim, aproveitando oportunidades, inscrevendo projetos, mas até isso é complicado, porque nas seleções é difícil entrar mais de uma vez, mesmo seu trabalho sendo reconhecido", critica.

A paixão pelo rap, porém, é maior que as dificuldades. "A música me dá uma mixaria, que uso pra investir apenas nela. Sustento minha família (a companheira e uma filha pequena) com meu trabalho de autônomo (um quiosque no Centro). Mas quando vejo jovens se inspirando em mim, nas batalhas de rima, quando vejo o respeito que adquiri, de poder andar em qualquer comunidade, não tem preço. É mais importante que dinheiro".

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