Reportagem Estratégia

A derrota da ousadia de Lampião ao tentar invadir Mossoró

O Memorial da Resistência a céu aberto é o principal equipamento turístico da cidade de Mossoró, que expulsou Lampião
00:00 · 16.06.2018

Mossoró (RN). A mais fragorosa derrota de Virgulino Ferreira da Silva aconteceu nesta cidade do Rio Grande do Norte, em junho de 1927. O Rei do Cangaço foi de encontro ao que sempre apregoou: jamais invadir uma cidade com mais de duas torres (igrejas). O fato denotava a condição da cidade ser grande e também das "torres" serem utilizadas como mirantes. A cidade norte-rio-grandense tinha nada menos do que quatro torres. Duas pertenciam à Igreja de Santa Luzia, uma ao Sagrado Coração de Jesus e a quarta à Igreja de São Vicente. Todas elas viraram cidadelas inexpugnáveis.

Mas Lampião deixou-se levar pela argumentação de um cangaceiro chamado Massilon, que morava em um lugarejo próximo a Mossoró, onde trabalhava como cambeiro, levando e trazendo mercadoria. Por causa da antiga profissão, conhecia bem a cidade. O cangaceiro descreveu o futuro alvo como um local de "povo pacífico, mofina e incapaz de se defender". Além disso, lembrou que a cidade contava com a agência de número 36 do Banco do Brasil, o que era sinal de grande prosperidade à época.

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Seguindo o seu padrão, Lampião escreveu um bilhete endereçado ao prefeito Rodolpho Rodrigues solicitando 400 contos de reis para não atacar a cidade. Ao receber o bilhete de um portador chamado Formiga, o prefeito mostrou uns tambores com mercadoria e disse a ele que estavam cheios de bala, como forma de intimidar o cangaceiro enviado por Lampião.

A situação de Mossoró era temerária. Rodolpho Rodrigues já houvera solicitado ao governo do Estado do Rio Grande do Norte ajuda para combater a Coluna Prestes que, segundo ele, estava na iminência de invadir sua terra. A ajuda veio. A Coluna, não. Quando foi pedir a interferência do Estado para barrar a entrada de Lampião, o governo julgou que tal jamais aconteceria e negou o pedido.

Ciente do perigo e da iminência ao ataque, o prefeito arregimentou comerciantes, lideranças políticas e civis e a população em geral para se cotizar e contribuir na aquisição de armamentos para enfrentar o bando de Lampião. No dia 13 de junho, no fim da tarde, chovia bastante. Virgulino dividiu o grupo em três blocos, permanecendo ele no intermediário.

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A residência do prefeito Rodolpho Fernandes é hoje o Palácio da Resistência, sede da Prefeitura; a Igreja de São Vicente preserva a marca de balas na sua torre, onde homens armados defenderam a Cidade 

 

Disfarce

À frente o cangaceiro Sabino Gomes, vestido de policial. Outra estratégia de Lampião era mandar seus homens se disfarçarem de mendigos, vendedores, policiais etc. E entrar na cidade para sondar o ambiente. Ele se aproximou da residência do prefeito, que desconfiou da artimanha, dizendo que não pediu ajuda à Polícia, e mandou os homens responderem à bala. Sabino Gomes se escondeu perto da ferrovia e, depois, comandou o ataque à casa do prefeito, o Palácio da Resistência, sede atual da Prefeitura, onde se estabeleceu a maior das trincheiras, dentre tantas espalhadas pela cidade. Nesse combate, o cangaceiro Colchete tombou morto.

"Foi uma hora de tiroteio aproximadamente. Após a morte de Colchete e Jararaca ser baleado, os demais cangaceiros bateram em retirada", conta o pesquisador mossoroense Eriberto Monteiro, para quem a resistência podia ter sido derrotada por causa de um vacilo. "Quando soaram os sinos da Capela de São Vicente, esqueceram de fechar a porta. Se os cangaceiros tivessem descoberto esse deslize, creio que a história poderia estar sendo contada de outra maneira".

Artimanhas

José Leite Santana, o Jararaca, saiu baleado e ainda conseguiu escapar pelo mato por algumas horas. Foi capturado, porém, pelas forças policiais. A história do primeiro Jararaca é um capítulo à parte (leia na página 7). Aqui um parêntese para explicar o uso de homônimos no cangaço. Virgulino, longe de ter sido um simples bandido, era idealizador de artimanhas que conseguiam ludibriar seus inimigos. Uma delas era dar o mesmo apelido para vários cangaceiros.

Apelido

Usava o ardil com dois objetivos, segundo o depoimento de alguns pesquisadores. Primeiramente, para homenagear seus homens mais "valorosos" que morriam. Manter o mesmo apelido era uma forma de "ressuscitá-los". Por outro lado, isso desmoralizava a Polícia, os chamados macacos.

É que muitos volantes se gabavam de ter matado tal cangaceiro. Ao tomar conhecimento desse fato, Lampião fazia questão de passar no local e conversar com o "defunto" (substituto), deixando a Polícia no descrédito. Há casos de três pessoas que ostentaram a mesma alcunha.

O homem que ganhou a confiança de Virgulino

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A trajetória do sírio Benjamim Abraão, inclusive a sua morte, é também cheia de mistérios. Ele migrou para o Brasil em 1915, segundo consta, para fugir da convocação obrigatória durante a Primeira Guerra Mundial. Dentre outras atividades, atuou no comércio de tecidos e miudezas. Depois de residir em Recife (PE) por muitos anos, seguiu para Juazeiro do Norte de olho no grande número de romeiros que buscavam a cidade do Cariri cearense.

Sua vida começou a mudar quando conheceu Padre Cícero e passou a ser seu secretário. Em 1926, foi apresentado a Lampião, durante sua passagem pela Cidade, no episódio que ficou conhecido como o da entrega de armas e da patente de capitão ao cangaceiro para que, juntamente com seu bando, enfrentasse a Coluna Prestes. Em 1929, Abrahão fotografou o líder cangaceiro ao lado do Padim. Após a morte do religioso, Abrahão obteve a permissão do "Rei do Cangaço" para acompanhar o bando na Caatinga. Conseguiu captar as imagens que o consagraram e deram fama. À essa altura, já contava com a parceria do cearense Ademar Bezerra de Albuquerque, proprietário da Aba Film que, além de lhe ceder os equipamentos, ensinava como usá-los. Esteve junto aos cangaceiros liderados por Lampião pelo menos em duas ocasiões.

Abrahão teve seus trabalhos confiscados pelo Estado Novo, que via na sua atuação algo "perigoso" para o regime. Guardada pela família de libaneses Elihimas, em Pernambuco, a película foi analisada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), um órgão de censura.

Sua morte foi parecida com a de outras vítimas da luta entre policiais e cangaceiros. Foi esfaqueado quarenta e duas vezes. O crime jamais foi devidamente esclarecido. Não se conhece o autor nem a motivação. Uma das versões é de que foi morto pelo Estado Novo para não levar adiante a história do cangaço. A outra dá conta de que o fotógrafo sírio-libanês foi alvo de um latrocínio. A terceira é que sua morte teria sido um crime passional.

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