Reportagem Solidão

A decisão de amar ou abandonar

Caio José afirma que sua força está no apoio da família. Ele consegue enfrentar a sociedade porque sabe que não está sozinho
00:00 · 23.09.2017

Nessa jornada em busca da liberdade de ser o que se é, o que mais falta é companhia. O processo é individual, mas não deixa de carecer de apoio, afeto e aceitação. No entanto, o que mais se vê é solidão. Quando muitos travestis e pessoas trans iniciam o processo externalizador de sua identidade, o primeiro abandono é o da família.

Há também os crimes. Os dados do Disque 100, canal de denúncia de violações da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), revelam que a cada cinco agressões contra LGBTs, em 2016, uma foi cometida por parentes das vítimas. No ano passado, foram 1.875 denúncias de violações dentro desse universo, sendo 63 no Ceará.

O coordenador do Centro de Referência LGBT Janaina Dutra, Tel Cândido, diz que uma realidade preocupante entre os assistidos pelo equipamento municipal é o de violações de direitos dentro do ambiente familiar. "Tem um número preocupante de violação de direitos dentro da família e, no caso dos trans e travestis, é muito forte. Eles têm os vínculos sociais e familiares praticamente dissolvidos pelo menos no início do processo transexualizador, independente do gênero", pondera.

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A primeira demanda dos profissionais do Centro de Referência é a de escuta. "É uma sensação de solidão. Historicamente, foi construída uma barreira a que essas pessoas não têm acesso", completa Tel. Nesse ciclo vicioso de negações, essas pessoas são empurradas para uma vida à margem. Expulsas de casa, da escola, sem trabalho e invisíveis socialmente, só resta a vulnerabilidade das ruas. Expostos ainda mais à violência e à solidão, devoradores de seres.

Acolhimento

Se hoje o enfermeiro Caio José Batista, 24 anos, consegue se enxergar no espelho foi porque sua transição aconteceu com todo o suporte que precisou. Se faltou o acesso a serviços públicos, sobrou aceitação e apoio da família. Sua história é destoante das demais, principalmente, porque a solidão acabou quando ele teve coragem de se aceitar e revelar para os pais suas questões.

"O começo foi difícil pelo lado da minha mãe. Não é que ela não me aceitava. Ela tinha medo do preconceito. Ela tinha medo de ser renegado pelo meu pai. Não é que ela não me aceitava, ela me amava, sempre me amou... Um dia eu cheguei pra ele e disse: 'pai, sua filha não existe. Eu sou um homem trans'. Eu tinha arrumado minhas malas já se ele me expulsasse. Ele disse assim: 'eu lhe amo de qualquer jeito. Eu já sabia. Eu lhe aceito e aproveite o resto de vida que eu tenho. A partir desse dia, foi um alívio", relembra.

Nem sempre foi assim. Antes, Caio sofreu muito. Aos oito anos, quando descobriu que não era igual ao pai, se sentia uma "aberração". Na universidade descobriu que era um homem trans. Mas não se aceitava. Só no fim do curso, resolveu iniciar sua externalização. Cortou o cabelo num primeiro ato de liberdade. No entanto, se submeteu a ir ao baile de vestido por pedido da mãe. Foi morte e renascimento.

"Eles me apoiam todos os dias da minha vida. Sem eles eu não sou o Caio. Eu não sou filho biológico. Sou filho de coração. Eles poderiam me mandar embora. Mas eles me acolheram duas vezes. Me acolheram quando eu nasci a primeira vez e quando eu nasci a segunda vez. E eles me acolhem todos os dias. Minha mãe todos os dias me lembra que sou especial para ela", conta o rapaz que viu a família transicionar junto com ele.

Violência

O medo de Caio é externo. Em casa ele tem segurança. Fora, temor. Sozinho, seria mais suscetível à violência, como aconteceu com Dandara Kethlen, morta brutalmente no dia 15 de fevereiro por 12 agressores. A travesti de 42 anos tinha o apoio apenas da mãe, Francisca Ferreira, 75 anos. A aposentada não foi suficiente para proteger a filha da transfobia. Hoje, é a mãe que experimenta a solidão.

Primeiro foi a filha travesti Sheila , depois foi Dandara e, em maio, o neto Rodrigo. Todos mortos pela violência. "Tem dia que eu to quase louca, sem comer, sem dormir. To aqui, sentada na minha cama, olhando pro quintal, vendo a Dandara lavando a roupa. Eu olho pra sala e vejo o Rodrigo com celular". Sozinha, Francisca tenta curar dores e saudades enquanto aguarda o fim do julgamento. Sabe que tudo faltou para a filha, menos seu amor.

Tel Cândido, do Centro de Referência, aponta que o caso Dandara colocou em cena pública uma dimensão da violência que é óbvia. Uma expressão revoltante de uma violência que é reproduzida, diariamente, sem que se perceba."Muitas pessoas pensam que Dandara foi morta naquele dia. Dandara estava morta há anos. Ela já não era uma sujeita. Ela não era mais uma vida que se importava. Se fosse, ela teria sido socorrida, não teria sido torturada e morta".

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