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A cidade que tocamos

O artista Thadeu Dias, em exposição apresentada no ano passado, no Estoril, com a colega Flávia Rodrigues Foto: Igor Cavalcante/Divulgação
00:00 · 15.07.2017 por Roberta Souza - Repórter

Como é a Fortaleza que você toca? A questão pegou de surpresa Lara Andrade Lima, 28, que tem deficiência visual desde os primeiros meses de vida e atua como mediadora nos museus do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura. "Iiih... Sabe que agora você fez uma pergunta que não tem resposta?", disse a princípio, mas logo acrescentou: "é uma cidade que eu gosto muito. Pra sair daqui só se for um negócio muito bom. Gosto de saber onde eu tô, e como nasci e me criei aqui, essa é uma cidade em que eu me localizo relativamente bem no espaço".

Um dos lugares que Lara vai com mais frequência é o trabalho. Lá no Dragão do Mar, ela está desde 2011 como membro do Projeto Acesso, que viabiliza ações de acessibilidade para os museus do equipamento. Braile, audiodescrição, desenhos táteis e réplicas são algumas das alternativas que procuram atender a pessoas com deficiência visual, oferecendo-lhes a possibilidade de desfrute de um direito básico, mas nem sempre garantido no meio social.

Pelo toque, os visitantes podem conferir duas exposições no local: "Vaqueiros" (mas fechada há alguns meses para manutenção) e "Miolo de Pote", ambas com referências à história do Ceará e à cultura popular que envolve nosso estado. Enquanto faz o percurso tátil, Lara - que tanto ajudou na adaptação dessas exposições como já realizou diversas visitas com pessoas com deficiência visual -, não deixa de redescobrir a cada instante novos detalhes. "Valha, tem uma fitinha aqui na mão desse boneco? E esse vaso tem tampa?", reconhecia nas peças de barro da "Miolo de Pote"; e "Ai, tenho medo dessa máscara! É muito feia!", a respeito de uma peça da "Vaqueiros".

Mapeando

Ao pensar em outros museus da cidade, ela sente falta desse tipo de interação. "No Museu do Ceará, por exemplo, ainda vou pular aquela cerca para saber como é o Bode Ioiô. Não tem réplica, não tem nada. Tô brincando com o bode porque é uma figura emblemática, todo cearense já deve ter ouvido falar; são algumas coisas que chamam atenção, mas que a gente não tem acesso. A mesma coisa no Mauc, a maioria das obras são extremamente visuais. Então a gente fica meio perdidão", critica a mediadora.

A arte contemporânea, por sua vez, é vista com otimismo por Lara. "Algumas obras são interativas, então, dependendo da exposição você tem a possibilidade de ter o contato com ela. Fui educadora do Salão de Abril 2015, lá no BNB, e tinha uma obra do Narcélio Grud que podia tocar e os cegos faziam fila", lembra. A presença de uma moça surda que dançava ao sentir a vibração do som em uma caixinha de música é uma das lembranças que a mediadora guarda desta ocasião.

Sensibilização

É certo que essas possibilidades táteis, especificamente no campo da cultura, também dizem respeito a uma escolha dos artistas e curadores de exposições. E quanto a isso, Lara é enfática: "Tem uns que são ótimos, mas tem uns que não são ótimos. É complicado", conta.

Márcia Bitu, gerente do Museu da Cultura Cearense e coordenadora do Projeto Acesso, conta que a estética influencia muito as escolhas dos artistas e curadores, comprometendo alguns pontos de acessibilidade. "Esse é nosso maior problema. Já no aspecto financeiro, contamos com um orçamento anual para garantir esses recursos, além das exposições que já vêm com eles, atendendo às exigências previstas pela Lei Rouanet, por exemplo", observa.

O artista visual Thadeu Dias, que até então nunca expôs algo que fosse deliberadamente pensado no toque como meio de fruição, opina sobre a questão. "Vejo que há momentos diferentes para pensamentos e obras que se propõem a contatos e provocações distintos, sendo todos eles válidos", afirma.

A escolha dos materiais que irão compor suas obras, no entanto, é inteiramente ligada ao tato. "Me encanta os resquícios sentados pelas calçadas, acocorados embaixo das árvores ou escorados em muros: madeiras, madeirames, tocos e suas superfícies descascadas e ressequidas. Me encanta os vasilhames, vidros e garrafas cheias de possibilidades. Também me encanta na orla os cordames e cordas, os pedaços flutuantes de navegações", enumera.

A Fortaleza que Thadeu toca é a "das inquietudes, de olhar com os dedos da mão, de pisar com pés descalços e sentir a pele dos lugares". Ele acredita numa associação pessoal entre pés sem calçados e sentimento de lar e intimidade. "Penso que o contato mais íntimo com a cidade se dá nesse abraço, quando deitamos na areia da praia esparramados, quando a gente joga o corpo no mar abraçando-o; penso que também no ato da arte urbana de percorrer um muro, de alisar um lambe durante a colagem, de querer interferir no espaço como quem deseja", exemplifica.

É possível, portanto, tocar uma ou mais "fortalezas", esteja(m) ela(s) recortada(s) em espaços culturais fechados, em ruas e avenidas estreitas e largas, ou na beira do mar que lhe(s) banha.

Tateá-la(s) significa também permitir-se conhecer algo novo, em que texturas, materiais e temperaturas falam, cheiram, soam e são vistos por uma construção permitida diariamente pelo toque.

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 Lara Andrade Lima é mediadora das exposições "Vaqueiros" e "Miolo de Pote", ambas abrigadas nos museus do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Fotos: Fabiane de Paula

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