Reportagem Ilhados: natureza intocável

A chegada: ilhas são inóspitas à vida humana

A dificuldade do acesso requer uma logística que envolve desde a Marinha a pescadores artesanais
00:00 · 22.04.2017 / atualizado às 09:36

Ao terceiro dia, chega-se ao ASPSP. Sair do navio e ir até ao rochedo não é simples. Distribuídos por grupos, o desembarque é feito por uma lancha que segue até um barco pesqueiro como entreposto para se chegar às ilhas. De lá, pega-se um bote para finalmente adentrar nos alojamentos da estação científica, único lugar com sombra em todo o Arquipélago.

À primeira vista, é possível que alguém se decepcione. O lugar é pequeno e chega a ser menor que o navio. Não obstante, todo o conforto do Araguari, são três dias de viagem de ida, de balanços, enjoos para alguns e uma rotina de atividades incomum para civis. Eis o primeiro desafio, não acreditar que muita expectativa leva à decepção e sim que todo o esforço vale a pena.

.Ilhados: natureza intocável
.O lugar: mundo submarino fascina pelo mistério
.A estadia: estação científica é vulnerável a tremores
.A viagem: expedição se inicia com a travessia no mar
.O valor: santuário intocável é mito degradado

Exibicionismo ou não, há momentos que o piloto militar da lancha aumenta a velocidade e, mesmo com os coletes adequadamente presos e cientes dos avisos para proteção de aparelhos eletrônicos em vista dos respingos decorrentes da ação da embarcação no mar, o percurso não deixa de ser sentido com apreensão. O segundo momento, já no barco de apoio, que lentamente desliza nas águas, passa a percepção que toda a pressa anterior foi desnecessária. Aí vem o terceiro momento. O bote chega até o trapiche direcionado à estação científica.

É difícil falar em decepção porque é raro o visitante que não tenha feito o dever de casa e visto na internet como é toda a estrutura montada na ilha. O primeiro sentimento é do exotismo. Não há nada comparável em termos de paisagem. Mais ainda: aquele ponto isolado coloca à prova toda a determinação de se vencer os obstáculos que expulsam ou rejeitam a presença humana. Mesmo com a singeleza e singularidade da formação geográfica, a ausência de vegetação coloca em xeque os valores estéticos do lugar.

Enquanto isso, nas lanchas, também se prioriza o transporte de materiais que serão destinados à manutenção e mais água potável e alimentos para as equipes que permanecerão na ilha pelos três dias. Sem televisão e com uma internet precária, por meio de rádio, a interação pessoal é mais valorizada.

A animação desta expedição, em vista do maior número de gente e que chega a ser incompatível com as instalações da Oceanografia, não traduz a monotonia dos dias e noites daqueles que ficam durante semanas. No entanto, evidencia-se ainda mais o desconforto, quer na hora do "banho de cuia" (feito com um vasilhame cheio de água e uma cuia, ou qualquer vasilha, jogando-se no corpo) pois não há água encanada.

Maior número de pessoas no arquipélago também representa a manifestação de diferentes dons, especialmente o culinário. Os velhos marinheiros não se acanham na pesca do atum e, sobretudo, em servi-lo fritado. A engenheira de pesca Danielle Viana faz incursões na inspirada cozinha japonesa e elabora os sushis com peixe cru.

Ao fim do terceiro dia, o trabalho dos técnicos se apresenta ainda incompleto. Em meio às rochas, há um esforço de Sísifo, herói mitológico grego, mais conhecido por exercer uma atividade rotineira e cansativa. O especialista em sismologia, Flauber Costa, não consegue verificar porque o aparelho se torna incapaz de transmitir os tremores para além dos limites do arquipélago. Ex-membro da Marinha do Brasil, e hoje seguindo uma carreira acadêmica, completou a quarta visita ao local.

Pela necessidade de concluir todo o trabalho, acredita que brevemente retornará à ilha. Também fica pela metade o trabalho desenvolvido pelo técnico da Embratel, Francisco das Chagas. Limitações técnicas farão com que também tenha novo encontro marcado no ASPSP. Brincadeira ou não, há quem diga que são pretextos para marcar nova visita ao lugar.

Patrimônio maior ainda está debaixo da superfície

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O coordenador do Pró-Arquipélago, comandante Marco Carvalho, diz que os elementos já estudados e avaliados dão a dimensão exata da importância do Arquipélago. Geração de dados que poderá ser utilizada em proveito da própria ilha, como em áreas da biologia, engenharia de pesca e até mesmo áreas de geografia e arquitetura também poderão ser aproveitadas e servir de subsídios para a gestão da ilha como um todo e a geração de conhecimento científico também são alguns exemplos citados. A Universidade, de uma forma geral, tem a necessidade de formar seus alunos e a ideia é colocar aqui um grande laboratório a céu aberto e assim está disponibilizando esse ecossistema único para a comunidade científica explorando esse potencial, além formar recursos humanos.

"No caso de São Pedro e São Paulo estamos prestes a completar 20 anos de habitação contínua no Arquipélago e nesse período muitas pesquisas foram desenvolvidas, assim como muita gente foi formada. Nesse processo de formação de pessoal, depara-se com ex-alunos já professores universitários que defenderam suas dissertações de mestrados ou teses de doutorados e até pós-doutorado se utilizado do Arquipélago", afirma o comandante que é capitão-de-corveta.

Carvalho ressalta o aspecto de introduzir a mentalidade marítima de forma mais ativa e incisiva junto à sociedade, uma vez que está gerando dados e conhecimentos relacionados àquela região. "São Pedro e São Paulo está encravada naquela rocha, mas, na verdade, quando estamos no local, não podemos esquecer que a região não se limita àquela região da superfície. Temos, na verdade, uma região extensa no entorno da Estação Científica e a habitabilidade contínua proporciona legitimar uma área de zona econômica exclusiva de 450 mil quilômetros quadrados. É uma área gigantesca e muito há o que pesquisar e descobrir nessas ilhas", observa. Para o comandante, 20 anos é um período relativamente curto e com isso está apenas se iniciando as pesquisas num campo inesgotável para a realização de estudos.

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