Reportagem

60% das terras do Icó-Lima Campos estão ociosas

00:00 · 28.01.2017 por Honório Barbosa - Colaborador

Icó. Implantado na década de 1970, pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), o Perímetro Irrigado Icó-Lima Campos iria gerar trabalho e renda para centenas de famílias, que receberam casas e lotes para exploração agropecuária. Decorridos 40 anos, a realidade difere do projeto inicial. O sonho tornou-se um pesadelo. A maioria dos lotes está ociosa, não há quase produção e o clima é de desânimo. A área vem sendo, ano após ano, descaracterizada, com invasões e venda de lotes, que são divididos, para construção de casas e comércios.

LEIA MAIS

.Irrigantes do Ceará amargam descaso de décadas

.Morada Nova sente decadência da produção

.Entrevista: 'A nossa missão é buscar alternativa'

.Crise do abandono é agravada pela seca

.Vazão reduzida foi decisiva no Tabuleiro de Russas

.Desafio de manter as fruteiras vivas

.Várzea do Boi amarga declínio das atividades

.Curu-Paraipaba luta para manter viva a produção de coco

.Baixo Acaraú sofre colapso por escassez de água

O Açude Orós, o segundo maior do Estado, reabastece o Açude Lima Campos, que transfere água por gravidade para 40% dos lotes, na área anterior ao Rio Salgado. Os outros 60% há 16 anos não são irrigados. Para irrigar a maior parte da área agrícola (60%) é necessária a construção de um canal de transferência de água por gravidade. Os irrigantes esperaram mais de dez anos. Houve muitas promessas e cobranças.

Obra mal feita

No fim de 2014, a obra finalmente saiu do papel, orçada em R$ 15 mi. Mas o projeto foi mal elaborado e executado. Apenas uma chuva, em fevereiro de 2015, destruiu um longo trecho. Até hoje, a obra está parada e há processos administrativos e judiciais, que ainda não foram concluídos. Não se sabe se os recursos investidos serão ressarcidos. "O projeto mostrou-se frágil. Não foi feita drenagem, nem contenção da água pluvial", disse o presidente da Associação do Distrito de Irrigação Icó-Lima Campos, Rui Teixeira.

O canal teria 9Km de extensão e foram feitos somente 3Km, mas 2Km foram destruídos. Os produtores sempre fazem uma comparação em tom interrogativo: "por que os canais construídos nos anos de 1970 ainda estão aí e nunca a chuva destruiu? E aqueles do Eixão das Águas?", indaga Venceslau Batista, 77.

Alguns irrigantes já perderam a esperança. Outros morreram e não viram a obra que um dia poderia levar água para 60% dos lotes. "A esperança não morre, mas está envelhecida", disse Teixeira. Os filhos dos primeiros irrigantes já têm mais de 40 anos e uma minoria acredita que o canal será um dia construído.

Recentemente, o diretor de produção da diretoria regional do Dnocs, no Ceará, Maximiliano Carvalho Mapurunga, visitou o Perímetro Icó-Lima Campos. Viu a obra do canal destruída. "Ele sugeriu a mudança no projeto, em vez de canal aberto, colocação de tubos, que evita evaporação, retirada irregular de água e menor risco de dano", disse Rui Teixeira. "Ficou de obter verba no Ministério da Integração Nacional". A mudança no projeto implica um novo estudo de viabilidade técnica.

Produção ininterrupta

Os perímetros de irrigação foram construídos para que ocorresse produção agrícola ao longo do ano, independentemente de chuvas. Mas não é isso que se verifica no Perímetro de Irrigação Icó-Lima Campos. Quase dois terços da área estão abandonados por falta de água nos canais de distribuição para os lotes. Sem condições de trabalho, muitos agricultores desistiram da lavoura e as áreas estão ociosas. "A reivindicação para a melhoria do Perímetro é antiga. Estamos cansados e os agricultores, massacrados", disse José Santana, do Movimento dos Pequenos Agricultores.

Para os irrigantes, o Dnocs abandonou o Perímetro. Depois de 40 anos, os recursos para manutenção ficaram escassos. Há trechos de canais destruídos, estradas internas precárias, infraestrutura comprometida, oficinas paralisadas, máquinas sucateadas, armazéns e depósitos enormes abandonados.

Quem visita a área de gerência do Perímetro, logo percebe a falta de movimento, quadro de servidores reduzidos, imóveis abandonados. "É uma tristeza, pois, no passado, havia verba, apoio, trabalho, produção e renda", observa o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Icó, Lourival Teixeira.

O canal principal de distribuição de água há mais de uma década só acumula lixo e lama. A falta de assistência técnica é outro problema recorrente nos perímetros. Em Icó, por exemplo, havia cultivados 40 hectares de goiaba, mas veio uma doença e o plantio da fruta foi praticamente eliminado.

Crise hídrica

A irregularidade das chuvas nos últimos cinco anos agravou a situação do Perímetro. Sem irrigação, muitos cultivavam nos lotes cultura de sequeiro (milho, feijão). Outros utilizavam água de poços, que estão secando. "Eu e dois filhos perdemos quatro hectares de plantio de bananeira por falta de água. A situação é muito ruim, triste", disse Venceslau Batista, conhecido por Siqueira. O pouco que sobrou do bananal está se perdendo.

Em outros lotes, o quadro se repete. Livanilson Marinheiro, 47, conta com tristeza que já perdeu um hectare de maracujá, dois hectares de goiaba e um de banana e capim. "Estou tentando salvar 600 pés de banana, mas a água do poço já secou e não sei mais o que fazer", disse.

Ele fez um financiamento por meio do Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf) de R$ 15 mil, na modalidade investimento para implantar moderno sistema de irrigação da cultura de maracujá. "Agora, sem produção, não tenho como pagar esse empréstimo. Estamos sem condições de trabalho por isso muita gente já abandonou os lotes e vive só de aposentadoria", disse Livanilson Marinheiro.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.