Levantamento

Violência escolar atinge alunos no CE

Ao todo, 25 escolas de Fortaleza participaram do levantamento, que teve como público-alvo estudantes do 1º e 2º anos do Ensino Médio da rede pública
01:00 · 01.08.2018 / atualizado às 02:01

Garantir condições ao desenvolvimento das capacidades e conteúdos necessários a vida em sociedade, promover o exercício da cidadania, estimular a inclusão. Nem todos os objetivos primários às instituições básicas de ensino cumprem esses papeis, estando a violência no âmbito escolar como a principal dificuldade nesse processo. Levantamento realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) aponta que, no Ceará, dos cerca de 3.500 estudantes pesquisados, mais da metade sofreram algum tipo de violência na escola.

Ao todo, 25 escolas de Fortaleza participaram do levantamento, que teve como público-alvo estudantes do 1º e 2º anos do Ensino Médio da rede pública, na faixa etária de 13 a 19 anos, ouvidos nos anos 2016 e 2017.

Na Capital, a prática mais comum é a de xingamentos, relatada por 13% dos estudantes. Com a mesma proporção de 6%, brigas e cyberbullying aparecem em segundo lugar, se tratando esta última prática, conforme a pesquisa, de um novo fenômeno nas relações sociais online, mas com proporção e consequências na vida off-line.

O Levantamento destaca, também, as formas de discriminação enfrentadas pelos estudantes, sendo 25% dos casos motivados pelo lugar de residência do aluno, 19% por raça/cor, 18% por religião, 17% por preferência política e 11% por deficiência. O levantamento aponta, ainda, a discriminação de gênero, homofobia e o racismo presente nas escolas como fatores de risco relacionados a vários tipos de violência.

O entorno das escolas também foi identificado como preocupante. Cerca de 90% dos pesquisados nas duas cidades declararam haver violências decorrente de assaltos e roubos, tiroteios, tráfico de drogas, além de brigas e agressão física.

Estresse

Sobre o que fazem na ocorrência do problema, 16% dos estudantes disseram não conversar com ninguém. Neste caso, os principais sentimentos sinalizados são estresse, apontado por 17% dos jovens, e tristeza, por 14% deles.

De acordo com a pesquisa, o estado de infelicidade dos estudantes da Capital vem levando-os a automutilação e à tentativas de suicídio, uma vez não se sentirem escutados pela sociedade quanto a dificuldade no enfrentamento dos seus problemas. O cenário traz impactos, também, no desempenho estudantil. Segundo a professora e socióloga Miriam Abramovay, responsável pela Área de Juventude e Políticas Públicas da Flacso, a violência na escola resulta em dificuldades no aprendizado, abandono e evasão escolar.

"Acaba sendo um problema a relação que esses jovens têm com a escola, assim como a vontade de estarem dentro do espaço escolar", afirma. Durante um mês em que trabalhou com os estudantes cearenses, os relatos mais alarmantes, segundo diz a especialista, estiveram nos casos de automutilação e tentativas de suicídio, muitas vezes relacionados à ataques na internet.

Dados esses, destaca ela, que devem demandar máxima atenção por parte dos educadores. "As escolas em geral não veem esses problemas, têm uma certa negação, porque acreditam não ser importante ou porque não conseguem fazer nada", afirma.

Para promover uma mudança real no cenário de violência no âmbito escolar, destaca Miriam Abramovay, é preciso, antes de tudo, entender que a questão deve ser trabalhada dentro de um projeto político pedagócico, e não como algo a parte. A estratégia, acrescenta ela, passa também pela necessidade das secretarias de educação incluírem políticas de capacitação quanto ao significado da juventude na sociedade atual.

A Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) destacou que seu trabalho busca garantir o direito dos alunos a uma boa escolarização com oportunidades de qualificação profissional, de desenvolvimento de habilidades de pesquisa científica, artístico-culturais e esportivas no intuito agregar não só conhecimento, mas também valores ao projeto de vida dos adolescentes. A Pasta afirmou ainda promover, por meio de nove iniciativas, o "desenvolvimento de competências socioemocionais com o objetivo de desenvolver habilidades de convívio, autoestima, pensamento crítico, entre outras", finaliza.

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