Rajadas mais fortes

Vento compromete atividade da pesca

Diante desta situação, os trabalhadores se arriscam para garantir o sustento das suas famílias

01:00 · 14.09.2018
JANGADAS
Alguns pescadores estão evitando o mar diante dos riscos de acidentes ( Foto: JL Rosa )

Reunidos ao redor de uma mesa, jogam baralho, conversam e riem. Quem vê de longe até pode achar que eles estão de folga, mas basta direcionar os olhos para o mar e ver que as embarcações estão ancoradas porque os pescadores não podem trabalhar devido aos fortes ventos que atingem a costa.

Nos meses de agosto e setembro, o litoral cearense pode apresentar rajadas superiores a 50 Km/h, segundo as informações da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). A instituição acrescenta que em agosto a ventania é ainda mais intensa.

Embora a condição meteorológica aconteça com uma maior frequência na região litorânea do Estado do Ceará, municípios do Interior como Itapipoca (parte dele é litoral) e Morada Nova registraram um pico de 59,04 Km/h e 55,44 Km/h, respectivamente.

Desde os 12 anos atuando na pesca artesanal, José Ferreira, 56, afirma que, atualmente, a família é quem o está ajudando no pagamento das contas agora, quando ele não está exercendo o ofício ensinado pelo pai. Ele relata que o período compreendido entre junho e setembro é considerado o mais precário na pescaria. Por estar inativo, ele, que é pai de três filhos, enfrenta um dilema quanto à jangada, fonte de renda da família. "Se deixar no mar, dá lodo e busana (molusco que ataca a madeira); se deixar fora, o sol lasca tudo".

Risco

Aos 55 anos, José Adálio Batista diz que, para levar o sustento da família, se arrisca na pescaria, mesmo sabendo da adversidade das condições temporais. "Todo mundo tem dificuldade. Você vai e não sabe se volta. Muitas embarcações ficam paradas por causa da ventania. Por isso, aqui acolá, tem acidente no mar, principalmente em agosto", declara.

Orgulhoso de exercer a atividade que aprendeu quando mais novo, afirma que muitos outros pescadores enveredam mar adentro para que não lhes falte comida na mesa. "É difícil. Mesmo com a ventania, alguns deles também arriscam a vida para trazer o sustento da família. Nós vamos com medo de a jangada virar. O jeito é se apegar com a fé, principalmente os que têm despesas com aluguel, escola dos filhos", assegura.

Acidente

Na última quarta-feira (12), uma jangada com quatro pescadores naufragou. Os quatro pescadores saíram da Praia do Arpoador, no bairro Pirambu. A Capitania dos Portos do Ceará (CPCE) afirmou que o resgate foi realizado por uma embarcação de apoio da plataforma da Petrobras, que seguiu para a base de Paracuru. O capitão dos portos do Ceará, Madson Cardoso Santana, confirmou que vai apurar a situação com a Colônia dos Pescadores de Fortaleza (Copefor) e que também será instaurado um inquérito administrativo, que tem até 90 dias para ser concluído.

Capacitação

A CPCE informou, por meio de nota, que, para evitar situações parecidas com os pescadores, a instituição ministra um curso de formação de aquaviários. São abordadas as disciplinas de Técnicas de Sobrevivência Pessoal; Condução e Operação de Embarcação de Pesca; Atividade de Pesca; Segurança em Operações de Embarcações de Pesca; Conhecimentos Elementares de Primeiros Socorros; Sistema de Propulsão a Motor Diesel; e Prevenção e Combate a Incêndio.

No total, os pescadores assistem 15 dias de aulas em período integral e, no fim do processo, adquirem a Carteira de Inscrição e Registro (CIR), caso atinjam, no mínimo, a média seis. A Divisão de Ensino e Habilitação da CPCE informou que 29 alunos se formaram na última turma. Destes, 48% eram analfabetos. Na ocasião, foi aplicada uma metodologia diferente dos demais, que faziam prova escrita. (Colaborou Itallo Rocha)

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