Capital de contrastes

Várias 'Fortalezas' convivem de norte a sul

Meireles e Pedras são exemplos dessa discrepância entre bairros mais assistidos e periféricos da Capital

01:00 · 15.09.2018 / atualizado às 11:29 por Theyse Viana/Cadu Freitas - Repórteres
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BEIRA MAR
Enquanto o bairro Pedras não dispõe de Conselho tutelar, Centro de Referência em Assistência Social e escolas estaduais, o Meireles oferece inúmeros serviços aos seus moradores ( Fotos: josé leomar/Natinho Rodrigues )

Do norte ao sul da cidade, são muitas as Fortalezas em uma só. Se em alguns bairros o mar cabe na janela, em outros a maresia nem chega - assim como saúde, educação, lazer e assistência social. Enquanto o Meireles, bairro com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, conta com escolas estaduais e municipais, equipamentos de saúde e areninha; Pedras, bairro-limite ao sul de Fortaleza, segue com pouca assistência e menor acesso aos serviços básicos.

Possíveis de serem contadas com os dedos de uma mão, cinco escolas municipais são as únicas registradas pela Prefeitura de Fortaleza no bairro limítrofe a outros dois municípios da Região Metropolitana (Eusébio e Itaitinga). Embora essa seja a quantidade oficial, a comunidade só conhece uma instituição de ensino, sediada nas proximidades da praça do bairro: a Escola Municipal Tristão de Alencar, cujo foco é do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

Quem quiser continuar estudando após o 5º ano, por exemplo, e não dispuser de renda suficiente para pagar uma escola particular, precisa esperar na mesma praça da Rua Raimundo Matias. Lá, pouco antes dos horários de início das aulas, um ônibus busca os estudantes que rumam a instituições presentes em outras sedes, como o Eusébio. No Ancuri, não é viável a matrícula, como eles mesmos explicam. "Lá a escola é até boa, mas não podemos estudar porque é de outra facção", relatou uma estudante que preferiu não se identificar.

Embora a insegurança permeie o imaginário e a realidade dos moradores da região, a falta de assistência é reiterada em um número. Zero conselho tutelar, zero Centro de Referência em Assistência Social (Cras), zero escola estadual, zero espaço de lazer. Enquanto a nulidade se estende, homens e mulheres precisam ir a outros locais até para se divertir - como o garçom Davi Firmino, 19, e os amigos, que precisam ir a Itaitinga semanalmente para ter "uma diversão melhor".

"Aqui não tem lazer de nada, está tudo deteriorado e o pessoal mesmo da comunidade deteriora. A única coisa que tem é o restinho da quadra da praça, por isso tenho que sair. Tem um campozinho que nós batemos um rachazinho melhor, só que é do outro lado", narra o jovem.

No Meireles, porém, o lazer é garantido - e não só na Areninha e nas quatro praças localizadas no bairro, como também no calçadão da Avenida Beira-Mar, onde a moradora autônoma Elisabeth Cogo, 57, caminha diariamente. "Eu venho caminhar todos os dias. O que me irrita é a 'pedição', muita gente pedindo. E a insegurança. Fortaleza tem muita desigualdade, muito morador de rua", observa.

INFO

Saúde

Além da social, outra "péssima experiência" que a autônoma descreve foi a única vez em que precisou de um dos dois equipamentos de saúde públicos instalados no bairro, de acordo com a Prefeitura da Capital. "Eu marquei o procedimento no postinho e, quando cheguei lá, não consegui atendimento".

Já em Pedras, o número de equipamentos de saúde registrados no Fortaleza em Mapas, sistema da gestão municipal, é zero. Apesar disso, o Posto de Saúde José Barros de Alencar, cujo serviço básico também diverge opiniões, atende à área do bairro. Para Davi, o espaço serve para pequenas causas, servindo, diversas vezes, para o encaminhamento a hospitais de grande porte. Para a vendedora Jozy Sousa, porém, há qualidade da unidade de saúde. "Eu não tenho como questionar, dizer de maneira nenhuma que é ruim. A gente olhando pelos outros bairros vê que falta médico. É fila de pessoas dormindo de madrugada e aqui não tem disso", afirma.

Entretanto, os elogios não se repetem quando o assunto é educação. Há três anos, a vendedora tenta montar uma creche, em parceria com a Prefeitura, a fim de minimizar o déficit de crianças do bairro que necessitam de acesso. A ideia, porém, esbarra em outro problema: a geopolítica de Pedras, cuja distribuição territorial é disputada por Fortaleza, Eusébio e Itaitinga.

"No momento em que eu entro com os papéis, por aqui ter esse problema, não pode funcionar. Como é que o prefeito vai entrar em um negócio onde o município não é dele?", ressalta, lembrando que o espaço voltado à educação infantil do bairro é um convênio entre o poder público e uma associação.

Quanto às necessidades de saúde, a Regional VI informou que os equipamentos são implantados a partir de critérios técnicos, tendo como base a territorialização e os planos regionais e municipais de saúde. "O bairro Pedras possui um posto de saúde chamado José Barros de Alencar. A unidade de saúde realiza atendimento para uma população estimada em 24.500 mil pessoas de Pedras e bairros vizinhos", diz o órgão. Uma nova unidade de saúde está prevista na localidade da Alameda das Palmeiras.

No quesito educação, atualmente, 1.396 crianças estão matriculadas em seis unidades educacionais. Em 2017, a Prefeitura de Fortaleza entregou os Centros de Educação Infantil (CEI) Professora Luiza de Teodoro Vieira e Professor José Teodoro Soares. Quanto a questões de lazer e esporte, o órgão declarou que segue urbanizando e requalificando campos de futebol em bairros com alto índice de vulnerabilidade social e baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), além de fortalecer os serviços ofertados por meios das Areninhas na Capital.

Desigualdades

O coordenador da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Francisco José Tabosa, contabiliza como "inúmeros" os fatores que ainda reforçam as desigualdades entre os bairros de Fortaleza. "O principal é a renda. A falta de acesso à educação, serviços de saúde, habitação, infraestrutura e saneamento básico refletem no desemprego, perpetuando esses desníveis sociais e econômicos", avalia, salientando ainda que é necessário considerar diversas variáveis para entender a complexidade do cenário.

"O fato de um bairro como o Meireles, por exemplo, possuir poucos ou não ter equipamentos públicos não é a mesma coisa de Pedras não ter. Quando um bairro de IDH mais baixo tem mais escolas e serviços de saúde, é uma forma de suprir a baixa renda. Locais de IDH alto têm pouco acesso a esses serviços públicos porque o padrão de vida permite acesso aos privados", reflete Francisco José Tabosa.

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