Além da Copa

Sonho de jogar futebol transpõe o tempo e as quatro linhas

Nas ruas e campinhos da cidade, o imaginário infantil constrói craques todos os dias - e não só a cada quatro anos

Bola e pés seguem juntos, coreografando a dança que embala, desde cedo, os sonhos e projetos de gentes miúdas e grandes em todo o País ( FOTO: FABIANE DE PAULA )
01:00 · 16.06.2018 por Theyse Viana - Repórter

A bola e os pés não param, e parecem separáveis só quando ela vai ao gol - à trave enorme de uma Areninha ou simplesmente ao vão improvisado entre um par de chinelos. Mesmo sob o sol escaldante de quase meio-dia, quando o juízo derrete, as bochechas enrubescem, o suor escorre pela testa, pelos braços, ensopa a camisa; bola e pés seguem juntos, coreografando a dança que embala, desde cedo, os sonhos e projetos de gentes miúdas e grandes em todo o País. Nas ruas, praças, vilas, campinhos e areninhas da Capital, o sonho de ser jogador de futebol transpõe as quatro linhas, e o imaginário infantil constrói craques todos os dias, muito além da Copa.

Ronaldo, por exemplo, com esse nome, já nasceu predestinado. Quase foi Romário, é verdade, mas o "nome feio" não agradou à mãe. "Arthur, ela queria, aí meu pai disse esse nome", declara o menino de 11 anos, com a justificativa saltando da ponta da língua junto à certeza de que quer dar continuidade à história do grande nome no futebol que o batiza.

"Ser jogador é difícil, mas a gente treina pra tentar pelo menos fazer um teste. Eu sonho em jogar no Flamengo contra o Palmeiras, com o estádio lotado e a torcida gritando 'Ronal-dô-ôôô...'", sorri, com as travas da chuteira fincadas no Campo do América, no Meireles, onde nasceu e hoje treina como meia ou ponta-direita. "Quando chega a hora de jogar, eu não como muito, me preparo bem direitim. Aí eu chego aqui e dá logo um frio na barriga, sabe? Toda vida!", relembra o fã do xará português, Cristiano Ronaldo, e do carioca Lucas Paquetá, atual volante do Flamengo - time que faz aparecer, a muito custo, um sorriso no rosto do tímido menino Juan Soares, outro morador do Campo, que apesar dos breves 13 anos de vida, já assume um tom de analista ao falar sobre os próprios gostos.

"Eu sou muito fã do Neymar, me inspiro muito. Gosto do jeito dele, do jogo, da forma de driblar os adversários. Apesar de sonhar em jogar no Flamengo, meu sonho é jogar ao lado do Neymar, um dia", projeta Juan, criticando a "implicância" geral com o ídolo.

"Todo mundo fala 'ah, a seleção não tem só Neymar', mas é ele que faz a diferença. Ele que vai pra cima, dá os passes, arma as jogadas. Quando ele foi contundido, na Copa passada, eu sabia que tinha acabado ali. Dizem que foi comprada, né? Mas ninguém compra o futebol", defende, com tom de voz adulto e crença forte de criança.

Choro

Como quase todo amor que se leva muito a sério, o futebol-futuro-ofício, além das alegrias, já fez chorar: como quando Juan assistia a Brasil x Alemanha com a bola no pé, revezando o olhar entre o racha com os amigos e a televisão na calçada, e se iniciou a sequência torturante de gols do oponente, em 2014. "Quando o time começou a levar um monte de gol, desceu a lágrima. Mas esse ano vai dar certo", garante o garoto, que treina segunda, quarta e sexta-feira - mas às vezes terça, quinta, sábado, domingo também...-, pela manhã e à tarde. Não sem antes ver vídeos na internet com jogadas dos craques, "para se inspirar".

Já o pequeno Sávio, 9, nem precisa sair do próprio bairro para buscar inspiração - aponta mesmo para Juan, vizinho de rua e amigo de areninha, quando questionado sobre em quem se espelha para realizar o precoce sonho de ser jogador.

Persistir

Se para os meninos, de um lado, o sonho é natural - "toda criança tem esse sonho", reconhece a avó de Juan, Maria Estela, 58 -; para as meninas, do outro, é barreira. Enquanto Carlos Daniel, 11, já pensa em quando a torcida vai gritar o nome dele no estádio; no mesmo bairro, o Pirambu, Maria Rafaela, 13, precisa driblar mesmo é o preconceito antes de poder bater bola.

"Os vizinhos ficam falando que eu sou macho-fêmea, que isso é coisa de menino... Mas os meninos mesmo que eu jogo me respeitam", diz baixinho, com uma timidez cujas barreiras só deixam as palavras saírem soltas quando o assunto é jogar no time do Fortaleza. O plano, porém, só se apoia numa esperança de mudança, já que, atualmente, o clube não tem sequer uma escolinha voltada para as meninas.

Contudo, se depender da mãe, a dona de casa Silvani Pereira, 41, a discriminação e os obstáculos para a menina se tornar jogadora em um País ainda tão machista nessa esfera não devem vencer a partida contra o amor da filha pelo esporte. "Se o sonho dela é ser jogadora, eu respeito e dou o apoio que ela precisar. Eu acredito".

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