Responsabilidade municipal

Somente 45,5% das obras serão entregues até a Copa do Mundo

00:00 · 21.01.2014

Ministério Público Estadual marca reunião com os órgãos envolvidos para exigir cronograma atualizado

O VLT, do governo do Estado, contabiliza apenas 43% das obras prontos FOTO: Alex Costa

A Prefeitura de Fortaleza, via Secretaria de Infraestrutura (Sefin), refez os cálculos e confirma o que grande parte da população da Capital já desconfiava: apenas quatro das nove obras de responsabilidade municipal para a Copa do Mundo serão entregues até o torneio. São elas: Rotatória do Castelão, Bus Rapid Transit (BRTs) das avenidas Paulino Rocha e Alberto Craveiro e o túnel da Avenida Santos Dumont sob a Via Expressa.

Os outros, que estavam na Matriz da Responsabilidade, como os túneis das avenidas Padre Antônio Tomás e da Alberto Sá sob a Via Expressa; o Bus Rapid Transit (BRT) da Avenida Dedé Brasil; túnel longitudinal sob a Via Expressa (entre as Avenidas Santos Dumont e Padre Antônio Tomaz) e o viaduto da Raul Barbosa com Murillo Borges ficarão para depois do Mundial.

Outra obra, também prevista da Matriz da Copa 2014, do governo do Estado, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Mucuripe/Parangaba também corre o risco de não ser 100% concluído. A obra está com apenas 43% prontos e ainda enfrenta problemas com as desapropriações.

Por esta razão, o titular da 7ª Promotoria de Justiça Cível, do Ministério Público Estadual (MPE), Marcelo Yuri Moreira, marcou reunião com todos os órgãos públicos e empresas privadas envolvidos com as obras de mobilidade urbana. O encontro será amanhã (22) na sede das Promotorias Cíveis, a partir das 9h30.

O promotor quer saber o estágio de cada obra e vai pedir um cronograma final ajustado. Ele também informa que deverá ser firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) como forma de compromisso para o término das intervenções prometidas. "Se é preciso contratar pessoal, que se contrate, se for necessário ampliar a carga horária, que se faça isso. É imprescindível estabelecer metas, minimizar impactos e cumprir os prazos", afirma.

Desapropriações

Para ele, as desapropriações são os principais entraves para o andamento dos trabalhos. Por isso, ele adianta que o MPE se colocará à disposição para intermediar os acordos para as desapropriações. "É preciso ter consenso e preço justo", frisa.

O titular da Sefin, Samuel Dias, reconhece o tempo perdido e afirma que, de fato, as obras começaram em janeiro do ano passado. "Todas estão com recursos garantidos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e não correm nenhum risco de não serem finalizadas". No entanto, aponta, para a Copa, somente as quatro já citadas.

Segundo ele, mesmo com 270 pontos que sofrem intervenções, entre os programas de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor) e de Drenagem Urbana de Fortaleza (Drenurb) e obras para o Mundial, a cidade estará pronta para receber os visitantes na questão mobilidade urbana com conforto, segurança e fluidez. Nos locais onde existem obras que não serão concluídas, a Prefeitura terá plano B. Por exemplo, com relação às intervenções da Padre Antônio Tomás, a Prefeitura está alargando a via e vai bloquear o meio, com tapumes, onde os trabalhos começaram. A interrupção da via no cruzamento com a Via Expressa só ocorrerá após o Mundial.

Fluidez

Na Avenida Raul Barbosa com Murilo Borges, no local onde haverá um viaduto, a ideia é limpar os entulhos com a derrubada dos imóveis desapropriados, e fazer uma alça. "Quem vem pela Murilo Borges e quer entrar à direita na Raul Barbosa, em direção à praia, não precisa ficar parado no semáforo. Na prática, isso já está ocorrendo com muitos motoristas cortando caminho. Acredito que vai melhorar um pouco o trânsito da área", aposta o secretário.

Segundo ele, 196 imóveis serão desapropriados. "Houve mudanças no projeto inicial", diz. Mesmo assim, as obras só começam, de fato, depois que o viaduto da Antônio Sales com Engenheiro Santana Júnior e as intervenções da Santos Dumont estiverem concluídas. "O objetivo é evitar que todas as obras de mobilidade urbana aconteçam de forma simultânea, trazendo mais complicações ao trânsito da cidade", explica Dias.

As obras de competência da União também estão atrasadas. O Aeroporto de Fortaleza é caso típico dessa preocupação. De acordo com a Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República, restará colocar em prática o plano B, ainda em estudo, que é erguer um terminal provisório, chamado pela Infraero de MOP (Módulo Operacional), estrutura pré-fabricada, com forro de lona e climatizado, para dar conta da demanda.

Já o Porto do Mucuripe está com 84% das intervenções finalizadas e deverá ser entregue no prazo, até o início de junho.
 

Enquete

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"Se a cidade não tinha condições de ter tantas obras ao mesmo tempo, qual a razão dos bloqueios e desvios que complicam ainda mais o trânsito e dá margem para os bandidos agirem de forma livre em várias partes?"
Iza Soares
Vendedora

"Desconfiava que essas obras todas não ficariam prontas. Fico pensando na vergonha de receber tantos turistas e eles passarem pelas mesmas coisas que a gente vem passando, inclusive os roubos e congestionamentos"
Eduardo Santos da Silva
Motorista

"Está difícil para quem anda de ônibus, como eu, para quem anda de carro e até de moto. Não acredito que as obras que estão aí ficarão prontas para a Copa e penso na vergonha com imagens da Cidade para o mundo"
Genilson Sousa dos Reis
Auxiliar de ferreiro

População reclama dos prejuízos e transtornos

Obras incomodam, mas são necessárias para a Cidade. É assim que entendem os moradores de imóveis localizados na Avenida Padre Antônio Tomás, às proximidades da Via Expressa. No entanto, eles reclamam não só dos prejuízos materiais provocados pelas intervenções, como também dos danos na qualidade de vida, principalmente dos mais idosos. Um exemplo disso, acontece em prédio residencial na Rua Fonseca Lobo, 1191.

Lá, as obras de alargamento da Padre Antônio Tomás para a abertura do túnel sob a Via Expressa deixaram um rastro de destruição no patrimônio dos condôminos, além de afetar o cotidiano dos mesmos.

A estilista Cynara Macedo conta que os trabalhos acontecem durante a noite e que ninguém mais consegue dormir direito no prédio. "O barulho das máquinas e dos operários é intenso e isso perdura noite adentro. Minha mãe passou por cirurgia recentemente e não consegue nem descansar direito", relata.

Ela chegou a filmar com celular os operários trabalhando depois das 23h.

"O pior é que ninguém nos informou sobre a obra e muito menos que iria ser no terceiro turno. Nem sei o que eles pretendem fazer nesse pedaço", frisa.

Proteção

Cynara aponta o muro, todo rachado e sem a proteção da rede de segurança. "Eles retiraram tudo e ficamos à mercê de quem quiser entrar no prédio pelo muro. Carros foram atingidos por restos de entulho, assim como os janelas do primeiro andar, sem falar nos prejuízos à saúde".

Outro morador das imediações, José Humberto Maciel reclama dos constantes assaltos no local. "Todo mundo sabe disso e com as obras e congestionamentos diários, os bandidos se sentem à vontade. O medo de quem mora ou passa por aqui é grande", diz.

A professora Adriana do Nascimento é outra que também reclama de transtornos. "Minha filha tem renite e a poeira dessas obras contribui para suas constantes crises. Tem gente aqui que está com tosse seca. O pior é que, pelo visto, o trabalho vai continuar sem prazo para acabar. Mais preocupação para a gente", lamenta.


Lêda Gonçalves
REPÓRTER

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