Uma praça, um lar

Sem moradia e nenhum direito básico, população de rua resiste

Ao poder público, faltam recursos suficientes para colocar políticas de assistência básica em prática

00:00 · 15.04.2017 / atualizado às 22:35 · 17.04.2017

Ao som das seis badaladas matinais do altivo relógio da Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza, os olhos vívidos de Marta Dias iluminam-se. Para se desvencilhar da conchinha do companheiro Alexandre, que conheceu ali mesmo, há oito meses, conta com a luz que invade a morada sem janelas. Cutuca o namorado, dá bom dia à vizinhança e levanta para arrumar o quarto que só existe à noite, montado com papelões e lençóis à porta de um ponto comercial do logradouro. O café é só uma ideia, nada concreta. E o ciclo se repete há quatro anos, desde que Marta fez da calçada residência.

Leia mais

.Políticas existem, mas recursos são insuficientes

Direitos a saúde, educação, moradia, segurança, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda, listados pelo artigo 7º da Política Nacional para a População em Situação de Rua, instituída pelo Governo Federal, em 2009, soam como realidade inimaginável à Marta e às outras 1.718 pessoas que dormem e acordam nas ruas e praças de Fortaleza, diariamente. O dado é do Censo Municipal sobre População em Situação de Rua, realizado em 2015, pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (SDS). A precisão do número, porém, dissolve-se na desatualização.

"O Brasil não conta com dados oficiais atuais sobre a população em situação de rua", informa a Estimativa da População em Situação de Rua no País, divulgada em outubro de 2016, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O estudo alerta para a invisibilidade dos 101.854 brasileiros que viviam sem moradia até 2015, não contabilizados pelo Governo Federal. A falta de cama e mesa, entretanto, não impede o despertar.

Rua, lar

"Eu sou considerada aqui por todos. Vou nos restaurantes, ganho sacolonas de comida e trago pros irmãozinhos. Sou a mamãe Ferreira", declara a voz rouca carregada de érres paulistas, que lembra com orgulho dos tempos em que ajudava moradores de rua na terra natal. Hoje, a vida de Marta Maria é um jogo virado. Em Fortaleza há sete dos seus 55 anos, é a personalidade forte que mantém a administradora por formação em situação de rua. "Minha filha vive em Maracanaú (Região Metropolitana de Fortaleza) e chora todos os dias pra eu ir morar com ela. Mas não aguentei ver meu genro gritar com a minha princesa, explodi. Preferi não incomodar, sabe?", relata, sob o olhar atento de Sulamita Alves, vizinha de parede há poucos dias - e moradora de rua há tantos dos seus 48 anos que nem consegue contar.

Após receber um golpe na cabeça como bom dia, Sulamita, já acolhida pela "mamãe Ferreira", mudou-se das ruas do bairro Parangaba à Praça e se somou às cerca de 180 pessoas concentradas lá, segundo a Polícia Militar do Ceará (PM-CE). Sem documentos nem família que se considere, a carroceira de Itapipoca, a 130km de Fortaleza, vaga pelas ruas da Capital desde a infância em busca preencher "o saco vazio, que não para em pé". Comendo do lixo que resulta dos pratos de quem já se fartou ao sopão noturno servido por voluntários na Praça, ela foi pega pela diarreia - de tão invisível, não buscou atendimento médico nem consta entre os 8.465 fortalezenses acometidos pela doença neste ano, dado da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa).

"As pessoas tampam o nariz quando a gente passa. Mas o que mais me machuca mesmo é pedir uma ajuda e me mandarem ir embora", engasga-se, sem saber distinguir com qual frieza é mais difícil de lidar, se a das pessoas ou a da madrugada de chuva ao relento. A esperança de sair da situação de rua só descongela e escorre pelos olhos ao falar dos seis filhos, que sobreviveram entre os vários mortos em contas perdidas. "Meu sonho é fazer as pazes com eles, que me vejam como ser humano. Eu fiz eles foi com amor", conta, com a dicção alterada pela falta de um dos dentes frontais, arrancado pela violência do ex-companheiro.

A quebra de vínculos familiares e a falta de renda são apenas dois dos fatores que mais levam Martas e Sulamitas à incerteza das ruas. Outro motivo frequente, como aponta o cientista social Rodrigo Patrocínio, é o vício em álcool e drogas - armadilha bem conhecida pelo reciclador Tárcio Brasil, nômade das ruas há mais de uma década. Na porta do "quarto", ao lado do Cineteatro São Luiz, as idas e vindas do vício no crack e na cocaína engancham-se em arrependimento. "A pior situação de uma pessoa é viver na rua e ainda se drogar, não resistir" E emenda, com humildade em forma de diminutivos: "Não quero crescer demais não. Quero só uma casinha, meu Foxzim preto, uma mulher e um filhim. É meu sonho ter meu meninozim", sorri, como raramente, o corintiano fanático. A casa, descreve, nem precisa ser de azulejo, como a dos irmãos "que não querem saber" dele.

Assistência

As vidas de quem tem a Praça do Ferreira como morada são constantemente cruzadas por pessoas como a pensionista Zilma Vieira, 67, e o vizinho, o metalúrgico Gilberto dos Santos, 52. Toda terça, o jantar e o abraço das pessoas em situação de rua são garantidos por eles. "Se for para ajudar, eu faço qualquer coisa. Às vezes 'tô' lá em casa quebrado, e quando chego aqui, me sinto renovado", conta Gilberto, ao que dona Zilma completa: "Vejo neles a minha filha, que caiu nas drogas e sumiu há quatro anos. Espero que alguém faça por ela o que eu estou fazendo aqui", emociona-se.

Outras ações de igrejas e voluntários são frequentes no Centro. Os trabalhos são válvula de escape para Ivanilda de Oliveira, 28, conseguir o sustento mínimo para Nicole, de oito meses, que vive com ela num prédio ocupado no Centro. "Comida... Quando aparece, a gente come. Quando não, fazer o que? Antes eu passar fome do que minha filha".

Entrevista com Rodrigo Patrocínio - Cientista social pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

Apoio de empresas privadas é fundamental

Image-0-Artigo-2228737-1

Por que esse fenômeno social ainda é tão presente?

Cada morador de rua tem uma história antes de ir parar onde está. O que mais se percebe é que as drogas, principalmente o crack e a cocaína, agravam a situação, influencia a quebra de vínculos, resultando na saída de casa. Muitas dessas pessoas acabam se sentindo mais confortáveis em morar na rua. Além disso, existe gente que saiu da cidade natal buscando uma melhoria de vida em Fortaleza, e se frustrou.

Quanto às crianças, quais os maiores impactos?

Elas precisam de cuidados especiais, mas não possuem o mínimo e sofrem prejuízos óbvios quanto à educação e à qualidade de vida. Outro fator são os constantes riscos aos quais são expostas nas ruas, ficando, muitas vezes, à mercê da violência.

Quais as soluções possíveis?

Além de colocar as políticas públicas em prática, é necessária uma conscientização de instituições privadas, tanto para fornecer auxílio aos governos como para oferecer oportunidades de emprego. Muitas histórias de quem está na rua passam por dificuldades de conseguir uma renda. Saúde, educação e capacitação profissional são imprescindíveis.

(Colaborou Theyse Viana)

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.