MUDANÇAS

Requalificação da Av. Beira-Mar deve afetar 337 árvores

A Avenida Beira-Mar possui 1.159 árvores, das quais 114 serão removidas e 223 transplantadas

O levantamento está no mesmo documento que garante o plantio de outras 1.218 novas árvores aumentando de 36 espécies para 42 ( Foto: Thiago Gadelha )
01:00 · 16.05.2018 por Márcio Dornelles - Repórter

A Avenida Beira-Mar, enraizada na memória afetiva dos cearenses e de seus visitantes, passará por profundas transformações a partir de junho desde ano, quando é iniciado o prazo de 18 meses definido pela Prefeitura de Fortaleza como suficiente para a chamada requalificação. Detalhes dos trabalhos foram divulgados na semana passada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), nos documentos referentes ao processo de licitação. Entre as mudanças, surgem questionamentos, especialmente sobre a arborização presente no calçadão. Pelo menos 337 árvores serão afetadas.

O portal de compras da Prefeitura liberou nove arquivos com o planejamento para a execução das obras, com números desejados e orientações aos responsáveis. O terceiro documento, chamado "Memorial Descritivo do Projeto de Arborização e Paisagismo", traça, ao longo de 20 páginas, o perfil da arborização da orla fortalezense. Segundo a Seinf, a Avenida Beira-Mar possui 1.159 árvores, das quais 114 serão removidas e 223 transplantadas. Juntas, representam 29%, quase um terço do total.

O levantamento está no mesmo documento que garante, no capítulo introdutório, o plantio de outras 1.218 novas árvores, aumentando de 36 espécies para 42. "Além do incremento da arborização, está previsto o plantio de 4.134 arbustos e implantação de 22.000 metros quadrados de gramados", complementa o arquivo. As árvores mais comuns no inventário são coqueiros (503) e castanholas (407).

Críticas

Todavia, o projeto carece de detalhes e apresenta falhas. A afirmação é do professor de silvicultura da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília, Lamartine Soares Cardoso de Oliveira. Um dos pontos listados como equivocados pelo especialista é o tempo definido no item sobre manutenção e recomendações técnicas do memorial, que prevê "a conservação da área verde por seis meses após a conclusão das obras".

O tempo é considerado curto demais para garantir a sobrevivência, por exemplo, de uma espécie transplantada ou de uma muda recém instalada no solo. "A nossa legislação diz, por exemplo, que ao suprimir uma árvore e feita uma compensação, a gente tem que garantir o plantio da muda, seu acompanhamento e sua sobrevivência, durante dois anos, que é o básico para mantê-la viva. A gente vai suprimir uma árvore com mais de 10 anos e só vai plantar e garantir seis meses de sobrevivência?", questiona.

Inventário

Lamartine também critica o inventário das árvores presente no documento da Seinf, que não apresenta especificidades das espécies. "Memorial extremamente falho. Um inventário que se preze é importantíssimo ter o nome vulgar da espécie e o nome científico por completo. Só existe nome científico ali para identificar de forma correta as espécies que serão adquiridas para plantio", diz. Outro ponto trata da ausência do georreferenciamento, quando cada unidade tratada possui a localização exata no globo terrestre.

Ao chamar o documento de "superficial", o professor afirma que há forte risco de prejuízo ambiental. "Por remoção inadequada de árvores, e morte posteriormente, supressão com justificativa falha, e plantio de árvores e arbustos, que não são nativos, alguns são até mesmo potencialmente invasores", acrescenta.

Procuradas pela reportagem, as secretarias de Infraestrutura (Seinf) e de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) informaram que mais informações sobre o projeto apenas serão divulgados posteriormente, em coletiva à imprensa. Data não foi revelada.

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