Ensino médio

Reduzir número de alunos por sala de aula é um dos desafios do Ceará

Superlotação é um dos entraves da Educação brasileira, com impactos diretos em Matemática e Língua Portuguesa

13 dos 26 professores da Escola Matias Beck cursam mestrado ou doutorado ( Foto: Fabiane de Paula )
01:00 · 18.06.2018 por Lêda Gonçalves - Repórter

O dramaturgo irlandês George Bernard Shaw costumava afirmar que "a escola é um edifício com quatro paredes e o amanhã dentro dele", na perspectiva de que a sala de aula deve ser um perfeito e prazeroso ambiente de aprendizagem, com alunos motivados, instigados e o professor preparado, com condições estruturais de desenvolver suas funções de educador. No Ceará, se muitas barreiras foram vencidas, inúmeras metas alcançadas e que colocam o Estado na condição de referência nacional, ainda existe longo e contínuo processo. Um desafio mais premente é apontado pela mais recente pesquisa sobre Políticas Eficazes para Professores: Compreensões do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), divulgada na semana passada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com o estudo, salas de aula lotadas, jornadas duplas de trabalho, com carga horária excessiva e baixos salários são alguns problemas enfrentados pela maioria dos professores no Brasil, e que colocam o País entre os piores do mundo para a profissão entre mais de 60 analisados. A média brasileira é de 22 alunos por sala de aula, no Ceará, chega a 40.

Além disso, o estudo, que enfatiza a importância do ensino de alta qualidade para reduzir as desigualdades sociais, também revela que apenas 29% dos professores de ciências no Brasil têm especialização na área.

Em países como a Finlândia, que estão entre os que apresentaram os melhores resultados do teste do Pisa na área de ciências, a proporção de professores especializados nessa disciplina nas escolas públicas do País é 83%. No Ceará, informa a coordenadora de Gestão Pedagógica da Secretaria de Educação do Estado (Seduc), Iana Nobre, são 12.863 professores efetivos e ativos da rede pública estadual. Desse número, 8.781 possuem especialização, mestrado ou doutorado, o que corresponde a 68,27% do total.

Segundo Iana, a redução do abandono escolar também é uma das metas da gestão. A rede pública estadual de ensino do Ceará, aponta, apresentou redução histórica do abandono escolar em uma década. A taxa em 2007 alcançou os 16,4%, baixando para 6,6% no ano passado. "O governo lançou o Programa Nem Um Aluno Fora da Escola para garantir acesso e permanência de todas as crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola. Para isso, foi assinado o Termo de Compromisso pelos gestores municipais", destaca.

O desafio é grande, pois de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2017, 50 mil jovens entre 15 e 17 anos nem estudam e nem trabalham no Estado, sendo oito mil em Fortaleza.

Outro objetivo é a melhoria do nível de aprendizagem em disciplinas como Matemática e Língua Portuguesa. O sucesso alcançado com o Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Paic), onde as crianças da rede pública de ensino chegam aos sete anos lendo e escrevendo, deve ser o mesmo a ser conquistado nos próximos anos com as estratégias em desenvolvimento para que os estudantes de 5º e 9º anos concluam as séries sabendo operar cálculos matemáticos e bom nível em Português.

Segundo resultados do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica (Spaece) mais recentes, em relação ao 5º ano, dos 184 municípios que compõem o Estado, 49 foram avaliados com níveis "adequados" de aprendizagem, 129 "intermediários" e seis "críticos". Já a respeito do 9º ano, somente o Município de Frecheirinha foi avaliado como "adequado". Outros 32 foram considerados "intermediários" e 151 "críticos". A meta estadual é reduzir pela metade esse nível crítico ainda neste ano.

Diferença

Em escolas de nível médio em tempo integral e referências do Estado, como a Matias Beck, no bairro Vicente Pinzón, essas estratégias já começam a obter bons resultados. Ali, a evasão escolar é praticamente zero. "No ano passado, por exemplo, dos 280 alunos da unidade, apenas quatro se afastaram. Aqui, temos fila de espera durante o período de matrícula, mas nossa prioridade é para quem vem de escolas da rede municipal", diz a diretora Virgínia Vilagran.

A unidade está inserida numa área de vulnerabilidade social e, com ações do Ceará Pacífico vem conseguindo resultados expressivos na qualidade da educação. Entre os pontos relacionados pelos professores, a valorização, o planejamento e o ensino da disciplina de sua graduação fazem a diferença. Entretanto, as turmas chegam a 40 alunos por sala e isso é um ponto ainda a ser vencido pela gestão. Na avaliação dos docentes da escola, com turmas reduzidas, os professores podem dedicar-se às necessidades de aprendizagem de cada aluno e diferenciar as estratégias para alcançar os grupos com distintos tipos e graus de dificuldade. "Por enquanto, é difícil fazer isso. A Matemática, por exemplo, precisa de embasamento, os conteúdos são dependentes. A Língua Portuguesa também e tem jovens no primeiro ano do Médio que têm dificuldades de leitura", analisa a professora em Língua Portuguesa e Espanhol, Eveline Valério.

Na visão de especialistas, como coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, estabelecer um número ideal de alunos por turma é importante para garantir a equidade no processo educacional. "A questão é ainda mais urgente hoje, quando as salas de aula estão cada vez mais heterogêneas, reunindo alunos com origens e condições sociais muito diferentes, que requerem estratégias específicas", avalia.

Inclusão

Já para o professor doutor em Educação e coordenador do curso de Pedagogia da Uni7, Marco Aurélio Patrício, o Pisa não leva em consideração os modelos de educação de cada País e compará-los é como punir os que, como o Brasil, optaram por um sistema inclusivo. "A rede pública não recusa ninguém e numa mesma sala estão alunos com vários graus de aprendizagem e crianças e jovens com deficiência. É um modelo para o mundo e muitos vêm aqui para conhecer como fazemos", comenta, acrescentando que esse tipo de pesquisa deveria ter outros mecanismos de análise para premiar e não punir modelos diferentes.

Marco Aurélio frisa a alta rotatividade de professores de um colégio para outro também é outro aspecto a ser considerado como ponto negativo. "Estudo revela que três anos ou mais no mesmo local de trabalho melhora a qualidade, sem falar na remuneração, sempre um assunto importante em pauta", pondera.

Em sua análise, a escola em tempo integral é uma conquista a ser destacada, sendo que a cada três escolas no Ceará, uma é em tempo integral. "Temos mais de uma centena, todas bem estruturadas, organizadas, com professores e gestão compromissados e estamos colhendo frutos dos investimentos que o Estado vem fazendo em mais de dez anos". Marco Aurélio aponta o Ceará como um oásis quando se fala em Educação no Brasil onde em muitos estados está regredindo ao invés de progredir. "Acho que a questão número de alunos em sala de aula é real, mas nada que não possamos superar".

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