Tradição nordestina

Quadrilhas juninas do Ceará intensificam rotina de ensaios

Até a estreia nas quadras, os brincantes precisam guardar muito fôlego para a rotina exaustiva de ensaios

Em maio, o ritmo e a intensidade dos ensaios apertam, tanto na agenda quanto nos pés. As mulheres carregam anáguas e saias para cima e para baixo, ajustam-nas à cintura, afivelam os sapatos, revisam os passos ( Foto: Thiago Gadelha )
01:00 · 21.05.2018 por Nícolas Paulino - Repórter

"Um, dois, três, segura na mão da dama!", anuncia o marcador. Os dedos se entrelaçam, os pés se juntam, o casal se posiciona. Quando a zabumba começa seu ribombar, a sanfona acompanha a colega e o triângulo emenda as notas musicais, 134 pessoas se mexem como uma só, perfazendo a mesma coreografia. Está feita a festa de São João - ou, pelo menos, a prévia de como devem ser os próximos dois meses, época em que as quadrilhas juninas disputam diversos festivais Nordeste adentro. Até a estreia nas quadras, no entanto, os brincantes precisam guardar muito fôlego para a rotina de ensaios em maio.

Nascida no bairro Álvaro Weyne, a Quadrilha Ceará Junino debuta, neste ano, com o tema "Telas Vivas", contando, em quadra, a lenda da índia Iracema, conforme os escritos de José de Alencar. Para levar toda a magia da história para os festivais, cerca de 190 pessoas, divididas nas 67 duplas de quadrilheiros, mais banda, elenco e equipe técnica, se empenham desde o primeiro fim de semana de janeiro. Ou, como o presidente do grupo, Roberto Severiano, prefere dizer, "desde o fim do período 'julino' do ano passado".

Afinal, são 365 dias pensando em São João, principalmente em como misturar tradição e contemporaneidade - sim, porque não dá mais para dançar "só de chinelinha de couro, calça xadrez e camisa de chitão". "Se você não inovar e ousar, sua quadrilha se acaba. A gente tá buscando sempre um trabalho diferenciado para agradar ao público, que quer sempre um espetáculo novo", descreve Severiano.

Gente para isso não falta, já que os brincantes advêm não só de bairros adjacentes, mas de outros municípios, como Maracanaú, Aquiraz, São Gonçalo do Amarante, Caucaia e até mesmo Itapipoca, distante 136Km da Capital; e Senador Pompeu, a 287Km. Além disso, a quadrilha movimenta a economia criativa do bairro, já que, durante seis meses, sapateiros, chapeleiros e costureiras são contratados para prestar serviços, conforme esclarece o presidente.

Mas toda essa atividade custa caro. No primeiro semestre, estima Severiano, são gastos mais de R$500 mil. Só no vestuário, cada casal de quadrilheiros investe, em média, R$4 mil. Somem-se, ainda, maquiadores, motoristas e músicos. Segundo o presidente, muitas quadrilhas cearenses só têm sobrevivido pelo apoio de editais das Secretarias de Cultura de Fortaleza (Secultfor) e do Estado (Secult); mesmo assim, as contas não fecham. Para complementar as despesas, os grupos vendem figurinos do ano anterior ou realizam eventos especiais, como lançamentos de novos repertórios.

Quando junho se aproxima, o ritmo e a intensidade dos ensaios apertam, tanto na agenda quanto nos pés. As mulheres carregam anáguas e saias para cima e para baixo, ajustam-nas à cintura, afivelam os sapatos coloridos e revisam os passos antes do treinamento em grupo. A educadora física Dulce Lima, 35, noiva deste ano da Ceará Junino, sabe bem que reflexos essa maratona traz. "Perdi 6kg", revela, contando que precisa ficar mais leve para "desenvolver" bem na quadra. Como aliadas, corrida, musculação e boa alimentação.

A pernambucana já tem trajetória longa em quadrilhas, conseguindo até elencar particularidades entre as práticas de cada Estado nordestino. Na terra natal, por exemplo, os grupos investem em performance e liberdade poética, fatores que só agora estão sendo mais trabalhados no cenário cearense, "mais tradicional" em coreografias e figurino. Contudo, o principal desafio não é o peso da roupa ou a maquiagem, mas a emoção. "A gente passa seis meses ensaiando e o público mexe muito com a gente. É o combustível que precisamos", comenta Dulce.

Enredo

Nos ensaios, os passos são observados por olhos apurados. Seixas Soares, produtor artístico e marcador da quadrilha, não quer ver ninguém dando bobeira. Afinal, "só faltam quatro ensaios. É hora de ter consciência e dominar o que está errado, de direcionar os corpos e os olhares e positivar as coisas", discursa para a "comissão de frente" do grupo, antes da primeira passagem de passos, que dura cerca de 20 minutos. Ao todo, são de duas a três horas de ensaio. A tecnologia, inclusive, ajuda: os brincantes se gravam para fazerem autoanálise depois.

Ao soar da música-tema, os pares se avolumam como uma onda, todos sorrisos na boca e energia nos pés e nas mãos. A coreografia "iracemada" mimetiza movimentos indígenas, corpos entrelaçados e flechas para o ar. As "telas vivas" darão foco a pontos fortes do romance alencarino, como o primeiro encontro de Iracema com Martim Soares Moreno, a guerra entre potiguaras e tabajaras e o nascimento do filho da índia, Moacir.

Tudo ganhou forma na cabeça de Seixas meses atrás. São várias etapas de concepção, estudo e contextualização, que não podem ser atropeladas. "É como a construção de uma casa", resume. Segundo o produtor, hoje em dia, ser criativo é "um dom e um desafio". "O equilíbrio é a grande mola-mestra para que o grupo se destaque ou não", diz. Definido o tema, ele precisa ser materializado na maquiagem, coreografias, movimentações e musicalidade, "sem descaracterizar o que é a quadrilha".

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