Arte terapêutica

Projeto social abre loja de roupas e artesanatos

Unindo o trabalho de costureiras e artesãs do Grande Bom Jardim, a loja Florescer promove o empreendedorismo

01:00 · 02.06.2018
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Noventa mães de comunidades da região do Grande Bom Jardim foram capacitadas através da ação. ( Foto: Kléber A. Gonçalves )

"Nós buscamos florescer o talento e o empreendedorismo que existem nessas mulheres que são chefes de família, daí o nome da loja", explica Natália Martins, diretora executiva do Movimento Saúde Mental Comunitária (MSMC), elevando o tom de voz para se fazer ouvir acima do barulho incessante de máquinas de costura. Na sala ao lado, as mulheres membros do ateliê de arte e moda do MSMC trabalhavam para concluir as peças que estarão à venda na loja Florescer, iniciativa do projeto social sediado no bairro Bom Jardim.

A inauguração da loja acontece na terça-feira (5), no piso L2 do Shopping Del Paseo. A ideia de destinar um espaço para as produções feitas à mão é resultado da iniciativa das costureiras do Movimento e das participantes do ateliê. "Inicialmente, nós começamos a preparar esse ambiente para acolher essas mulheres, para que elas pudessem produzir para si mesmas e para ajudar a sustentabilidade da instituição", diz Elizeu Sousa, coordenador de comunicação do MSMC.

A costura e a confecção de artesanatos integram as atividades da socioterapia e arte-terapia promovidas pelo projeto, que existe desde 1996. "De 2005 pra cá, tem a ligação com o Caps comunitário, que é o Centro de Atenção Psicossocial. Algumas mulheres vieram para cá com problema de depressão, de saúde, e foram para o ateliê tentar melhorar a qualidade de vida. Não é só uma oportunidade de renda para elas, é também uma melhora interna, de autoestima", afirma Elizeu Sousa.

As máquinas utilizadas nas atividades do Movimento são fornecidas por um projeto co-financiado pela União Europeia, que acolheu as mães em cursos de corte e costura. Noventa mães de comunidades da região do Grande Bom Jardim foram capacitadas através da ação. O ateliê de arte e moda foi criado em 2018, e é uma sequência do trabalho realizado com as ex-alunas dos cursos, e envolve outras mulheres que faziam artesanato e customização de roupas.

Renda

As caixas e sacolas plásticas repletas de peças de roupas e acessórios decorativos preenchiam uma das salas do ateliê.

Dentro os materiais produzidos, muitos traziam o verde, amarelo e azul da bandeira nacional, em alusão à Copa do Mundo que se aproxima. "Todas as mulheres aqui têm um dom, um talento, então pensamos em florescer algo novo. Aproveitando esse mês da Copa, queremos florescer essa ancestralidade que há em nós. As pessoas estão desanimadas com o evento, mas queremos motivar essa essência nacional, brasileira", destaca Natália Martins.

Parte da renda da loja será revertida para as ações do Movimento, que atende mais de 3 mil pessoas por mês. O restante será distribuído entre as artesãs do ateliê, que receberão por cada peça produzida. "Elas mesmas decidiram o valor a ser repassado, fizeram uma pesquisa de preço, tudo em conjunto. A confecção continua até quando estão em casa, e estarão trabalhando aqui a todo vapor até o dia da inauguração", revela Natália.

As ações do MSMC a serem beneficiadas pela outra parte do lucro inclui escolas de gastronomia e grupos terapêuticos, dos quais as artesãs do projeto também fazem parte.

"Aqui no Bom Jardim temos um grande núcleo de mulheres que foram abandonadas por seus maridos, e que dependem de programas do governo para sustentarem os filhos", diz Natália. Segundo ela, a ideia é que o grupo funcione, também, como uma forma de aliviar a tensão da rotina, praticando a costura como arte-terapia, unindo terapia de grupo à costura e ao bordado.

Bênção

O objetivo do projeto é alcançado todos os dias para Irislaine de Santana Almeida. Aos 46 anos, a artesã e mãe de três filhos conhecida como "irmã Iris" encontra no Movimento e no ateliê não somente um bom complemento para a renda, mas também um momento de tranquilidade.

"Eu cheguei aqui através do curso de corte e costura, que eu corri pra me inscrever. Depois fui convidada a participar da escola de gastronomia daqui, em setembro de 2016. Isso aqui é um pedacinho de mim, é a minha vida", conta. Em breve, dará início ao curso de confeitaria, o único que ainda não completou.

"As pessoas só pensam no lado ruim do bairro, da violência. Mas aqui tem muita oportunidade de crescer como profissional. Aqui é uma bênção", afirma.

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