abordagem intersetorial

Projeto 'Busca Ativa' visa zerar evasão escolar

Em 2008, o percentual de abandono escolar era de 11%. Neste ano, porém, o índice caiu para apenas 1,4%

01:00 · 17.08.2018

Com a ousada meta de garantir o ingresso e presença de todas as crianças e adolescentes que cursam até o 9º ano escolar, a Prefeitura de Fortaleza assinou, ontem (16), acordo de cooperação técnica para o projeto "Busca Ativa e combate ao abandono escolar", cujo objetivo é resgatar os jovens que estão fora da sala de aula. A abordagem passará a ser intersetorial, com a articulação da Secretaria Municipal da Educação (SME) em parceria com as secretarias municipais da Saúde (SMS) e dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), além da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) e do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

A secretária de educação do município, Dalila Saldanha de Freitas, destaca que o objetivo da cooperação técnica é fortalecer as estratégias já adotadas e ampliar as ações. Em prática desde agosto do ano passado, a iniciativa já colhe bons frutos. Ao fim do período letivo, o índice de abandono escolar declinou, e Fortaleza atingiu sua menor taxa da história. Em 2008, o percentual de abandono escolar era de 11%. Neste ano, porém, caiu para apenas 1,4%, o que representa pouco mais de duas mil crianças e adolescentes evadidas da escola.

Apesar dos bons números, a meta da Secretaria é ousada. Dalila Saldanha mira, para o próximo ano, zerar o número de jovens fora do convívio educacional. "Quando a gente avalia os números de forma fria, obviamente nos dá muito orgulho. Mas nós entendemos que apesar de 1,4% ser um índice baixíssimo, sobretudo em comparação com outras grandes cidades, ainda não é o ideal. Estamos falando de mais de duas mil crianças que pararam de frequentar a escola. Para o próximo ano, vamos tentar zerar esse número. O trabalho é árduo, a missão é difícil, mas agora com as parcerias firmadas e a ampliação das ações, podemos sim vislumbrar tal excelência", explica.

Evasão

O sistema de monitoramento apontou que o pico de abandono ocorre na transição entre o ciclo básico para o Ensino Médio. A maior justificativa é a distorção na relação idade x série. De acordo com dados da Unicef, 40% dos jovens que iniciam os estudos na faixa etária correta não conseguem concluir o Ensino Médio na idade certa. "Não é só colocar a criança na sala de aula na idade certa, mas garantir o aprendizado desse aluno para reduzir a taxa de reprovação", pontua Dalila.

A repetência é uma das causas que leva o aluno a se afastar da sala de aula. Em 2016, o índice em Fortaleza era de 7,6%. Entre a 6ª e 9ª séries, a taxa chegou a 10,4%. Em 2013, o maior índice, quando foi apontado 16,2% nessa mesma faixa. "Não defendo a aprovação automática do aluno, mas o aprimoramento do ensino, por consequência, maior e melhor aprendizado do estudante", conforme observa Rogers Vasconcelos Mendes, secretário de Educação do Estado (Seduc).

Segundo dados da Unicef, cerca de três milhões de crianças estão fora da sala de aula. Deste total, 31% concentra-se no Nordeste. "Trazer o aluno para escola, além de possibilitar um futuro promissor para este jovem, estamos protegendo-o, afastando das mazelas sociais", pontua o secretário de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e Combate à Fome, Elpídio Nogueira.

Zerar abandono

Quinta maior Capital do país, Fortaleza possui a 4ª maior rede de ensino do Brasil, com 561 unidades escolares - das quais 23 são de jornada integral - e quase 215 mil alunos matriculados. "Monitoramos diariamente todos os nossos alunos. Após a primeira falta sem ser justificada à direção da escola, damos início as nossas intervenções. O primeiro passo é o telefonema, depois comunicado por escrito, visita domiciliar e, em último caso, acionamos o Conselho Tutelar", detalha a titular da pasta.

Como consequência, após um ano da implantação do sistema de monitoramento, o "Busca Ativa" já identificou que 14.657 alunos que já haviam sido estudantes da Rede Municipal em anos anteriores, regressaram as salas de aula, dentre os quais, cerca de dois mil, foram através das medidas diretas do projeto. Entre agosto de 2017 e junho de 2018, foram realizadas mais de 10 mil ligações para familiares dos alunos em estado de abandono escolar, mais de três mil correspondências escritas enviadas e mil visitas domiciliares.

Ainda de acordo com a secretária, além de monitorar o abandono desses alunos e obter êxito em sua reinserção, o "Busca Ativa" visa identificar os motivos pelos quais esses jovens se afastaram das salas de aula. Ela aponta, como principal fator, a falta de consciência da família no tocante a importância da educação. "É uma questão que está ao nosso alcance de resolver", pontua. Em seguida, está a territorialização, caracterizada pela mudança de território da família - o que está incluso, também, a hipótese de mudança de cidade.

"Aqui entra o apoio da Secretaria de Educação do Estado e da Unicef, pois conseguiremos identificar esses alunos que porventura não estão em nosso mapa", ressaltou Dalila. Para isso, foi oficializada a adesão à plataforma de Busca Ativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) pela Rede Municipal. De acordo com Rogers Vasconcelos Mendes, "não se pode falar em educação de qualidade enquanto ainda tivermos crianças fora das salas de aula. Então, para solucionar esse problema, necessitávamos dessa intersetorialidade", finaliza.

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