Fortaleza nosso cantos

Produção de conhecimento ecoa pelo mundo

A cerca ou distante do Centro de Fortaleza, há quem direcione rotinas aos estudos em prol do benefício de multidões

01:00 · 14.04.2018 por Emanoela Campelo de Melo - Repórter

Terra da luz e terra da índia Iracema. Quando se fala na cidade Fortaleza, é comum associar a capital cearense às paisagens litorâneas. Em âmbito nacional e internacional são poucos os que conhecem a história dos estudiosos locais capazes de revolucionar a sociedade e o mercado. Sem sol, sem praia e sem mar. É em laboratórios que se encontra uma Fortaleza produtora de conhecimentos específicos.

Por meio de quatro narrativas de áreas distintas é possível entender o quão vasta competência há espalhada pela Capital nas mais diversas ciências - humanas, biológicas e exatas. Nos 292 anos de Fortaleza se destacam as histórias das pessoas que ao dedicarem estudo e tempo foram capazes de elaborar peças e entregar resultados com efeitos que refletem hoje na sociedade e têm perspectiva de revolucionar vidas à frente deste canto.

As trajetórias profissionais dos personagens da terceira parte deste especial mostram esforço que perpassam anos no intuito de inovar em uma urbe onde, muitas vezes, capacidade e investimento são desiguais. Ser ‘Fortalezas’ de competências, cada um na sua área, e perceber que na fonte do conhecimento estão as oportunidades de chegar às relevantes descobertas.

Recurso terapêutico alcança sucesso internacional

Edmar Maciel Lima Júnior

O médico Edmar Maciel Lima Júnior pesquisa o uso da pele da tilápia como curativo em pacientes queimados (Foto: Saulo Roberto)

Dentre as descobertas científicas conquistadas dentro de Fortaleza, uma, recente, repercutiu mundo afora. Há, pelo menos, dois anos, a dor de quem sofreu queimaduras pode ser amenizada. O instrumento utilizado como recurso terapêutico impressiona: pele de tilápia. O que era, em sua maioria, descartado ao lixo, se transformou em um medicamento de sucesso internacional. Aos 61 anos, o médico cearense Edmar Maciel Lima Júnior, presidente do Instituto de Apoio aos Queimados (IAP) recorda toda a sua participação no processo.

“A ideia é de um pernambucano, mas foi em Fortaleza que o estudo foi viabilizado. Começamos a pesquisa aqui há mais de três anos, com ajuda da Universidade Federal do Ceará (UFC). Lá foram feitos estudos em laboratórios e animais. A etapa pré-clínica durou 18 meses, o tempo para a gente comprovar que a pele era de boa qualidade e muito semelhante à humana”, conta Edmar. 

Ao observar que na tilápia havia colágeno tipo 1, resistência à tração e um bom grau de umidade, Maciel percebeu, junto a outros pesquisadores, que ali estava um importante preparo no processo da cicatrização. Com capacidade de aderir à ferida e evitar contaminação do meio externo, a pele é curativo com custo 57% menor do que a tradicional pomada de sulfa. Segundo o médico, no Instituto Doutor José Frota (IJF), aproximadamente, 300 pacientes já foram beneficiados com o recurso. Hoje, 125 pessoas dedicam tempo para estudar e se aprofundar nos benefícios provenientes da pele de tilápia. O aguardo agora é que o Ministério da Saúde a disponibilize em todos os serviços de queimados do País.

“É muito interessante porque o Brasil nunca teve uma pele animal registrada na Anvisa. Nossa pesquisa foi divulgada em 33 países e ganhamos seis prêmios nacionais. Isso é a gente provando que, apesar de todas as dificuldades, no Nordeste e no nosso Estado, há pesquisa de qualidade”, diz. 

Uma década à espera do mercado farmacêutico

Maria Izabel Guedes

Maria Izabel Guedes, há 10 anos descobriu uma substância vegetal para produzir vacina contra a dengue (Foto: Saulo Roberto)

Há, pelo menos, 30 anos, Fortaleza registra casos de dengue. Somadas às outras epidemias vindas do mosquito Aedes aegypti, são milhares de vítimas locais desde o surgimento das novas doenças. Por meio de sistema vegetal, Maria Izabel Florindo Guedes, 62, sabe, desde 2008, como imunizar a população.

Coordenadora do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a professora descobriu, em uma planta, eficácia para a produção de vacinas contra dengue, zika vírus e chikungunya. Segundo Izabel, o Ceará, é único a ter grupo com a tecnologia padronizada em produção de fármacos e anticorpos tendo a planta como biorreator.

“A vacina para a dengue está pronta há muito tempo. A Fiocruz vem para cá para produzir vacinas em plantas, como nós fazemos. Nosso objetivo é produzir e fazer transferência para o mercado. Para montar a plataforma e fabricar com a quantidade certa nós precisamos de milhões. A tecnologia foi toda desenvolvida, falta escalonar, ou seja, colocar em escala comercial”, conta Maria Izabel.

Produzida nos laboratórios do Campus no bairro Itaperi, a 11Km do Centro da Capital e quatro vezes mais barata do que se fosse fabricada em outro sistema a não ser o vegetal, a vacina é capaz de proteger a população, porque é feita a partir dos quatro sorotipos da doença e não causa reações.

Mesmo ao ver o produto pronto e fora do mercado, a professora conta que seu trabalho é gratificante: “Eu não sou cearense, mas moro aqui há mais de 30 anos. Foi aqui que continuei meus estudos. É muito trabalho, mas a satisfação ao ver os resultados e ver gente de fora vindo aprender aqui me deixa realizada. É muita dedicação. É todo um dia a dia para captar recurso e manter as pesquisas”, disse.

Maria Izabel garante ainda que, no Ceará, há mão de obra capaz de produzir muitos dos insumos que são importados ao Brasil. Mas, para isso, há uma lacuna de milhões de reais. “O que falta para deslanchar e aproveitar o enorme potencial local na área da biotecnologia é investimento”.

Combustível a favor do meio-ambiente

Expedito Parente

Expedito Parente foi o primeiro pesquisador a patentear a invenção do Biodiesel no mundo (Foto: arquivo pessoal)

Em meio à crise do petróleo, o engenheiro químico Expedito Parente mostrou ser além do seu tempo. Nos anos 70, enquanto o mundo buscava uma fonte alternativa de energia, o fortalezense trabalhava na proposta de um combustível capaz de favorecer a indústria brasileira e atender às demandas sociais e ambientais.

A primeira patente mundial do Prodiesel, hoje, Biodiesel, produzido a partir de óleos vegetais, saiu em 1980. O ‘parto’ foi duplo para o engenheiro. No mesmo ano nascia, também na capital cearense, seu filho Expedito Parente Júnior, quem daria continuidade ao trabalho após a morte do inventor, em 2011.

Expedito Júnior considera que, ainda em 80, o Prodiesel era mais que uma patente. Segundo ele, o pai via que a proposta ia além do ‘tecnicismo’. Não demorou para que a patente fosse doada. O filho ressaltou que o interesse do pai não se resumia a enriquecer com o combustível, mas sim impactar a sociedade brasileira.

“Tudo aquilo que ele pensou na década de 80 foi implementado nos anos 2000. São 100 mil famílias impactadas pela agricultura e mais de 400 milhões de árvores implantadas. Papai ainda conseguiu ver tudo aquilo que ele pensou. Demorou, mas chegou. É uma política que se perpetua”, garante o também engenheiro químico.

O biodiesel ganhou o mundo, e se afastou do Nordeste. Hoje, conforme Expedito Parente Júnior, a atuação na região é uma lacuna a se preencher. O uso do Programa Nacional de Biodiesel se mostra ferramenta de inclusão social eficaz no Sul. No Ceará, a última fábrica foi fechada há dois anos. Assim, o Estado saiu do mapa do combustível na área industrial.

“Ceará não é um produtor de matéria-prima de biodiesel. Poderia ser. Montar empresa de base tecnológica aqui é complicado. Chegamos a exportar tecnologia no ano de 2006. Meu pai teve sua missão cumprida”, reconhece Expedito Júnior.

Fármacos produzidos a partir da reprodução animal

Kaio Tavares

Kaio Tavares, explica que desde 2009 desenvolve na Unifor a produção de medicamento por meio do leite de cabra (Foto: Saulo Roberto)

“Fortaleza é um polo para produção de medicamentos”. A fala de Kaio Tavares, 31 anos, professor e pesquisador atuante no Núcleo de Biologia (Nubex) e coordenador da pesquisa de Biologia Molecular da Universidade de Fortaleza (Unifor), demonstra a capacidade de se pesquisar dentro do Estado do Ceará. 

Todos os dias dentro da Instituição de ensino, Kaio tem a certeza de que está no caminho certo: produzir e medicar. Nessa ordem. É cumprindo etapas que, nos próximos anos, a humanidade deve ser amparada por fármacos que agem, inclusive, contra vários de tipos de câncer e doenças autoimunes. “Hoje, nós estamos com produções de três tipos de medicamentos. Desde 2009 desenvolvemos a produção de medicamento no leite de cabra. O projeto pioneiro é tornar o leite da cabra o mais parecido com o leite humano. A ideia é ter proteínas humanas que estão nas mulheres e são antibióticos naturais”, diz o docente.

Nascido em Santa Catarina, o pesquisador compara o Sul com o Nordeste ao dizer que, em Fortaleza, há potencial para se cumprir todas etapas da produção dos fármacos. Para ele, o diferencial daqui é o investimento. “O grupo insere esses genes humanos nas cabras para que no leite de cabras possa ter essa proteína humana, isso, pensando no futuro, para que esse leite dê apoio na amamentação insuficiente em muitas mães. Nossos projetos têm resultados positivos. É difícil dizer quanto tempo vai levar para chegar ao mercado. Os testes em animais já mostraram que esse leite tem efeito contra a diarreia infantil. Trabalhamos para provar que esses medicamentos funcionam”, afirma Kaio Tavares.

O caminho, conforme o estudioso, é longo. Isso, porque, no Brasil ainda não existe aprovação de remédios derivados do leite animal. De acordo com o professor, nos EUA e Europa isso já acontece: “Não é barato manter laboratórios com equipamentos tecnológicos. É com esse apoio da Unifor que conseguimos desenvolver pesquisas e vamos conseguir ainda mais além”.

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