Epidemia

Prevenção e apoio são pilares contra suicídio

Porque o silêncio constante não salva vidas: Fortaleza é a 3ª capital brasileira em número de suicídio

O psiquiatra Fábio Gomes esclarece que as causas mais frequentes de suicídios são transtornos mentais - como depressão e bipolaridade
01:00 · 07.04.2018 por Theyse Viana - Repórter

Entre tabus e preconceitos, mitos, medos e angústias, milhões de mãos vazias de socorro tiram a própria vida, anualmente, no mundo. Quando o assunto é valorização da vida, o silêncio pode ser ainda mais letal - quantos fortalezenses sabem que a nossa Capital é a terceira e o Ceará é o quinto do País em número de suicídios? Com o objetivo de lançar luz sobre o problema urgente de saúde pública, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) lançou, ontem, o Projeto Vidas Preservadas, que propõe ações integradas de educação e capacitação de profissionais para a prevenção do suicídio.

De acordo com o promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude (CAOPIJ/CE), Hugo Mendonça, o projeto pretende ser "um grande guarda-chuva para ações estratégicas e fomento de políticas públicas" em todos os municípios do Estado. "Teremos capacitações e seminários para fortalecer um movimento em favor da vida de forma perene. A realidade social referente ao suicídio é tenebrosa. Em 2015, tínhamos 32 casos por dia no Brasil. No mundo, mais de um milhão de pessoas tiram a própria vida por ano. Estamos diante de um incêndio social, precisamos trabalhar políticas para prevenir e evitar", lamenta Mendonça.

Os trabalhos de capacitação realizados pelo MPCE, conforme descreve o promotor, devem englobar pelo menos três eixos - Guardiões da Vida, envolvendo a sociedade, servidores públicos estaduais e municipais, membros de ONGs e conselheiros tutelares; Impulso da Vida, com psicólogos; e Mídia. "Precisamos capacitar essas pessoas para que no meio social onde vivem, como escolas e empresas, elas identifiquem quem pode estar com intenção suicida e saibam como abordar e quais canais de ajuda acionar", ressalta o promotor de Justiça.

Educação

Um dos principais eixos, o Impulso de Vida deve aplicar entre os psicólogos uma dinâmica de abordagem "para as redes municipais de ensino, a fim de evitar que o alunos pratiquem suicídio" - ideia consonante com o que afirma o doutor em psicanálise Rossandro Kinjley. "As escolas têm que ter um papel imenso, porque grande parte dos suicídios tem a ver com meninos e meninas que estão no colégio. Esse ambiente é o mais propício para trabalhar políticas de prevenção, antes de termos de tratar a saúde mental".

Conforme dados do Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, divulgado em setembro do ano passado pelo Ministério da Saúde, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre os jovens brasileiros de 15 a 29 anos, e representa a 15ª causa de mortalidade na população mundial. O boletim aponta ainda que 79% das vítimas no Brasil são os homens - já as mulheres são líderes em tentativas, correspondendo a 69% das ocorrências e 31,3% nas reincidências. "Nós temos uma rede ainda muito incapaz de prevenir o suicídio no óbvio: um depressivo, um esquizofrênico. Se essas pessoas que já têm um diagnóstico têm dificuldade de serem tratadas, imagine alguém que nem assume que está pensando em se matar? O primeiro desafio é identificar quem está em risco", alerta Kinjley, lançando crítica em relação ao Poder Público. "Faltam profissionais, dinheiro e políticas voltadas a isso".

Para o psiquiatra e fundador do Programa de Apoio à Vida (Pravida/UFC), Fábio Gomes de Matos, o acesso à informação, a identificação e tratamento de transtornos mentais e o acompanhamento de quem já tentou suicídio são os três pilares para prevenir novos casos. "É preciso educação e capacitação permanente das pessoas, e que as equipes de assistência sejam integradas e funcionem. O alerta tem que se traduzir em políticas públicas reais, porque elas é que vão diminuir as taxas", aponta Gomes, salientando que a raiz do trabalho preventivo está na atenção primária em saúde.

O Ceará, além das unidades primárias de saúde, conta com as equipes dos Centros de Assistência Psicossocial (CAPS) para receber pacientes que precisem de ajuda com transtornos mentais ou emocionais - entretanto, de acordo com o MPCE, apenas 96 dos 184 municípios possuem uma unidade. Para o titular da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), Henrique Javi, as estruturas físicas não bastam para garantir assistência adequada.

"Precisamos ter profissionais especializados, direcionamento adequado da força. Ter uma linha de fortalecimento da saúde mental ainda na atenção primária, para identificação e devido direcionamento", aponta, declarando ainda que, na próxima semana, um comitê intersetorial permanente para tratar da questão do suicídio, com membros da sociedade civil, instituições e de órgãos públicos, deve ser anunciado no Estado.

Causas

O psiquiatra Fábio Gomes esclarece que as causas mais frequentes de suicídios são transtornos mentais - como depressão, bipolaridade, abuso de álcool e substâncias tóxicas e esquizofrenia -, histórico familiar, impulsividade e pessoas com doenças graves, homossexuais e transexuais, além da quebra de vínculos afetivos.

Se a sociedade é potencialmente a maior aliada contra o problema, atua também como fortalecedora dos mitos - os maiores desafios para a prevenção do suicídio, como aponta Gomes. "Os transtornos mentais, por exemplo, são alvo de preconceitos constantes. Mas são tratáveis como qualquer outra doença, porque o cérebro pode adoecer como qualquer órgão, e tem medicamentos e profissionais para ajudar nisso".

Risco

Para o doutor em psicanálise Rossandro Kinjley, os fatores e relações externas figuram entre as principais causas de suicídio, mas as nuances emocionais humanas ainda emergem como sérios gatilhos para quem tira a própria vida.

"O número de pessoas que se matam por ano é maior do que todas as que morrem por guerra, violência urbana e terrorismo. Em 2011, quando 620 mil morreram por isso, 800 mil se mataram e 25 milhões tentaram. Estatisticamente, eu corro mais risco no meu quarto do que em Bagdá. A minha interioridade é muito mais arriscada e complexa do que o mundo externo", diz Rossandro Kinjley.

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