estigmas

Prevenção do suicídio exige quebra de tabus e rede de saúde preparada

De 2011 a 2016, Ceará registrou 3.374 casos de suicídio. Segundo a OMS, 90% estão relacionados a transtornos mentais não tratados

01:00 · 16.06.2018 por Vanessa Madeira - Repórter

Por muito tempo, acreditou-se que a melhor maneira de lidar com o suicídio era calando. Não falar sobre, não registrar, não noticiar, não discutir. Mas, como forma de prevenção, o silêncio mostrou-se quase tão ineficaz quanto abordagens equivocadas. Indo na contramão, serviu para dar força a um tabu que até hoje dificulta a busca por ajuda e a construção de uma rede capaz de dar assistência a pessoas que necessitam de apoio.

Mesmo com a subnotificação - outro reflexo dos estigmas que cercam o tema - o Ceará, assim como o restante do País, vivencia o crescimento do número de casos de suicídio. Entre 2011 e 2016, de acordo com dados do Ministério da Saúde, 3.374 pessoas tiraram a própria vida no Estado, uma média de 562 por ano e 46 por mês. Segundo relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 90% dos registros estão relacionados a transtornos mentais não tratadas, que vão desde a depressão à bipolaridade. Logo, com o auxílio adequado, os casos poderiam ter sido prevenidos.

"Vivemos em uma sociedade que está adoecida. Hoje não se fala apenas em câncer, AIDS, mas também em depressão, síndrome de pânico, transtornos mentais que muitas vezes levam ao suicídio. As pessoas estão tomadas de problemas devido às pressões que sofrem e não conseguem ver uma saída, então acabam encontrando no suicídio uma solução", explica Rejane Felipe, coordenadora geral do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Fortaleza.

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A criação, ainda que tardia, de campanhas como o Setembro Amarelo, que tem como foco a conscientização sobre a prevenção do suicídio, abriu espaço para que os debates em torno do tema se tornassem mais públicos e recorrentes. No entanto, conforme explica Rejane, aspectos culturais e religiosos ainda fortalecem estigmas.

Preconceito

"Ainda é uma epidemia silenciosa. Pessoas que se encontram com algum tipo de transtorno sofrem preconceito e a própria família silencia em relação a isso. Esse preconceito faz com que não procurem ajuda profissional. É como se silenciar a situação fizesse com que ela não existisse. Por mais que se converse, que se procure abrir espaços para discutir, o suicídio ainda é coberto de tabus", completa a coordenadora do CVV.

A organização, cujo objetivo é fornecer apoio emocional a pessoas com tendência ao suicídio, realiza, hoje, cerca de 200 atendimentos por dia. Por meio do ramal 188, voluntários conversam e auxiliam aqueles que procuram ajuda. O trabalho, contudo, tem limitações. Dependendo do caso, faz-se necessária a busca por serviços ou profissionais que ofereçam tratamento.

Rede

É aí surge o segundo impasse: o despreparo da rede de saúde para identificar, diagnosticar e tratar transtornos mentais. O promotor de Justiça Hugo Mendonça, coordenador do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), afirma que a situação é "digna de extrema preocupação". Também organizador do projeto Vidas Preservadas, que promove capacitações de profissionais para a prevenção do suicídio em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), ele ressalta a carência de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e de leitos psiquiátricos suficientes para atender à demanda crescente.

De acordo com dados da Sesa, apenas 97 dos 184 municípios cearenses possuem Caps implantados. Ao todo, são 136 equipamentos. Fora estes, são disponibilizados 550 leitos psiquiátricos em hospitais especializados e 79 em hospitais gerais.

"Hoje, não temos o mínimo. O único hospital de saúde mental é o de Messejana, então qualquer pessoa que precise de internação tem que ser enviada para lá, onde existem imensas limitações de vagas", avalia Mendonça. "Vários pontos de atenção, com unidades de internação, leitos em hospitais gerais e CAPs, foram pactuados anos atrás, mas até hoje não existem", diz.

O promotor ressalta que, além da quebra dos tabus em torno do suicídio, a rede de atenção precisa ser fortalecida para prevenir casos. Para isso, ele afirma que a sensibilização de gestores e a criação de políticas públicas são urgentes. "É possível prevenir. Mas para isso precisamos quebrar tabus, capacitar pessoas para saber identificar quem são as pessoas com ideias suicidas, como abordar e como encaminhar", acrescenta Mendonça. A supervisora do Núcleo de Atenção à Saúde Mental (Nusam) da Sesa, Aline Teles, observa que o atendimento a pessoas com risco de suicídio não está restrito à Rede de Atenção Psicossocial, em especial os CAPs, estendendo-se aos demais serviços de saúde, como atenção primária, ambulatórios, e urgência e emergência. A rede de assistência social e a rede escolar também estão inclusas, diz Aline.

Capacitação

Segundo a supervisora, a Sesa está "direcionando sua ação no sentido de qualificar as ações nas unidades de saúde para a identificação, manejo e posterior encaminhamento dos casos, quando necessário". "Também estamos estimulando a estratégia de matriciamento para que estas unidades tenham o devido suporte e apoio técnico da equipe especializada em Saúde Mental. Os encontros para discussão e direcionamento das condutas ocorrem pelo menos uma vez ao mês de forma a auxiliar a prática dos casos mais difíceis", explicou Aline.

A representante da Sesa cita, ainda, a parceria com o MPCE, por meio do projeto Vidas Preservadas, com a Secretaria de Educação do Estado (Seduc) e com a Universidade Estadual do Ceará (Uece) para o desenvolvimento de ações de conscientização e capacitação acerca do tema junto a estudantes da rede pública e a profissionais da Saúde.

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