Religiosidade

População vivencia a fé em ruas e shoppings

00:00 · 25.11.2013
Qualquer lugar pode ser cenário para a expressão corriqueira de crenças e desejos

Caligrafia arredondada, caprichada, infantil. "Mamãe do Céu, cuida de mim". O pedido, escrito em uma folha de caderno decorada e arrancada apressadamente, é mais um dos incontáveis recados que enchem a pequena cesta azul da capela do Shopping Benfica, localizado na Av. Carapinima. Como um oásis em meio ao cotidiano atribulado, transeuntes encontram em espaços públicos locais para expressar suas crenças e desejos.

Na capela do Shopping Benfica, centenas de cartas com pedidos de proteção, amor, saúde, paz, sabedoria e saúde acumulam na cesta Foto: José Leomar

Centenas de recados se acumulam na cesta, transbordando. Os pedidos são os mais diversos possíveis: amor, saúde, paz, sabedoria, esperança, lazer, compreensão e, principalmente, proteção. Entre os mais inesperados, os de casamento se destacam. Caneta em punho, homens e mulheres reclamam ajuda divina para vivenciar um relacionamento estável e duradouro.

Do latim "fides", fé significa fidelidade, confiança. Tão característico do ser humano, o ato de crer - seja em Deus, deuses, deusas, entidades ou energias - desperta fascínio e curiosidade de psicólogos, sociólogos, teólogos, filósofos e poetas.

"Fé é aquilo que uma pessoa que voa de asa delta tem de ter no momento de se lançar no espaço vazio, do alto. Fé é uma atitude perante a vida, intraduzível em palavras", definiu o psicanalista e escritor brasileiro Rubem Alves em entrevista à Revista Painel Ciência e Cultura. Ateu, o autor enxerga na crença uma ação que transcende a religiosidade.

Católica, a estudante Carolina Esmeraldo, 22, encontra tempo para o contato espiritual entre as atividades cotidianas. "Sinto-me acolhida quando passo por uma capela assim, no meio do shopping. Esses são símbolos que me fazem sentir paz, como se eu estivesse em casa. É muito bom saber que posso dar graças a Deus até nesse ambiente. Quando Ele age, não quer nem saber onde, Ele age!", acredita.

Rotina

É comum encontrar passageiros rezando o terço no ônibus, durante o trajeto. Não é raro ver também hinduístas cantando mantras nas ruas ou evangélicos distribuindo orações.

Vivenciar a fé em lugares públicos é tão corriqueiro que, recentemente, a Prefeitura de Fortaleza colocou uma grade de proteção na imagem de Nossa Senhora de Fátima, na Av. 13 de Maio, para evitar inscrições e pedidos escritos por fiéis na base da estátua. "A experiência de fé é passada através da fala. As pessoas que colocam bilhetinhos na cesta da capela do shopping acreditam porque vivem uma experiência que passou através da tradição popular. Não existe local certo para viver a fé", ressalta o teólogo Jean Souza dos Anjos.

Para o estudioso de religiosidade, o cotidiano é o espaço de experimentar as crenças individuais. Por isso, até um local de passagem e transição, como um shopping, pode se transformar em um templo pessoal. "A tradição e a teologia afirmam que o nosso corpo é o Templo do Espírito Santo, portanto, nós devemos vivenciar a nossa fé através do nosso próprio corpo e das nossa ações", opina Jean.

A fé divide opiniões, mas mostra-se presente em pequenas atitudes diariamente. Para Jean, o sagrado no qual acredita-se deve aumentar a percepção de humanidade. "Penso que quem tem fé em Deus deveria também ter fé no homem e na mulher e fomentar aqui e agora para vivermos um mundo melhor e mais justo", conclui.

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